terça-feira, maio 02, 2006

O cair do pano

Dediquei todo o meu tempo das duas últimas semanas (e, verdade seja dita, quase todo o meu tempo deste ano lectivo) ao teatro. Finalmente, após imensas dores de cabeça, o espectáculo ficou pronto e foi apresentado, ao longo desta semana, ao público. Das duas cenas que mais me marcaram (e não, eu não estou em nenhuma delas!:)), há uma que mexeu particularmente comigo. É uma cena em que cinco fuzilados lêem as suas cartas de despedida.
O cair do pano chegou, para a minha avó, há pouco mais de dois anos. Dela guardo poucas memórias. O que mais sinto é uma culpa vaga, um quase arrependimento, ou talvez uma saudade estranha por ter vivido sempre na distância. As saudades que sinto – esta espécie de saudade – não são dela, mas sim de não ter crescido perto dela e de só ter estado presente na velhice e na doença.
O momento mais feliz vivemo-lo à entrada daquela casa velha, a meio caminho entre a porta e a eira de secar o milho. Que idade teríamos, eu e a minha irmã? Só me lembro do sorriso rasgado da minha avó e de lhe ver nos olhos pretos umas rugas doces e felizes. Ela estava sentada com uma manta sobre as pernas, mas a mão segurava ainda com alguma firmeza a raquete de praia e ela jogava como podia aquele jogo pateta com as netinhas. A bola raras vezes estava no ar, mas nós riamos as três e a minha avó levava a mão direita à cabeça, sempre a rir, e desfazia-se no seu amor por nós, sentindo-se tão próxima das netas, jogando os seus jogos e rindo com elas… Tenho a certeza de que nessa tarde a minha avó correu connosco pela eira, pelo quintal, pela vila inteira! – Talvez até tenha voado.
Sei pouco sobre a sua vida, que pressinto muito sofrida, solitária e cheia de repressões. O meu avó, que com a velhice se tornou mais meigo e brincalhão, foi, decerto, um rígido pai de família. Do pouco que sei, a minha avó nunca trabalhou. Cuidava dos filhos e da casa. Imagino-a sempre entre quatro paredes, sem ar. E com grades na janela.
Curiosamente lembro-me da voz e do riso. Ouço-os, ainda, na minha cabeça, como peças de um puzzle que, pouco a pouco, vou reconstruindo.
Da sua doença lembro-me bem. Mas essa prefiro não recordar, não sei se porque me é doloroso, se por pudor, ou simplesmente porque prefiro lembrar-me sempre dela sentada com a manta sobre as pernas a rir com as netas. Claro que me lembro da degradação do corpo até aos limites do que é ser-se humano, mas já há demasiado sensacionalismo nas imagens que correm todos os dias e os destroços e desastres tornaram-se tão banais que já não nos tocam a maioria das vezes. Defende-se o corpo, e as lágrimas já não escorrem da alma tão facilmente.
Ouço a carta de fuzilada de uma menina de 17 anos e meio e penso em mim, mas penso também na minha avó, que toda a sua vida foi prisioneira. Penso nessa menina que morreu, algures, sem alcançar a maioridade sequer, e penso na minha avó, que chegou à terceira idade e sofreu no corpo e na cabeça o peso de uma doença devastadora. Penso em mim, também, nos meus amigos e no mundo de liberdades em que hoje vivemos. Penso nas nossas prisões, nos nossos conflitos, nas nossas barreiras e nas nossas ilusões de imortalidade. Penso no que será saber-se que se vai morrer passadas umas horas, penso no que é saber-se que se vai morrer a qualquer momento. Penso no que será já nem se aperceber de que se está vivo, não se aperceber de que se vai morrer.
Eu não me despedi da minha avó, mas ficarei para sempre agradecida por termos almoçado todos com ela no primeiro dia de uma ano que acabara de começar. Não me lembro de pormenores. Na verdade, só me lembro do olhar vazio da minha avó, do seu silêncio. Ela já não tinha consciência de nada.
A minha avó não nos escreveu nenhuma carta, mas já todos sabíamos que não faltava muito para o cair do pano. Fiquei triste, mas aliviada, quando os meus pais me contaram que a avó Ana tinha morrido, no dia 2 de Janeiro. E eu não pude deixar de pensar “Ainda bem que fomos lá ontem.”

2 comentários:

Anónimo disse...

Impossivel ñ comentar...Quantas vezes nos despedimos sem saber???E quantas vezes mais essa imagem "agarra" os nossos sentidos, 1, outra e outra vez e agora...neste preciso momento pq tocaste nas coisas cm as vejo!!! MOMENTOS q ñ lembramos com td o pormenor mas q ao mm tempo nc esqueceremos e q talvez,penso mts vezes, 1carta pudesse "esclarecer"!1carta em jeito de Adeus cm s soubessem q iam partir e(p/mt egoista q pareça) q nos "diminuisse" a dor... Beijinho

Stéphanie

Sérgio Lopes disse...

Eu não tive oportunidade de dizer adeus...
Bonito post! Fez recordar. Obrigado!