quinta-feira, setembro 25, 2008

Rotina

É bom. Ter rotina é bom. Acreditem os que já desesperam só ao ouvirem este amontoado de letras que forma palavra tão abjecta. É bom. Digo-o por experiência. O ócio é o mais lesto e destruidor substituto da rotina. Tendo esta desaparecido, começa o ócio a lentamente ocupar o nosso dia-a-dia, a invadir os tempos desocupados, a absorver a vontade de agir, e começa a injectar-nos uma espécie de nicotina nos tecidos que nos faz querer mais e mais ócio, até já termos esquecido a rotina. Mas felizmente o ócio não vence, o vício não leva a melhor. A sociedade impõe-nos a rotina, como pedra angular da sobrevivência.
Conheci um artista plático que retratou a rotina de uma forma sublime, uma imagem que só um olhar de artista conseguiria captar e depois figurar de tal maneira. É a rotina retratada como uma forma cónica, deitada sobre uma superfície. A empurrar a parte mais larga, e em muito menor proporção em relação ao cone, está a figura humana, que passa o seu dia numa rotina de empurrão da figura geométrica mas que acaba por ir dar sempre ao mesmo lugar, já que o vértice do cone não permite qualquer descentralizão. A rotina como esforço humano que se retoma sempre, e sempre de igual maneira, todos os dias.
Mas a beleza da rotina é esta - é essencial para o ser humano. Para a realização do ser humano como tal. Como ser com objectivos, com metas a alcançar, com etapas para superar, com muitos passos para dar até à satizfação plena, e todos esses clichés demasiado gastos e usados. Mesmo aquele que não faz nada da vida, tem rotina nessa tarefa. Até mundo, o sol e as estrelas no-la impõem. E ainda bem. Que é tão bom.
Vivi uns meses no ópio do ócio. Volto agora à rotina. Aos empurrões. Às obrigações, cansaços, horários, calendários. E sou muito mais feliz. Guardo as marcas das injecções para me lembrar que o ócio começa por saber bem e por saber a "só de vez em quando" até que (quando e como foi que isso aconteceu?) me toma por cmpleto e me apaga.
Viva a rotina!
Insanidade mental?

domingo, setembro 14, 2008

departure

Cá vou eeeeuuuu!! :)
Amanhã parto para o Porto, rumo à Católica. Vai ser bom. Muito bom.
trabalho, trabalho, trabalho.
empenho, empenho, empenho.
esforço, esforço, esforço.
gozo, gozo, gozo.
WOHOO! WOHOO! WOHOO!
:)
espero que a Invicta me traga inspiração para escrever. e coragem para postar o que tenho escrito.
:)

quinta-feira, setembro 04, 2008

21 :)

21...
Não sei porquê mas assusta-me.
21.
A segunda (a definitiva) maioridade.
Com tudo o que isso tem de mau.
mas principalmente com o que isso tem de bom.
Hoje completei 21.
Vá.. É uma bonita idade. :)

segunda-feira, agosto 04, 2008

IEEEEIIE!!! :) :)

ENTREI!!! :)
Na ESML e na ESMAE!!
Acabei por me candidatar também à Escola das Artes da Univ. Católica do Porto e também ENTREI!!
WOOOOOHOOOOOOOOOOO!!!!!
IABADABADOUHHH!!!
Agora... fica a escolha! Que tem de ser feita o mais rapidamente possível! Ai!!
Sugestões? ;)

quinta-feira, julho 10, 2008

fotos

LOOOL!

segunda-feira, julho 07, 2008

COMO?!?

COMO?!? pergunto eu! como é que eu não tenho nada acerca de uma das actividades de Verão mais espectaculares que já fiz?! O EL PAQUITO!!
O ano passado, celebrando os 500 anos após o nascimento de S. Francisco de Xavier, a Companhia de Jesus resolveu organizar uma viagem às terras de dois dos seu fundadores - Sto Inácio de Loyola e S. Francisco de Xavier. Partiu de Portugal um animadissimo grupo rumo a Loyola e a Xavier. Foi nesta última que se desenrolou toda a acção! :) Decidimos que queriamos levar a vida de S. Francisco Xavier (que é verdadeiramente inspiradora) a todos os que por lá passassem. Assim, dividimo-nos em grupos com actividades diferentes. Um comporia um quadro com pessoas vestidas à época que encarnariam a família de Xavier. Outros andariam a vender jornais acerca da fantástica viagem de S. Francisco até à China. Outros venderiam bilhetes para lá, através da Javier lines :). Outros criariam uma espécie de caixa de música que retratasse um bocadinho da vida na China e também a chegada festive e acolhedora de Francisco ao país. Outro contaria a viagem de S. Francisco em fantoches. Eu estive neste último e digo-vos que foi fenomenal! Deu uma trabalhaça coser aqueles fantoches e montar tudo mas valeu mesmo a pena!
Aqui fica a recordação destes dias tão bem passados com amigos (que ficaram mesmo no coração) e,entre estes mas mais especial, Jesus.
Enjoy!

dp ponho mais fotos!

Recordando (trazendo de novo ao coração) :) ...

segunda-feira, junho 23, 2008

waiting

Da ESML...
TALVEZ saiba hoje!
Da ESMAE...
em SETEMBRO!!!! :(

Só queria poder fazer planos e sentir a vida a começar... :(.

Shit.

sexta-feira, junho 20, 2008

Programa de combate à iliteracia e ao analfabetismo cultural

Bom... o que dizer? Eis a proposta dos meus pais para os próximos seis meses. Tarefa de família. Pelo combate à iliteracia e analfabetismo cultural que começa a minar os meus irmãos. Achei que merecia um post. Para além de uma salva de palmas e de risadas aos meus pais. :) Leiam que está giro. E aproveitem para nos acompanhar, se quiserem! :)

Programa de combate à iliteracia e ao analfabetismo cultural

A cultura é um dos bens mais preciosos da Humanidade e representa, em cada geração, o principal legado que os que nos precederam nos deixaram. Devemos todos, portanto, conhecer e respeitar essa herança para que possamos transmiti-la aos que nos seguem… Ainda que a cultura tenha muitas facetas (a música, as artes visuais e plásticas, a filosofia, etc., etc.), a verdade é que um dos elementos essenciais dessa herança se revela na literatura, na escrita que os nossos antepassados cultivaram e que os nossos contemporâneos continuam a produzir. Foi em prosa ou poesia, em romances, novelas ou contos, em ensaios ou manifestos que gerações e gerações de pessoas se exprimiram, pensaram, afirmaram ou se divertiram…

Seja a nossa profissão arquitecto, desenhador, jurista, músico, economista, artista plástico, professor, gestor, político, etc., é essencial que nos sintamos inseridos nesse património, de forma a não ficarmos à margem dos debates de ideias do nosso tempo. Aliás, mesmo a um profissional de limpeza de sanitas fará jeito essa familiarização com o património cultural dos nossos antepassados: ainda que isso não melhore directamente a sua competência para pôr sanitas a reluzir, ajudará a fazer dele um tipo capaz de se divertir e de pensar sobre si próprio… A ser mais Homem, portanto!

Assim, e dadas as lacunas que em casa se sentem nessa matéria, com efeitos terríveis a prazo, elaborou-se um “Programa de combate à iliteracia e ao analfabetismo cultural”.

Objectivo: No prazo de 6 meses, ler e fazer uma pequena ficha de leitura de um conjunto escolhido de obras da literatura mundial e da literatura em língua portuguesa. A pequena ficha deverá também incluir uma pequena biografia do autor e um mini retrato do tempo em que o livro foi escrito (pode usar-se a internet para fazer esta parte do trabalho).

O programa não pode ser encarado como um hobby nem será coisa que ninguém faça “por gosto”… Ao contrário, terá de ser olhado como “trabalho”, como uma seca horrível mas… obrigatória! Será preciso fazer um plano de leituras e disponibilizar pelo menos 3-4 horas diárias para ler, à secretária, com boa luz, em silêncio, sem interrupções, apenas fazendo breves pausas, de hora a hora, para descansar ou trincar qualquer coisa. Ninguém vai achar divertido fazê-lo! É como um remédio malcheiroso que é preciso tomar para nos vermos livres de uma grave doença que nos está a matar (uma morte que, neste caso, é intelectual mas que não deixa de ser tão dramática como a morte física)!

Como o passado mostra que ninguém pode apenas confiar na sua própria força de vontade, haverá um controle diário do número de páginas lidas bem como das fichas de leitura concluídas. Todos os dias logo após o jantar… Sem excepção nem falha! Quem passar no controle, poderá, então, usar uma parte do serão para o computador (chat, jogo ou outro), para ver televisão, para ir à garagem … Nos casos em que a apreciação do trabalho feito tiver sido muito boa, será possível ainda obter autorização para usar uma parte do dia seguinte para outras coisas como andar de bicicleta, estar com amigos/amigas, etc. Em caso de falha, não haverá nem TV, nem computador, nem garagem, nem saídas para fora de casa até os objectivos estarem de novo em dia!

Ao lado deste programa de emergência, cada um dos filhos deverá ainda produzir o seu próprio plano de progresso/recuperação noutras áreas:

(…)

Além disso, deverão fazer, todas as semanas, duas mini-leituras adicionais em inglês, de artigos da Newsweek e do Economist que serão seleccionados pelo pai todas as semanas.

No que respeita às filhas e aos pais, o objectivo de todos terem lido os livros propostos até final do ano também se aplica. Quem já leu mais, está melhor: tem menos para ler agora…

Lista de livros obrigatórios (literatura mundial)

Literatura anglo-saxónica Ernest HEMINGWAY, O Velho e o Mar Pearl BUCK, Onde Mora a Felicidade Graham GREENE, O Americano Tranquilo Aldous HUXLEY, O Admirável Mundo Novo George ORWEL, O Triunfo dos Porcos (Animal Farm) – em inglês George STEINBECK, As Vinhas da Ira Oscar WILDE, O Retrato de Dorian Gray Edgar Alan POE, Contos Fantásticos Charles DICKENS, David Copperfield Walter SCOTT, Ivanhoe Somerset MAUGHAM, O Fio da Navalha Emily BRONTE, O Monte dos Vendavais Robert-Louis STEVENSON, Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Literatura russa

Leon TOLSTOI, Guerra e Paz Fyodor DOSTOIEVSKY, Crime e castigo

Literatura francesa

Alexandre DUMAS, O Conde de Monte Cristo André MALRAUX, A Condição Humana Marcel PROUST, Em Busca do Tempo Perdido – 1º volume Gustave FLAUBERT, Madame Bovary Honoré de BALZAC, A Comédia Humana Victor HUGO, Os Miseráveis Albert CAMUS, A Peste Emile ZOLA, Nana François VOLTAIRE, Cândido Jules VERNE, Volta ao Mundo em 80 Dias

Literatura italiana

G. Tomaso di LAMPEDUSA, O Leopardo

Literatura espanhola

Miguel de CERVANTES, D. Quixote (pelo menos o volume 1)

Literatura alemã

Franz KAFKA, A Metamorfose Tomas MANN, A Montanha Mágica

Literatura do Norte da Europa

Karen BLIXEN, A Festa de Babette

Lista de livros obrigatórios (língua portuguesa)

Camilo CASTELO BRANCO, Amor de Perdição Eça de QUEIRÒS, Os Maias, O Mandarim, O Conde de Abranhos Ramalho ORTIGÃO, Farpas Escolhidas Júlio DINIS, Os Fidalgos da Casa Mourisca Almeida GARRET, Viagens da Minha Terra Fernando PESSOA, Mensagem Miguel TORGA, Os Bichos Jorge AMADO, Capitães da Areia Alexandre HERCULANO, Eurico o Presbítero Aquilino RIBEIRO, A Casa Grande de Romarigães

estes são os primeiros (de muitos!) seis meses! :)

terça-feira, junho 10, 2008

Será?!...
:

quarta-feira, maio 21, 2008

fogo que arde e se vê! :)

Pensei que não era possível mas estou cada vez mais apaixonada!
paixão? é AMOR mesmo! ALEGRIIIA! :)
(pela música!
Não tinha que explicar, pois não?
mas, just in case, assim não há espaço para dúvidas!)

quinta-feira, maio 15, 2008

WOOHOOOO!! :)

Não têm noção de como fomo absolutamente BRILHANTE, GENIAL, FANTÁSTICO, FENOMENAL, FORA DESTE MUNDO, ARRASADOR, SURPREENDENTE, o concerto deste que é, agora decididamente, um dos meus músicos preferidos. Não há palavras para explicar o concerto. Foi magnífico. O melhor concerto da minha vida. Quando ele cá voltar, a vossa presença é obrigatória. Paguei 30 mocas, fiquei pertíssimo dele e valeu cada cêntimo.
Ainda estou de ressaca da bomba que foi este concerto.
GO BOBBY! ;)

Retrato de uma homenagem

Tonta de sono e a maldizer os atrasos recorrentes dos autocarros entre dentes – mas com aquela bonomia portuguesa de quem gosta de refilar por tudo e por nada, aquela ligeireza de quem conta antecipadamente com a imprevisibilidade das coisas e se deixa encantar pela falta de controlo que tem sobre quase todas elas – lá subi eu para o autocarro. Ia um pouco atrasado, como sempre, mas chegava à justa, sobretudo se o condutor se pensasse piloto de rally e esticasse um pouco a máquina a subir os Combatentes. Chegar a horas eu chegava, pior era o sono, o cansaço… Nem que tivesse de tomar cinco cafés de enfiada, não, aquilo eu não perdia nem por nada.

Religiosamente, como quem cumpre um ritual sagrado pela última vez, lá fui para a sala três, a sala do canto naquele claustro histórico, a sala com o nome de um qualquer ilustre jurista, de que não me lembro ou não sei ou desconheço, porque para mim, ali, naquele momento, ilustre havia só um e eu estava a vê-lo cruzar a ombreira da porta.

Não há como esquecer aqueles olhos pequeninos, que nos olham por detrás dos óculos de massa, aquele sorriso que nos conduziu pelos meandros do Direito Penal, pelos risos do humor e pelo fascínio de quem ama o que faz e é dotado de uma invejável lucidez sobre o mundo, sobre a vida, sobre o Homem. Costa Andrade é um homem apaixonado. Talvez por isso as suas aulas tenham sido sempre tão apaixonantes.

Desta vez, a sala não estava cheia. Mas os fiéis mais convertidos lá estavam. A ouvir o agradecimento dele, a beber a humildade dele, a ouvi-lo dizer que tinha pena de não poder ter tido uma relação mais pessoal com os seus alunos, connosco, mas que nós ainda éramos muitos e que para além das aulas ele tinha imenso trabalho, mas que tinha gostado imenso do curso deste ano e que desejava profundamente que todos nós passássemos logo à primeira – claro, acrescentou no seu toque de humor, que mais não fosse pela razão prática de assim só ter de fazer um exame! E nós rimos com ele, partilhando daquela sensação incrível que é a reciprocidade.

Eu confesso que estava estupidamente emocionada. E daí, estávamos todos. Quando ele nos desejou boa sorte para a vida, um rugir de palmas caiu sobre a sala, quarenta almas ficaram de pé, como no fim de uma excelente peça de teatro, em homenagem espontânea ao mestre. E ele, que não gosta nada destas coisas, fazia gestos com a mão para nós pararmos, no meio de sorrisos. Ele, como eu, tem alergia a formalismos atávicos, parolos, e coisas dessas é o que mais abunda naquela faculdade, onde se aplaude de pé por tudo e por nada, sobretudo quando não há nada a aplaudir. Muitos professores ali inchariam em vénias perante tal demonstração, ainda que ela fosse meramente formal. Costa Andrade ficou visivelmente emocionado, tão emocionado que ficou sem saber bem como reagir. Chamando a assistente para ao pé de si, estendendo o aplauso para ela, disse muito simplesmente quando parámos: “ Para a próxima aula não vos digo nada!”.

segunda-feira, maio 05, 2008

adeus eferreá?

Ontem não ouvi um único eferreá. E irrita-me constatar que o que mais ouvi foram as deprimentes lengalengas, que mais não são do que um encadeamento dos piores palavrões perfumado com etanol e entoado por bocas que já nem o conseguem articular, repetidas até à exaustão.

O deterioramento da verdadeira tradição académica (que, segundo o meu pai, devia ter morrido no momento em que a Universidade deixou de ser um ensino de elite e se massificou, massificando com ela todo o costume da praxe) chegará ao ponto de matar até o eferreá?

Onde está (onde pára) a Coimbra, lição de sonho e tradição?

domingo, maio 04, 2008

pergunta do dia

Onde é que é o lugar do morto numa carrinha funerária?

sexta-feira, maio 02, 2008

Para uma compreensão da arrogância e do preconceito no mundo de hoje (Estudo científico sobre a filosofia por detrás destes comportamentos humanos)

Eu até sou uma pessoa pacífica. Nunca matei ninguém nem tenho ideias de fazê-lo. Pelo menos para já, mas quem sabe um dia mais tarde… já tive vários animais de estimação e, à parte de algumas negligências menores, nunca os tratei mal. Geralmente tenho cuidado com os sentimentos dos outros, sobretudo se esses outros me forem queridos. Portanto, no geral, acho que sou uma pessoa pacífica.

Mas, como qualquer ser humano, há em mim sementes de violência. Pronto, confesso: eu tenho um lado extremamente violento e sanguinário. Tivesse eu a possibilidade de me tornar uma ditadora implacável e nem o mais implacável dos ditadores da História teria alguma hipótese comigo. A não ser que fizessem beicinho. Aí eu reconsiderava.

Independentemente disso, tenho vindo a desenvolver uma teoria sobre as sementes de violência das pessoas comuns e isso levou-me a escrever um pequeno artigo científico. Hoje em dia, toda a gente escreve artigos científicos (e não só, isso seria reduzir demasiado a possibilidade de escrita, o que não é nada democrático), por isso eu pensei em escrever um também. Pode ser que algum cientista/filósofo o leia e decida fazer algo útil com ele (não vou dizer o quê aqui porque ficaria extremamente deselegante escrito, mas é fácil imaginar as muitas utilidades de um artigo como este).

A lei geral da minha teoria sobre as sementes de violência das pessoas é a seguinte: basta premir os gatilhos certos e elas disparam. Ou, numa enunciação mais cientifica, premix gatilli certi et disparant.

Eu por exemplo sei que há coisas que despertam em mim essa besta violenta. Quais são? Bem, a arrogância de alguém. O preconceito. E então a arrogância preconceituosa ou o preconceito arrogante… ui! Pareço uma terrorista, um cão raivoso, arreganho os dentes e só me apetece dizer: ouve lá, já olhaste bem para ti? Sim, aí tenho desejos profundos de ser estupidamente primária e idiota. E entro num grave dilema moral: devo dar um murro na cara da pessoa que está a ser arrogante e preconceituosa ou insultá-la? Isto tem-me tirado o sono.

Pode parecer um problema menor, mas a verdade é que é um conflito interior comum a muitos seres humanos. Quem nunca passou por algo semelhante, ao deparar-se, em certa situação, com a estupidez cega de alguém, ficando depois sem saber que tipo de reacção seria mais eficaz para afastar momentaneamente a estupidez e apaziguar a irritação por ela provocada? Ninguém, nem mesmo alguém muito estúpido, porque há sempre alguém ainda mais estúpido.

Foi o desejo de ir mais longe no estudo sobre a arrogância e o preconceito (e a sua relação com a estupidez humana), aliado ao facto de eles serem em mim gatilhos para a violência, que me levou a escolher este tema tão pouco desenvolvido na literatura científica existente.

Sei bem que corro o risco de parecer arrogante em certas passagens deste estudo. Contudo, há aqui uma coisa a favor do afastamento de tal comportamento das minhas palavras: é muitas vezes difícil distinguir a estupidez da arrogância, já que elas andam frequentemente de mão dada. Aqui, no entanto, é claro e não há possibilidade de confundir uma com a outra – este texto é demasiado estúpido para ser arrogante.

Deixando, para já, de lado a estupidez, começarei por centrar a minha análise na arrogância em si mesma considerada, enquanto comportamento autónomo de um indivíduo.

A arrogância é uma atitude palerma. Uma pessoa arrogante é uma pessoa que age com suposta superioridade, convencida de que é excepcional e de que, como tal, está acima dos comuns mortais. Se está acima dos comuns mortais, não se pode relacionar com eles num plano de paridade. E se não pode relacionar-se com os outros seres humanos como iguais, então está sozinha. Num pedestal (mesmo que seja imaginário), é certo, mas sozinha. A lógica imbatível destes argumentos leva-nos a concluir algo terrível: uma pessoa arrogante é uma pessoa só. Sobretudo se a isto acrescentarmos que a arrogância é algo pouco atraente e que repele a empatia das pessoas. Em suma, a arrogância é uma atitude palerma. Mas então por que há tantas pessoas arrogantes no mundo? A resposta é simples e perturbadora: porque o mundo não é lógico. E é palerma.

Do mesmo modo, também o preconceito é algo, em si mesmo considerado, na sua essência, palerma. Um preconceito é uma ideia que alguém fixou sobre uma determinada coisa ou pessoa com base num estereótipo. É uma contingência elevada a verdade universal, imbatível na sua evidência. Pode não ter qualquer relação com o real, pode não ter absolutamente nada a ver com o objecto do preconceito, mas para aquele que o profere ou pensa, isso não interessa. Para quem acredita no preconceito, é tão evidente que ele corresponde à verdade como é evidente que a laranja do Algarve faz uma excelente limonada. Uma pessoa que tem preconceitos em relação a qualquer coisa é, logicamente, uma pessoa clarividente. Por isso é que há tantas pessoas preconceituosas no mundo: ter preconceitos faz-nos ver o mundo com clareza, na nossa cabeça. É uma chatice ter de realmente conhecer as pessoas e as coisas, vê-las como elas são, e ter de refazer constantemente o mapa do real que vamos fazendo à medida que vivemos. Evidentemente, é muito mais fácil ter imagens fixas e ideias estereotipadas sobre tudo. Poupa-se imenso tempo e chatices e tem-se muito mais segurança e certeza sobre o mundo em que se vive, na medida em que é um mundo criado e moldado pelos preconceitos. E assim fica-se com muito mais tempo para beber limonada (laranjada não dá para fazer no Algarve porque lá não há maçãs).

Feita esta análise sobre a arrogância e o preconceito isoladamente, há que relacioná-los entre eles e ainda com a estupidez.

Como já ficou claro, o mundo não é lógico. Contudo, há certas coisas coerentes no mundo, que só podem ser entendidas como desleixo de um hipotético criador ou então atribuídas ao carácter aleatório do universo. Assim, há uma força poderosíssima que é inerente ao ser humano e que é o instinto de sobrevivência, embora seja observável que ele não se encontra desenvolvido em igual grau entre os seres humanos. Como tal, há seres humanos que desenvolvem mais este seu instinto, estando por isso dotados de uma maior capacidade de sobrevivência. Estudos recentes como este demonstram que, no fundo, a arrogância e o preconceito são comportamentos primários, um desvio do normal desenvolvimento do instinto de preservação da vida inerente a todos os seres humanos. Ou seja, são deficiências, com características específicas de cada uma delas. Enquanto a arrogância é uma hipertrofia do desenvolvimento do ego (podendo ser sintomática tanto de um ego desmesurado como de um ego atrofiado), o preconceito é já revelador de uma deficiente capacidade de adaptação ao meio. Em suma, estes comportamentos palermas são sintomáticos de uma deficiente adaptação dos seus portadores à vida e ao mundo e não são mais do que meras tentativas de sobrevivência. Desajustadas, é certo, e absolutamente palermas, mas ainda assim não deixam de ser tentativas.

Que fazer, então, para erradicar estes comportamentos do mundo e das relações humanas? Infelizmente, o meu estudo científico ainda não se encontra na fase de encontrar soluções para os problemas apresentados, por isso apenas me resta concluir que, aparentemente, não há solução para esta questão. Sobretudo porque, como resulta claro das ideias aqui defendidas, o mundo não é lógico e só assim faz sentido.

A única conclusão definitiva a tirar é extremamente simples e, diria até, evidente: por mais que se procurem justificar à luz das descobertas científicas, a arrogância e o preconceito são e serão sempre comportamentos extremamente palermas.