quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Talvez

A princípio, situava-me nessa mancha enorme e informe de indecisos. Num Universo de sim e não, de certezas e de dogmas, de posições óbvias, de branco e preto, situava-me na mancha inconvicta do talvez. Não sei se há mérito em ser-se talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem quer ouvir não (Pepetela), e nesse sentido tanto pode ser visto como uma capacidade de ver todos os ângulos da questão como uma incapacidade de tomar uma posição. Independentemente disto, um talvez é sempre um impasse. Um talvez é um bom ponto de partida, mas a dúvida só é útil se com ela sondarmos as várias possibilidades e pudermos informadamente tomar uma decisão. E foi assim que do talvez cheguei ao sim.

A pergunta que vai a referendo é já conhecida de todos: Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado? Frei Bento Domingues, neste seu texto, coloca muito esclarecidamente a questão: não se trata de saber quem é e quem não é pelo aborto, neste prazo e nestas condições, mas quem é ou não pela penalização da mulher que aborta neste prazo e nestas condições.

É inevitável discutir, a propósito disto, filosofias, direitos, éticas e morais. E é bom que se o faça. Só que se perde, assim, o essencial da questão, caindo-se naquele impasse do talvez, porque no que toca a filosofias, direitos, éticas e morais, todas as posições são subjectivas e o consenso é uma impossibilidade fatal. E parece-me que a questão fulcral aqui é a questão do aborto clandestino.

A verdade é que se fala muito na liberalização do aborto que esta alteração ao Código Penal, a ser feita, vai trazer, mas o facto é que liberalizado se encontra ele agora, à margem da lei, na clandestinidade. Achei interessante que Vital Moreira falasse não só em despenalização, mas também em “desclandestinização”, porque na verdade também é disso que se trata. Na situação actual, o aborto é um negócio sujo que enche os bolsos de muita gente, à custa da saúde e vida de muitas mulheres. E os embriões perdem-se para caixotes do lixo de ruas onde não passamos por pudor e ignorância. As vantagens de trazer o problema do aborto para a legalidade prendem-se, sobretudo, com o facto de as mulheres que hoje abortam, em situações que nem imagino e por razões que, imaginando, desconheço, entrarem no Sistema Nacional de Saúde (SNS), onde terão acesso a informação e acompanhamento médico e psicológico. Trata-se de se poder tomar uma decisão informada em vez de uma desesperada e silenciosa, por falta de outros recursos. Ao entrar no SNS, a mulher e o companheiro (se este se não demitir das suas funções ou se não o demitirem), entram nesse maravilhoso mundo da burocracia informatizada. Nós, portugueses, estamos habituados a uma burocracia excessiva e morosa que tanto nos irrita, mas neste caso é essa burocracia que assegura à mulher um acompanhamento personalizado e cuidado. E as razões íntimas que a levam a abortar deixarão de ficar no ceptro do seu útero raspado e passarão a fazer parte de uma ponderação reflectida e acompanhada.

O problema do aborto é, também, o combate aos factores que levam a gravidezes indesejadas. Embora ainda esteja longe da maternidade, vejo-a e à paternidade como um projecto transcendente de amor e responsabilidade. A maternidade e a paternidade deveriam ser algo querido e desejado. Mesmo quando uma gravidez aconteça indesejadamente, só faz pleno sentido se passar a ser desejada. Por isso (e este é possivelmente o único ponto de convergência do sim e do não, para além da condenação do aborto em si), é de enorme importância que se aposte na criação e reafirmação de infra-estruturas e mecanismos de combate efectivo a esses factores. Já existem instituições de apoio à grávida, mas a verdade é que são insuficientes. Já existe uma panóplia de métodos contraceptivos à disposição, e são cada vez mais divulgados, mas a verdade é que isso não chega (e há ainda que considerar a sua falibilidade). Fala-se em Educação Sexual, mas nunca se viu nada palpável, e é tão evidente o tabu que ainda é a sexualidade nesta sociedade reprimida pós revolução sexual. O facto de se legalizar o aborto não impede – pelo contrário, estimula – que se aposte em tudo isto. Porque obviamente ninguém quer que o aborto se torne num método contraceptivo (se bem que seria sempre um contraceptivo violento e doloroso, invasor da intimidade da mulher, e cruel para o embrião).

A questão a referendo leva-nos ainda a falar de prazos. As dez semanas levantam obviamente as tais questões filosóficas e éticas e morais e de direitos. O problema é que, para despenalizar o aborto, para acrescentar uma alínea ao artigo do Código Penal, será sempre preciso estabelecer um prazo, sob pena de se cair na arbitrariedade total. Vital Moreira, que sabe infinitamente mais do que eu em questões de direito, considera moderado o prazo das dez semanas, sobretudo comparando-o com os de outros países da Europa que vão até às doze. Sustenta que dez semanas é um prazo suficiente para que a mulher se aperceba da sua gravidez e pondere sobre as razões que a levaram a considerar a hipótese de abortar. Por outro lado, considera também que no período indicado o desenvolvimento do feto é ainda muito incipiente, faltando designadamente o sistema nervoso e o cérebro, pelo que não faz sentido falar num ser humano, muito menos numa pessoa. E tanto Vital Moreira como Frei Bento Domingues citam o padre Anselmo Borges, professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, para sustentar a sua argumentação em relação a este ponto: “a gestação é um processo contínuo até ao nascimento. Há, no entanto, alguns “marcos” que não devem ser ignorados. (...) Antes da décima semana, não havendo ainda actividade neuronal, não é claro que o processo de constituição de um novo ser humano esteja concluído.” Inevitavelmente, este ponto é muito sensível. E é importante considerá-lo, embora no início tenha dito que é de algum modo um desvio do ponto central. E é sensível porque levanta as perguntas do início da vida humana e dos direitos humanos. Eu não sei quando começa a vida humana, tal como não sei qual o sentido da vida, se o há. Na verdade, parece-me mesmo fatalmente impossível responder a qualquer uma destas questões (não é esse também o fascínio da Filosofia?). É certo que bate um coração no feto, pelos vistos não é tão clara a existência de um cérebro até às dez semanas. Mas também é verdade que é imensamente complexo o processo de desenvolvimento humano, sobretudo no seu início. A referência do cérebro do embrião fez-me pensar que não deixa de ser curioso que para efeitos jurídicos a morte física seja declarada quando o cérebro deixa de funcionar, devido à impossibilidade de regeneração das suas células. Assim, a morte física é a morte cerebral. É óbvio que não podemos reger-nos por um critério jurídico para determinar o início da vida humana, mas não deixa de ser curioso reparar na importância do cérebro na determinação jurídica de prazos.

Mas se o prazo das dez semanas levanta questão difícil, essa é a questão dos direitos, que é, na verdade, um problema de colisão de direitos. Quando vi Fernando Santos declarar da sua bancada do não no Prós e Contras que o problema da despenalização era uma “falsa questão” e que o verdadeiro problema era o do direito à vida, senti uma espécie de nó no estômago. A verdade é que esta simples expressão representa uma certa incapacidade de compreender o que vai a referendo no dia 11. O que vai a referendo não é o começo da vida, não é uma questão de direitos fundamentais, não é uma questão moral. Seria absurdo qualquer uma destas questões ir a referendo, para além de que a Constituição o proibe. O que vai a referendo é, como disse no início, saber se uma mulher que faça um aborto no prazo e nas condições previstas deve ou não ser penalizada. Obviamente que, na consciência de cada um, esta questão levanta um problema de direitos. E esse não é só um problema ético e moral, mas também jurídico.

É difícil discutir os direitos porque é irresistível pegarmos neste e naquele artigo da Constituição para moldarmos a lei ao nosso ponto de vista. Se é verdade que a lei constitucional consagra o princípio à vida, afirmando-a como inviolável, também é verdade que faz assentar o Estado de Direito democrático em que vivemos no princípio da inviolável dignidade humana. A Constituição protege também a integridade física e moral das pessoas e o direito à liberdade. Aliás, a personalidade humana está também tutelada no Direito Civil, naquele tal artigo das setecentas e três páginas. E engloba de igual modo o direito à vida, à dignidade, à liberdade, à identidade, à honra… e tantos outros.

E assim se esbarra na existência de dois direitos em colisão: o direito à vida e a uma gestação processada de modo próprio por parte do concebido, e o direito à dignidade humana e à liberdade de escolha por parte da mulher. Juridicamente, só a mulher, por ter personalidade jurídica (que se adquire no momento do nascimento completo e com vida), tem a plenitude destes direitos. Mas o concebido, enquanto elemento frágil, também tem direito a protecção jurídica. Por exemplo, a tutela da personalidade do concebido abrange a sua personalidade moral, podendo ser civilmente indemnizáveis as injúrias e difamações ao nascituro concebido. Isto mostra bem a complexidade da questão. Mas em direito, as questões de colisão de direito resolvem-se através de uma de duas maneiras: ou se considera que os direitos são de espécie igual e se busca um compromisso, ou se considera que um dos direitos é superior e deve prevalecer, lesando no mínimo o direito considerado inferior. Claro que o ideal era, como aprendemos desde pequeninos, conseguir chegar sempre a um compromisso. Contudo, a maior parte das vezes isso é impossível. Aqui, bem se vê, não é possível encontrar um compromisso porque não é possível a mulher abortar e o embrião viver em simultâneo. Portanto, há um direito que deve prevalecer sobre o outro. A sensibilidade desta escolha está no facto de, no fundo, estarem em causa dois direitos à vida. No caso do embrião está em causa o direito à consecução do nascimento com vida e no caso da mulher está em causa o direito à dignidade humana, à autodeterminação e ao livre desenvolvimento da personalidade. A dificuldade está em determinar qual deve ceder. E esse é um passo que passa da constatação à decisão. E é aí que divergem o “sim” e o “não”. Eu admito que me é difícil determinar qual destes direitos deve prevalecer, e admito também que, ao votar sim, estou a escolher o direito da mulher face ao do embrião, até às dez semanas e num estabelecimento de saúde autorizado. Percebo também que a afirmação incondicional do direito à vida seja o melhor argumento do não. A única fragilidade deste argumento é que, votando não e mantendo o aborto clandestino tal como está, o direito à vida do embrião continuará a ser violado descaradamente – e o da mulher também.

Não

Acho que se impõe que exponha este ponto de vista primancial para depois voltar às razões que justificam a minha opção.

O que está em causa neste referendo não é simples. é um assunto verdadeiramente complexo e complicado. Tentando chegar ao cerne da questão, penso que tudo se resume, objectivamente, ao confronto de dois direitos essenciais ao ser humano. De um lado temos o direito à vida. Do outro o direito à liberdade. Ouço muitos a dizer que o NÃO apenas pesa um dos lados (o direito à vida) esquecendo por completo o outro. Não é verdade. Aliás, enquanto que posso afirmar com plena confiança que nunca ouvi nenhum apoiante do sim falar do outro lado da balança, do direito à vida, posso também e felizmente afirmar com alegria que o não não esquece o lado que quase cega os apoiantes do sim - O lado da mulher. Esta ponderação entre os dois direitos é difícil e desenha com uma linha muito ténue o limite daquilo que subjectivamente será mais justo. Penso que é um erro centrarmo-nos na mulher, nos direitos que ela tem, no que sofre ao fazer um aborto clandestino, e esquecermo-nos que o núcleo do seu problema é um embrião, uma vida que se desenvolve dentro dela. Devemos invocar o direito à escolha da mulher sobre a morte desta vida? Que Direito é o nosso? Isso sim, seria uma sociedade injusta. O direito serve para protejer os mais fracos, os que têm menos voz. Há mil e um mecanismos de defesa do que não se podem defender por eles mesmos. É claro que algumas mulheres que abortam desenvolvem problemas pós-abortivos. Mas não nos esqueçamos que isso não acontece só nos abortos ilegais! Também nos legais ela corre riscos! pode ficar esteril! pode desenvolver infecçoes e reacçoes complicadissimas. Entra maioritariamente em depressao! Muitas ponderam o suicidio! Além disso, e o outro lado? a vida (sim, VIDA) que se esta a desenvolver dentro dela? POr estar dentro da sua barriga a mulher tem o direito de optar para que ela viva ou não? Tipo apêndice?começa a dar problemas, bora remove-lo? E dizem-me que a lei é mais justa? Onde está a justiça no meio de tudo isto? Penso que o lado da balança que mais pesa é o da vida. Porque, aliás, é um direito que ultrapassa até o direito à liberdade. Sem VIDA não há LIBERDADE. Nem de escolha nem de coisa nenhuma. Acho que esta lei não vai melhorar nada. O número de mortes vai aumentar. As complicaçoes pós-abortivas da mulher não vão desaparecer. O aborto clandestino não vai desaparecer. A educaçao sexual vai deixar de fazer qualquer sentido. O aborto vai ser liberalizado até às dez semanas, prazo que também não tem qualquer sentido. A mulher vai poder abortar sem dar QUALQUER razao. Apenas porque sim. Esta lei pode funcionar apenas silenciosamente e não ser, de facto, verdadeiramente eficaz. Mas em que lei estaremos nó a votar? Que JUSTIÇA traz esta nova lei?

domingo, janeiro 28, 2007

Não.

Embora a Dra Odete Santos ache que não, está comprovado que a partir da concepção, do encontro entre o espermatozoide do pai e o ovulo da mãe, há vida. A partir desse momento, o embrião desencadeia uma série de reacções químicas que servem para "comunicar" com o organismo da mãe, avisando-o que ele existe. A nidação é o momento em que o corpo da mãe aceita este novo ser.
Eu penso que aquele embrião não só é uma vida como é um ser humano. A minha lógica é esta: Nós estamos sempre em crescimento. Eu sou completamente diferente do que era há uns anos atrás. Estou mais crecida tanto intelectual como fisicamente. Aliás, vejam só, sou capaz de ter uns neurónios a menos. Qual é o critério que podemos arranjar para dizer que aquilo que está dentro da barriga da mãe não é uma vida? É porque não o tocamos? É porque é pequeno? É porque não tem um tronco cerebral completo? É bom pensarmos que podemos ouvir o coração do feto e que, agora, até o podemos ver perfeitamente a mexer-se dentro do ventre materno, graças às ecografias. É bom pensarmos que o ser pequeno ou grande seria um critério absurdo. (Eu sou maior que tu, por isso sou mais pessoa?) Se calhar convém saber que o nosso tronco cerebral também vai sofrendo alterações à medida que crescemos "cá fora". Que, por exemplo, um bébé de 8 meses tem 1000 triliões sinapses e uma criança aos 8 anos tem 500 triliões. É por perder estes "transmissores de informação cerebral" que é menos pessoa?
Acho que não podemos encontrar nenhum critério nem científico, nem filosófico, nem ético, para a determinação do começo da pessoa humana. Simplesmente porque ele não existe. Seria um critério puramente subjectivo. Sempre. Por isso defendo que a vida humana e a pessoa humana começam no início :). Numa célula tão pequenina mas que já contém toda a informação que nos define e que nos torna únicos e irrepetíveis.
Se sabemos isto, como podemos votar numa lei que desprotege por completo a vida do feto até às 10 semanas? Que este novo ser estará completamente indefeso nas mãos da vontade da mãe? será que este limite das 10 semanas tem algum sentido? Limite que ainda por cima nem está devidamente especificado(é até às 10 semanas de desenvolvimento do feto ou de gravidez, que é duas semanas mais tarde? Será que não por uma questão de poder dar jeito a alguem que a pergunta referendaria e possivelmente a lei contêm esta indefiniçao?)?
(sei que este é apenas um "prato da balança" como diz o Dr. Marcelo Rebelo de Sousa. O outro prato ficará para outro post.)
Abortar é sinónimo de matar.

Tempo de Espera

Sinopse:
“A peça acontece num ambiente de miséria extrema, no qual os elementos de uma família são obrigados a coexistir, cada um trancado dentro do seu próprio universo. O clímax acontece quando, após um parto extraordinariamente violento e primitivo, a Mãe dá à luz uma criança morta. No meio da confusão, a filha consegue finalmente fugir daquela realidade. O espectáculo materializa em cena a fome, a apatia, a falta de capacidade de reagir. Para isso o autor optou por escrever uma peça sem diálogos. As personagens não falam. Não porque se expressem por mímica, mas porque não têm nada a dizer. O único som existente é de um irónico programa de rádio, fonte exclusiva de alguma espécie de alimento cultural, que martela todos os sonhos e fetiches da alienação social.
Durante quase todo o tempo as personagens esperam. Em tensão. E em silêncio."

Eu não sei o que é o teatro. Sei que o sinto como um momento (ou uma sequência deles) único e irrepetível de comunicação entre pessoas. E sei que, só quando acontece este inexplicável entre actores, técnicos, encenador e público, só quando acontece esta cumplicidade estranha e íntima, só quando há este contacto, só assim acontece teatro.
“Tempo de Espera” foi Teatro com t maiúsculo. Senti que me encostavam à parede e me diziam: “Agora olha”. E, olhando, vi todas as coisas que sabemos existir mas tendemos a ignorar. Tal como as personagens, não tenho palavras, não porque esteja trancada no meu universo (Ou estarei? Não estaremos todos?), mas porque não há palavras para ilustrar o que acontece em cena, aquela única e irrepetível vez. Apenas digo que há muito tempo não via teatro assim.

Preâmbulo

Este post vai marcar o início de uma série de outros 10. 10 razões (quem diz 10 diz outras tantas ou menos algumas) que justificam o meu voto pelo NÃO no próximo referendo. Não tenciono ser desrespeitosa, passando a falsa ideia de que desvalorizo por completo "o outro lado", nem apresentar as minhas razões como se fossem verdades absolutas porque não o são. Quero apenas afirmar-me na blogosfera e, qui sa, ajudar quem possa estar ainda cheio de dúvidas e confuso em relação à sua posiçao e ao seu voto devido à real complexidade deste problema.
(atenção que estes posts são assinados por mim, NONO. Não seria justo que a minha querida companheira de blog fosse enfiada no saco das críticas que, provavel e muito possivelmente, irão surgir).

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O Mundo

E o mundo não chega.
E o mundo não pára.
E o teu mundo não chega.
E o teu mundo não pára.

E quando tu respiras, o mundo não pára.
E quando tu choras, o mundo não pára.
E quando tu sentes, o mundo não pára.
E quando tu ris, o mundo não pára.
E quando tu brincas, o mundo não pára.
E quando tu desesperas, o mundo não pára.

O mundo não pára, nunca pára, só porque tu sentes que a tua vida parou.
E quando sentes que ela avança, e anda, e pula, e acontece, o mundo também não pára.
Mas também não acelera.

E quando tudo parece claro como água
Ou quando parece confuso como o fumo,
O mundo também não pára.

E eis a dura verdade: o mundo não anda ao ritmo do teu batimento cardíaco.

Uma verdade vertical

Descobri que não vale a pena perder tempo a pensar por que será afinal importante ser vertical na vida, mergulhando para isso nas raízes mais profundas da Filosofia, da Ética, da Moral e dessas coisas todas terminadas em -ia. A minha irmã diz tudo numa só frase! (sabem aquelas que gostavam de ter sido vocês a lembrar-se, sabem?)

“É importante sermos verticais na vida enquanto a vivermos. Depois dela, seremos sempre horizontais.”

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Avolumadas Teorias

Um dia, quando a nuvem escura da primeira frequência começou a pairar sobre as nossas cabeças, tive a infelicidade de perguntar a um amigo: “Pois é, sai até ao fim do primeiro volume, certo?” Fiquei muito corada quando ele me disse: “Rita, não é para te assustar, mas há mais um volume!” Claro. Eu sabia. Nessa altura, do alto da minha ignorância (que estranhamente se mantém…), pensei para com os meus botões: quatrocentas páginas, ok. Nem é muito. Ai, se eu tivesse sabido…
Qual não foi o meu espanto quando descobri, mais ou menos a meio desse segundo volume, umas seis ou sete páginas daquilo que parecia ser um índice. “Que estupidez, pôr o índice a meio do livro! Ai, este Rabin…” Só quando vi melhor, quando olhei para as entrelinhas daqueles títulos e subtítulos e secções e subsecções é que percebi a mais dura das verdades… Aquele “índice” insignificante a meio do segundo volume era uma remissão directa para a magnífica dissertação de doutoramento do homem e aquelas engraçadas linhas eram na verdade setecentas e três páginas sobre tudo o que há para saber de direitos da personalidade!!! Ai, como te odeio, Capelo de Sousa! (ups, acho que isto é uma ofensa ilícita à dignidade humana e à identidade do professor… mas é um desabafo meu! Talvez isso conte como causa de exclusão de ilicitude à violação destes direitos de personalidade…)
Muitos momentos de desespero depois, estas páginas de tese entaladas a ferros no programa acenderam-me uma luz (sim, tipo interruptor). Empurrar uma tese para um qualquer Secção III de um qualquer livro não editado é chegar a um patamar. E há tanta a gente a viver a vidinha por patamares… Quantos professores universitários não se vêem ascender ao patamar de Deus quando se tornam catedráticos? Do alto da sua cátedra contemplam a obra criada, ditam os apontamentos que outrora escreveram e não mexem mais no programa, que está finalmente perfeito, apenas acrescentando um índice pequenino a remeter para a tese. Infelizmente para nós, pobres estudantes, o destino está traçado. E a mensagem que passa, mesmo parecendo absurda, é a de comodismo e conformação: “eu já fiz a minha parte, já trabalhei muito e já mereci o meu descanso. Agora é a vossa vez de queimar as pestanas”. E se eu prezar as minhas pestanas? Talvez seja absurda esta interpretação, ou então não é assim tão ridícula e tem até algumas semelhanças com, imagine-se, a praxe. Os “doutores”, os veteranos, o deus catedrático… Uma escalada de grau em grau até ao topo! Quase como se confirmasse e, de algum modo, justificasse, a crença profundamente enraizada na hierarquia académica de que o tempo é factor único de valoração e que, quanto mais ele passa, mais alto se está no pedestal do respeito.
E eis que regressa o assombroso pensamento das setecentas páginas… Acho que, no meio disto tudo, já só me pergunto: por que é que alguém se lembra de escrever setecentas e três páginas sobre UM número de UM dos 2334 artigos do Código Civil? (estou claramente a hiperbolizar: o número dois também aparece).
Abençoada vida de estudante!

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Um dia

Um dia acordou e descobriu-se sozinha. Sem rumo, sem rotas, sem metas. Apenas ela. Nesse dia aprendeu o cliché de que é impossível viver sem esperança. E então questionou-se:
– Como pude chegar eu aqui, assim desta maneira? Como foi possível ter chegado até aqui sem nada, com apenas o meu corpo, a minha cabeça, o meu espírito, o meu coração, a minha alma (se é que somos um corpo e uma alma e não simplesmente um todo)? Como foi possível chegar aqui e renunciar a tudo o que me foi ensinado? Como foi possível chegar até aqui sem paredes nem estruturas? Como foi possível ter deixado ruir a minha cabana? Por que renunciei tão prontamente a todas as construções de ferro e aço que me foram impingidas? Por que não aceitei simplesmente tudo o que me deram? Por que não aceitei tudo o que me foram dando sem ousar recusar? Teria sido tão mais fácil… Por que questionei tudo até ao tutano para depois recusar todas as coisas que me foram oferecidas? Por que deixei mirrar as minhas raízes até ao ponto de ruptura? Como foi possível ter deixado calar a minha voz interior?... E agora? O que faço? Como prossigo a partir deste ponto, como reconstruo os meus pilares e ergo a minha casa?

Um dia acorda e descobre-se viva. Sozinha, ainda, mas viva. Sozinha porque somos todos sozinhos, porque não há Amor que nos tire a solidão. Mas viva porque tem consciência de si. Porque se sabe aqui. Viva porque deseja rumos, rotas, metas. Viva porque sente a esperança. Viva porque deseja outras vidas, outros corpos, outras casas, outros portos e caminhos. Viva porque busca a sua verdade. Viva porque se busca, porque nos busca, porque nos deseja – apesar dos medos. Viva porque quer ser útil. Viva porque está activa e parar é morrer. E porque é estupidamente ténue a linha invisível entre o prazer e a dor, entre a lucidez e a loucura, entre a morte e a vida…

Um dia vai acordar e descobrir que valeu a pena. Porque não há esperança se não houver Amor. E não há sentido para nada se não houver tudo isto.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Velhices

Conheço pessoas muito velhas. Pessoas da minha idade, com dois ou três anitos a mais, e que são velhas, demasiado velhas. Não é que tenham a testa enrugada de preocupações e andem curvadas e tenham artroses e doenças que tais, não é que se queixem de tudo e de nada, não é que falem na morte, não é que se queixem da pensão e dos impostos, não é que se queixem do ladrão do Estado (se bem que disso toda a gente se queixa…), não é que tenham filhos e netos e lhes façam uma grande festa e lhes chorem a lagrimazinha de saudade da vida que chega ao fim. Não.
São jovens simplesmente velhos, velhos porque se crêem velhos, porque se sentem velhos, porque se acham velhos. Velhos porque gastam a juventude toda a pensar no seu envelhecimento precoce… e se esquecem do vigor que há nos seus corpos e da energia que há nas suas mentes e da capacidade criadora e produtiva que possuem.
Em muitos de nós o Passado persegue o Presente e, muitas vezes, nos baralha o Futuro. E em todos nós há essa nostalgia melancolicamente dramática, essa saudade que nos arrasta para um tempo perfeito em que fomos verdadeiramente felizes. Naquela altura, quando éramos jovens e ingénuos e puros e inocentemente felizes, naquela altura sabíamos viver. Agora estamos velhos, já vivemos muita coisa dolorosa, já sabemos de mais da vida. Somos experientes. Somos velhos. Temos entre vinte e vinte e cinco anos. Vivemos o fantasma da velhice na terceira década de vida. E depois voltaremos a vivê-la na septuagésima… de verdade. Aquela velhice real de tremer o corpo, de tomar dez medicamentos por dia, de viver por viver, de esperar simplesmente que a morte chegue para ir para junto de quem já partiu, a velhice do corpo que não obedece ao espírito, a velhice da solidão… mas essa agora está longe. E a outra é a que interessa.
A velhice dos vintes não me convence. Eu, que sou nova, acredito na juventude verdadeiramente jovem. E também que há serenidades que só se encontram quando aceitamos aquilo que, com o Passado que fomos, o Presente nos faz – e que isso é uma forma de maturidade que não implica abdicar da juventude. Ser velho não é igual a ser adulto nem é sinónimo exclusivo de experiência. Saber integrar na nossa pessoa as nossas experiências, aprender com elas e tornar-nos mais experientes com elas… isso é sabedoria, isso é crescer, isso é estar vivo. E cheio de força. (Ainda que tudo seja só “palavras, palavras, palavras”…)

terça-feira, janeiro 09, 2007

Ao estilo de...

Fico à margem a olhar, sem ver, o rio
Que corre destinado a desaguar.
Na sombra verde de ramos
(abrigo ou esconderijo?),
na vida verde da erva
(assento ou sepultura?),
Deram-me os deuses este lugar marginal
donde vejo um rio de gotas tão diferentes
que correm juntas, partilhando a corrente.
E eu, aqui, parada, na sombra enxuta,
morrendo sem sentir
a vida no meus pés.

Para que conste, eu sou mais do género de mergulhar. Bem fundo. E explorar as pedrinhas e os peixinhos que se escondem lá de baixo. Gosto de sentir a corrente da vida. Aceitá-la, rejeitá-la, contrariá-la. Gosto de vir ao de cima, de vez em quando... respirar... sentir-me mais leve e a boiar... p'ra de novo mergulhar sem medos... 'pera lá! isto dava um texto bem giro! esqueçam lá esta parte para eu depois nao me repetir no texto que escrever sobre isto! ; )

Ah! Já agr... é ao estilo de quem? De que poeta bem conhecido? Quem adivinha? Fica o desafio! :)

Se

E se tudo for excessivamente pessoal?
E se tudo revelar tudo de nós?
E se todas as palavras
Forem véus translúcidos
Para a nossa humanidade?

Então a dor de se saber pessoa
É mitigada pela partilha dessa dor.
Somos todos iguais no interior
E fingimos todos ser aquilo que queremos
Sorrimos, amamos, rimos e sofremos
E é nessa humanidade que o nosso ser ressoa.

domingo, janeiro 07, 2007

A fuga do advérbio de modo

Tristemente abri o livro na introdução
E li diagonalmente algumas passagens.
O Português era fraco e sóbrio e não
Encontrei sombras de Juridiquês.
Tentei não entrar em pânico e respirei fundo.
Tinham de estar em algum lado.
Novamente, abri o livro e li
Rapidamente mais umas passagens.
Não acreditei nos meus olhos,
Não podia ser, não podia ser!
Insisti teimosamente mais uma vez
E estupefactamente soube a verdade…
Nem um! Nem um advérbio de modo!!!

Oh, desespero! Oh, devastação!
Fugiram desesperadamente
Desse insuportavelmente complexo
Universo jurídico!
Saltaram inconscientemente
Dessas longas e horríveis páginas
E deixaram-me sozinha no meio
De tantas palavras sem sal!!!
Que vai ser de mim sem advérbios,
Sem frases intrincadas e indecifráveis,
Sem ideias rocambolescas e labirínticas?
Para onde foi ele? Hã? Para onde foi? 
Senhores juristas, respondam ao meu apelo!!!
Para onde fugiu o advérbio de modo???

Ansiosamente,
Procuro nas páginas teóricas
De uma teoria impossível
Esse salvador da pátria
E da minha sanidade mental.
Não encontro e desesperadamente entro em pânico.
Palavras secas e ideias sem sumo, notas soltas
Ao longo de trezentas páginas insípidas.
Oh, triste sina a nossa!
Saudosamente relembro esse companheiro de
Horas desesperadas
E secretamente desejo reencontrá-lo
Num amontoado de palavras todas iguais.

Desisto finalmente de encontrar
Com agrado esse artificio poético.
E, em vez dele, desespero com
Paginas e páginas de artigos,
E algumas palavras pelo meio.
Paradoxalmente não acho graça
A glosar as remissões para o Código Civil
E recordo saudosamente
O livro que nos fazia rir a bom rir
Com frases estupidamente confusas
E complexamente intrincadas!

Oh, quem dera agora encontrar
Um bordão ridículo e suculento
No meio de tanta juridiquice
E satirizá-lo e escarnecê-lo
E desse modo me vingar
Da insuportável obrigação
De estudar as fontes, os princípios
As codificações e quantas alegações
Nos obrigam a ler e debitar!!!

sábado, janeiro 06, 2007

Ploft! Cai...

Admito. Perdi.
...ou perdi-me.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Memórias

Não estou magoada, triste, enraivecida.
Estou só. Comigo e com as minhas memórias.
Remoo tudo. Tudo o que posso remoer.
Tudo o que quero e até o que não quero.
Invadem-me a cabeça
Como um balão que ocupou o lugar do cérebro
e que vai enchendo, enchendo, sem controlo.
Memórias.
Memórias.
Memórias.
Toda a minha racionalidade
se afoga nas memórias.
Umas passam como flashes
Outras chegam como flashes mas
ficam.
Todos os meus planos metodicamente desenhados
para que a fuga ao medo e à dor fosse possível
são sugados por esse balão
cheio
berrante
imparável
avassalador
enorme
das memórias.
Se não as tivesse!
Se não me recordasse de nada
não pudesse trazer nada ao coração
passaria tudo tão mais rápido,
Subtilmente,
soprado pelo vento da alma.
É essa brisa que agora vai enchendo
o balão que há-de rebentar.
depois as memórias sair-me-ão pelos ouvidos,
pelo nariz,
pela boca,
pelos olhos,
até ficar vazia...
... de ti.
e aí, poderei encher de novas coisas a cabeça
respirando novos pedaços de mundo.
sem filtros.