sexta-feira, março 28, 2008

onda de consumo

São MINHAS!!! :)

segunda-feira, março 17, 2008

soubeste-me a pouco

"Soubeste-me a pouco.
Como cheiros a terra
molhados de chuva
que se ficam pelo anúncio
da que não se chega a precipitar.
Como o quente
frio no ventre que
esvazia a ansiedade oca
em desilusão.
Como a espera hesitante
de algo iminente
em chegada
mas que vai em partida sem chegada, sem aviso.
Como o doce que se prova
na ponta da língua
mas que escorrega antes de aquecer a garganta.
Soubeste-me a pouco.
Queria mais.
Soubeste-me a pouco."
Graça Elias

domingo, março 02, 2008

Já é tempo de explicar aos nossos fieis leitores deste blog tão intermitente mas sempre de alta cólidade que raio quis eu dizer com o meu último post.

Pois é... pois é...

Há quem diga que me deu uma coisinha má, há quem diga que fui corajosa, há quem me dê os parabéns, há quem me peça para repensar, há quem ache que sou impulsiva, há quem ache que só há esta hipótese, há quem ache que é um passo de jovem loucura, há quem ache que é um passo de adulta ponderação... a verdade é que não sei. Ou melhor, sei perfeitamente. A minha vida não passa pelos códigos mas pelas pautas.Não passa pelas capas negras mas pelas notas negras. Não passa pela barra do tribunal mas pelo palco. Não passa pelas togas mas pelos figurinos cheios de pompa e lantejoulas. Não passa por audiências mas por públicos. Há coisas em comum! Passo por júris na mesma! Por concursos. Tenho de estudar calhamaços na mesma (já estou viciada). E épocas de exame. Vou é ter o triplo de "orais" ;)!

Se ainda não consegui dizer o que queria dizer, cá vai. Simples e duro. Larguei direito e vou seguir o meu sonho. Vou ser cantora lírica. E vou dar o meu melhor. Sei que tenho muito para trabalhar, para melhorar, para aprender, para desinchar, para testar, para penar, para chorar,.. mas estou feliz. Genuinamente feliz.

E isso é o que importa.

só p'ra partilhar! ;)

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

O mais importante é cair com estilo

A versão áudio do texto. Para vocês não terem problemas de vista.

E para não ser sempre a mesma coisa.

(Infelizmente, não consigo pôr aqui o ficheiro com melhor qualidade... tentem não ouvir o barulho de fundo e... se ouvem mal, azar o vosso! Ah, e é claro que esta voz é mais sexy ao vivo.)

domingo, fevereiro 10, 2008

Lugares-pessoas (ou cartas de amor)

Há pedaços de vida que não têm tempo – só lugares e pessoas com quem fomos extremamente felizes. Esses recortes de felicidade ficam para sempre marcados a ferro num qualquer recanto do nosso ser. De vez em quando lembramo-nos de como foi ser assim tão feliz, estar assim tão bem, tão serena e tão completa, e sentimos saudade desse retalho de vida que não tem tempo – só lugares e pessoas. Ouvimos o que nos diz a sensibilidade e viajamos de volta a essa felicidade desencontrada e desenquadrada, sorrimos com a alma pela sorte que tivemos em viver esses lugares-pessoas felizes. E quando nos perguntam, dizemos sempre que sim, que ainda nos lembramos de como foi amar assim tão loucamente.

("As cartas de amor escrevem-se sempre à noite e deixam-se de molho, num bom caudal de lágrimas, até à manhã seguinte. Depois relêem-se e, infelizmente, rasgam-se. Esqueça-se de as reler e guarde o privilégio da dor maior para depois. Se um dia alguém lhe perguntar, faça de conta que já nem se lembra da loucura que foi amar assim. Diga sempre que sim."

Inês Pedrosa)

"Desimportantizar"

“Que quis eu da poesia? Que quis ela de mim? Não sei bem. Mas há uma palavra francesa com a qual posso perfeitamente exprimir o rompante mais presente em tudo o que escrevo: dégonfler. Em português, traduzi-la-ia por desimportantizar, ou em certos momentos, por aliviar, aliviar os outros, e a mim primeiro, da importância que julgamos ter. Só aliviados podemos tirar o ombro da ombreira e partir fraternalmente, ombro a ombro, para melhores dias, que o mesmo é dizer, para dias mais verdadeiros. É pouco como projecto? Em todo o caso, é o meu. O que vou deixando escrito, ora me desgosta, enjoa até, ora me encanta. Acontece certamente o mesmo aos outros poetas, tenham estatuto ou não. Mas comigo, talvez essa oscilação se dê com mais frequência. É que a invenção atroz a que se chama o dia-a-dia, este nosso dia-a-dia, espreita de perto tudo o que faço. É o preço que tenho pago para o esconjurar, pelo menos nas suas formas mais gordas e flácidas.”

Alexandre O'Neill

sábado, fevereiro 09, 2008

Obstinadamente

Sabe bem gozar com a vida, recusar-lhe a vitória demolidora sobre nós, quando as coisas não correm como planeado (quase sempre) e a vida parece uma durona qualquer que se recusa a ser feliz. Nem pensar, não se lhe pode dar uma vitória assim tão fácil: sabe bem ser estupidamente optimista, de uma forma quase ingénua. É para chorar? Sim senhora! Depois das lágrimas, os risos.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Cápsula do tempo

O tempo passou mas nós ficámos congelados no momento em que fomos um grupo. Somos outros (estamos mais velhos), mas permanecemos iguais na maneira como estamos uns com os outros. As nossas mudanças, invisíveis para três dias, não mudaram as nossas brincadeiras. Não mudaram as nossas paranóias. Não mudaram o nosso amor pelo teatro, os nossos fantasmas, as nossas palermices. Os nossos vícios e dependências. As nossas limitações, os nossos silêncios, as nossas danças malucas, as nossas vozes, as nossas tensões, os nossos medos. A nossa pancada por fotografias loucas. As nossas mudanças não mudaram isto que sentimos os quatro, isto que nos une aos quatro como irmãos de sangue (da arte que nos corre nas veias) que podemos finalmente ser. Os laços permaneceram intactos e a sensação é estranha. O tempo mudou, mudou-nos, separou-nos, e afinal ainda estamos unidos, ainda estamos ligados.

Seremos velhinhos, casados, solteiros, com filhos, viúvos, sozinhos e sentiremos nós o mesmo uns pelos outros? Irmãos, eternamente irmãos, continuaremos a encontrar-nos pelos quatro cantos do mundo e sentiremos sempre que o tempo não passou por nós enquanto grupo como passou por nós enquanto indivíduos?

O tempo mudou, mudou-nos.

O tempo, afinal, amigos, mudou tudo – mas não mudou nada.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Solidão

Durante muito tempo pensei a solidão em sentido metafísico. De estarmos postos neste mundo, abandonados a um deus-dará, desprotegidos e cheios de frio face às contingências da vida. A solidão não é mais para mim esse monstro filosófico-metafísico. Não estamos enregeladamente sozinhos, nem abandonados pelos deuses do Olimpo, nem pelo Deus de uma qualquer religião monoteísta. Acredito em Deus? Que importa?

A minha única solidão é o medo de perder aqueles que amo (não é esse o medo universal?).

sábado, janeiro 19, 2008

Os processos da vida

Eu não sou psicóloga. Sou, ou parte de mim é, aprendiz de jurista, que é como quem diz estudante de direito. A palavra processo está, por isso, para mim, irremediavelmente contaminada pelo universo jurídico. Em processo leio, automaticamente, processo civil, processo penal, administrativo, acção judicial, sequência de actos e diligências referentes à composição judicial de um litígio ou conflito de interesses… e outros palavrões que tais.

Cheguei já a um estado que se pode considerar grave: penso nas palavras processos da vida e tenho logo a imagem nítida de uma gigante biblioteca com estantes a abarrotar de processos arquivados, processos chorudos onde estão guardados todos os pormenores da vida de cada pessoa. Seria engraçado poder chegar a uma biblioteca assim, dirigirmo-nos sem vergonha ao bibliotecário e pedir, sem mais, para consultar o processo das nossas vidas e, quem sabe, das vidas dos outros. Seria sem dúvida engraçado, mas também perigoso, e traria novos sentidos ao tão falado segredo de justiça…

Mas não é de justiça que se fala quando se fala em processos da vida (a vida é tudo menos justa). A palavra processo, mais do que a palavra vida, é arrogantemente polissémica e por isso a minha mente de jurista foi estudá-la ao dicionário. Saí, obviamente, derrotada: a minha ignorância é tal que nem se lembrou do significado primeiro, mais óbvio e escancarado da palavra. Processo é, antes de mais, o modo pelo qual uma coisa é feita. E logo a seguir, a forma pela qual alguma coisa tem um determinado percurso, tem um certo seguimento.

Como a minha imaginação é pródiga, em todos os sentidos, imaginou logo um curso de água, correndo liquidamente ao longo do seu caminho. E pensou também que, no limite, tudo é processo, até o rio, que corre interminavelmente pelos tempos. Razão tinha então o filósofo quando dizia, para espanto de todos, que nunca se toma banho duas vezes no mesmo rio, seja porque as águas são já outras, seja porque o banhista não é já o mesmo. Tudo o que é orgânico é processo, matéria em decomposição, ainda que seja viva. Até os calções de banho do tal banhista, matéria morta, não são os mesmos ao segundo banho no rio: estarão mais gastos, mais ruços, mais perto, enfim, do destino que os aguarda, com um sorriso irónico nos lábios, e que é a sua morte. Ou a reciclagem, que é mais politicamente correcto.

Processo é, portanto, nesta acepção, uma coisa em devir (ora cá está a minha perspectiva filosófico-jurídica a meter-se onde não é chamada), é evolução, transformação, mudança, passagem.

Claro que uma perspectiva assim, embora realista, é assustadora. Saber que os calções de banho, bikinis e afins, aqueles de que tanto gostávamos e que usaríamos até ao fim dos tempos, envelhecem e se estragam e deixam de cobrir com pudor os segredos e os locais que no fundo são iguais em todos nós é algo verdadeiramente doloroso. É uma perda irremediável e da qual saímos sempre outros, mais cépticos, mais amargos, mais desiludidos com o processo da vida. Mas no limite, tudo é processo, e processo é, na sua essência, digo eu e não o dicionário, dinâmica, dialéctica, movimento e às vezes estagnação. Processo é, e assim diz o dicionário, uma sucessão de etapas e de estados.

Mas processo é apenas uma parte do problema. A outra parte, bem mais complexa, é em si só um mundo irresistível: a vida.

E aqui é que as coisas se tornam verdadeiramente difíceis. O dicionário contém definições, não respostas. O dicionário explicita as acepções da palavra, mas todos os significados são poucos para a vida. De tão especial, quase se pode apelidar de palavra mãe, a palavra de onde brotam todas as outras. Mas o que é a vida, afinal? O que é a vida?

Sim, numa perspectiva muito científica e pragmática, a vida são processos. Nascemos e morremos – entre esses dois momentos, tudo em nós é um conjunto infindável de processos, processos incríveis, milagrosos, misteriosos, processos que nos levam a dizer, se no fim ainda formos capazes, que vivemos, que fomos vivos, que passámos por este mundo e experimentámos esse fenómeno inefável que é viver. Processos atrás de processos, descobertas, aprendizagens, mudanças, transformações, experiências… o léxico é variado, mas tudo se resume a uma palavra: processo. O próprio nascimento é um processo complexo. Doloroso, num irónico piscar de olho a quem nasce, como quem diz que a vida, ela própria, não é fácil e é, muitas vezes, dolorosa.

Eu não conheço, em qualquer grau que ultrapasse o senso comum, os fenómenos reais que são esses processos todos, quer a nível cerebral, hormonal, anatómico, celular, genético ou qualquer outro que fazem parte da experiência de se ser pessoa. Não sei que nome lhes dar, não sei identificá-los. Não sei apontá-los num mapa, não sei procurá-los no dicionário. Mas sei senti-los.

Sei reconhecê-los em mim e, por analogia (sempre o jurídico, estou perdida…), nos outros. Por mais diferenças de fundo que haja – e há-as, sem dúvida – somos todos humanos e a experiência de se ser humano é uma experiência universal. Os processos são em tudo semelhantes em todos nós, humanos, nós que evoluímos dos macacos (dizem), que evoluímos da própria evolução do mundo, em si mesma um processo repleto de processos – como as matrioshkas russas, grávidas de si próprias em miniatura – e chegámos aqui, hoje, ao Homem global, ao Homem “evoluído”, ao Homem cada vez mais parecido consigo próprio.

O Homem que, embora individual, preso no seu corpo, no seu ser, nos seus processos interiores, se transcende e alcança o outro, ama, age e influencia a pequena parcela do mundo onde vive, se deixa transformar, se deixa amar, se deixa evoluir. E no fundo, tudo isto são processos.

Sim, a vida é um conjunto intrincadamente complexo de processos, a vida, essa linha descontínua entre o nascer e o morrer. A vida, essa poesia breve, essa brisa que nos faz estremecer num orgasmo silencioso ao percebermos quão breve e finita ela é… esse cheiro a maresia, essa cor, essa alegria, esse vibrar esfusiante de energia! Essa dor, eterna, esse respirar como se fosse a última golfada de ar, esse leve desespero, essa lamentação de saber a condição com que nascemos… E no fim, poder dizer ainda: “eu vivi, eu vivi plenamente sabendo que iria morrer, eu vivi sabendo que me foi dada a magia de passar por um número incontornável de processos a que tive constantemente de me readaptar, reajustar, numa flexibilidade aprendida à custa de muitas lágrimas e de muitos risos”. Poder dizer: “eu vivi e dei vida, eu vivi e amei e fui amado e, embora morra agora, não morri. E de alguma maneira permaneci na memória de quem me sobreviveu”.

Sim, a vida é uma sucessão de processos. Processos com ou sem sentidos, consentidos ou não, que a vida não pede autorização para acontecer. A vida, a vida, a vida… Haja só esta ou haja outra, a vida é rica. A vida é, não pode deixar de ser, processos. Mas…

E a Vida, o que é?

segunda-feira, janeiro 14, 2008

; )

Hoje é mesmo o primeiro dia do resto da minha vida! As decisões são tramadas... mas valem bem a pena! Olá vida nova!!

Mais pormenores?!... eles virão a seu tempo! ;)

domingo, janeiro 13, 2008

Reflexões sobre insatisfação, exigência e Amor

"A tua exigência sem amor, revolta-me. O teu amor sem exigência, humilha-me. O teu amor exigente dignifica-me." Henri Caffarel

(É mesmo isto. Quis dizer-te esta frase mas não me lembrei das palavras exactas e resolvi esperar até as saber.)

Não sei Amar sem exigência. Não consigo conceber o Amor sem a Exigência. Acho que só quem sabe exigir é que Ama. Estas não são realidades que, juntas, se tornam mutuamente perfeitas... ou melhor, a exigência não é o único componente do Amor e o Amor não se extingue na Exigência. No Amor cabe muito, cabe tanto, cabe tudo. Mas sei, acredito, que um Amor sem exigência não é Amor. O Amor é querer mais. O Amor é o oposto da estagnação. E a exigência é o motor que provoca o andamento, é o constante empurrão que gera o dinamismo. É por eu querer saber mais sobre mim que me mexo, que escavo, que aprofundo, que vou mais dentro, que toco feridas, que dou passos dolorosos... para depois me aceitar e seguir em frente, mais feliz. Quero saber mais de mim, conhecer-me melhor, porque não estou satisfeita. Não estou satisfeita porque sei que posso dar e ser mais. Se sei que posso dar e ser mais e quero dar e ser mais, sou mais exigente comigo. A insatisfação é consequência directa da exigência. E a exigência é consequência directa da insatisfação. "O homem é um eterno insatisfeito"... já não sei se é "frase feita" ou se foi dito por algum brilhante filósofo, mas há lá frase mais certa do que esta? Seja para o lado menos humano do Homem, seja para o seu lado mais seu, a insatisfação é que puxa os cordelinhos. Porque quer mais dinheiro? Porque o que o tem não o satisfaz. Porque dá do seu tempo para o gastar nos outros? Porque viver para si e dentro de si só não o satisfaz. O Homem é um ser aberto, incompleto, que procura sempre mais, por natureza. E é por assim ser que evolui. É por assim ser que há dinamismo na história da Humanidade. É, também, por assim ser que o Amor sobrevive. Porque nesta insatisfação humana, não pode caber apenas a insatisfação pessoal. Rapidamente o Homem perderia de vista aquele que é o âmago da sua existência - o outro. A insatisfação do Homem abarca o outro. Abarca tudo aquilo que ele Ama. E se a insatisfação é condição da exigência, também é pressuposto do amor. O amor é querer mais. É aceitar aquela pessoa por tudo o que ela é hoje mas saber que depois do hoje há o amanhã e que amanhã ela poderá ser mais. Mais ela própria. Mais encontrada consigo mesma e portanto conseguindo também ser mais para os outros. Encontrar-se nos outros. Ser mais para a família, os amigos, os desconhecidos. Mais para o mundo. Amar é querer mais. É querer mais de mim e mais dos outros. Por isso digo que não sei amar sem exigência. E claro que também não posso exigir sem ser por amor. Porque "a tua exigência sem amor, revolta-me". A exigência sem amor é oca. É falsa. É hipócrita. É incoerente. É estéril. Conduz apenas à revolta e à quebra de laços.

A meu ver, é por o Homem estar, cada vez mais, a perder a capacidade de exigir, que também cada vez mais frequentemente estabelece relações superficiais, que ficam pela rama da pessoa, pela parte agradável, e com a qual é fácil de conviver, do outro. É por o Homem não ter coragem para exigir que não consegue tantas vezes amar verdadeiramente.. e por isso proliferam as rupturas de relações, por exemplo. Porque enquanto a relação se aguenta naquele mútuo entendimento do "toma-lá-dá-cá", naquela facilidade do "tens de gostar de mim como eu sou porque eu sou assim e pronto", naquele conforto do "se eu não te chatear tu também não me chateias", a convivência é fácil, serena, sempre divertida e sem problemas. Cedo, porém, começam as discussões "porque eu te dou e tu não me dás nada", "porque a relação caiu no tédio, ja que não há nada de novo a descobrir em ti"... porque não há crescimento em conjunto sem interacção ou exigência com o outro. Não há crescimento se só houver a mera aceitação. Na mera aceitação falta o empenho, o investimento, a preocupação, o deixar que o outro me ajude a crescer e ajudá-lo a crescer também... falta a exigência. A mera aceitação, a satisfação com a mera aceitação, traça um caminho entre dois, lado a lado, tolerante, mas não uno... acho que não chega sequer a ser um caminho. É um encontro sem pernas nem caminho para andar.

Para crescermos, temos de interiorizar que não nos bastamos a nós próprios. Precisamos dos outros, que estão fora do quadro a olhar para a pintura e conseguem perceber muito mais facilmente e com mais clareza quais são as áreas que temos de trabalhar, colorir mais ou menos, dar uns retoques, preencher ou deixar em branco. O eu precisa que o tu interaja. Sempre. Precisa de um tu que ame o eu como ele é, com todos os defeitos que ele tenha, mas que queira mais, que queira que ele seja feliz e que não desista no caminho para ser melhor... e que como tal não tenha medo de exigir.

Por isto é que o amor é difícil... mas, sem dúvida, gratificante.

"Não me peçam para ser menos exigente. É o mesmo que me pedirem para não vos amar."
O que aprendi? ... que tenho de
dar sempre a entender aos eus que este tu exige porque ama
e não o faz por egoísmo ou por querer destruir o eu.
E que é tão exigente com os eus como é consigo mesmo.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Às vezes preferia que não fosse assim. Mas ainda bem que é.
Trago a música tatuada na pele.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Um Santo Natal...

... cheio do Essencial... ;)

sexta-feira, novembro 23, 2007

A última aula do lente

A Cabra dá doze badaladas. Deixo para trás a Porta Férrea e corro um pouco, não vá quebrar-se a tradição e começar-se à hora. Subo as escadinhas, aceno à Sala dos Capelos à minha direita e prossigo. A ombreira da porta lateral acolhe-me, aceno então ao azulejo da raposa que só pontapeei uma vez e ouço um ilustre professor informar a um transeunte bem vestido “É no auditório!” Dobro a esquina do pequeno hall, e vejo logo ali o espectáculo: um rol de gente engravatada conversa em amena espera. Sossego vendo o mundo rodar nos eixos: a tradição ainda é o que era.

O claustro transpira personalidades ilustres e eu, que não sou ilustre nem nada que se pareça, sinto uma onda de entusiasmo percorrer-me o corpo. Afinal não sou indiferente ao charme do poder, do reconhecimento público de alguma coisa que seja, nem que seja apenas, como em certos casos muito raros hoje em dia, a beleza estonteante e a absoluta falta de talento. Aqui, não é o caso. Aqui há talento, aqui há poder, aqui há troca de favores.

Reconheço caras sisudas, caras sorridentes, outras não reconheço. O cortejo, grave, desce alegremente as escadas, em marcha lenta, lenta, lenta. Temos um auditório enorme e fantástico, modernaço e sóbrio, com uma fabulosa entrada do tamanho de um postigo.

Sinto no ar a excitação dos outros, o burburinho das conversas dos outros. Há também sotaques de além-mar, que prova bem o nível de reconhecimento que atingiu o homenageado, Jorge Figueiredo Dias, e a importância deste acontecimento que é a sua última lição.

Ouvir falar este nome sonante do Direito Penal deve ser uma coisa fascinante. Deve ser, porque eu nunca ouvi.

Figueiredo Dias fez setenta anos e a lei mandou-o jubilar-se (até o imagino a saltar em cima da cama, com leis avulsas nas mãos, como rebuçados, a rejubilar de contentamento pela jubilação). Ora manda a tradição, nesta ala geriátrica da Universidade de Coimbra, que o professor jubilado, por professa ignorância, não dê a sua última aula. Sim, é isso mesmo. Esta senhora manda que a última lição do professor jubilado não seja dada pelo próprio, o mestre, mas pelo seu discípulo mais velho. Manuel Costa Andrade, no caso concreto. A cereja é a justificação: por motivos de “humildade científica” e “noção de continuidade”.

Ó magnífica tradição, ó deusa imperativa a quem todos rezamos e devemos devoção! Corta-nos a raiz do pensamento, estupidifica-nos com a tua sabedoria, abrasa-nos, esmaga-nos, traga-nos com a tua imensidão!

Ao jubilado não é permitido sequer comparecer à sua própria homenagem. Esta espécie de funeral antecipado é como que um prolongamento da ideia distorcida de humildade que vigora neste país. Humildade, no léxico de Portugal, significa não se congratular pela ambição que se teve de ir mais longe, num país que nivela por baixo e esmaga com o jugo da tradição. “Não te gabarás!” “Não ficarás feliz pelas tuas próprias conquistas!” Significa embaraço perante o elogio, daí a necessidade de apenas o fazer indirectamente, perante outros que não o elogiado. O falso elogio tornou-se tão banal que o verdadeiro elogio, aquele que vem de dentro, da admiração sincera, não encontra quase lugar. Porque o verdadeiro elogio deixa um rasto de vulnerabilidade na sua passagem, ao implicar a humildade genuína que não se ensina neste país.

A cerimónia em si foi bonita. Encenações destas é o que de melhor se faz em Portugal. Falou-se bem a linguagem social, aplaudiu-se de pé o discurso de Costa Andrade e a partir das 13h já ninguém ouvia nada se não o estômago.

Acredito que haja vozes dissonantes, mas mesmo essas são engolidas pela força inelutável de alguma tradição. Costa Andrade fez um grande discurso, transbordante de uma sabedoria e cultura que não é para qualquer um. Foi é engolido pelo formalismo da tradição e pelo nervoso da responsabilidade. De qualquer modo, a ocasião não era para ele mas sim para o homenageado, e tudo em Costa Andrade foi de uma profunda humildade sincera.

À saída mesmo, a correr para apanhar o autocarro, ouvi um belo comentário de um assistente que me dá aulas práticas: “Fogo, o gajo… tu viste o discurso do gajo? Eu não conseguia... nem conheço metade dos nomes que ele citou!” Alguém lhe respondeu: “Oh, eu conseguia, ia aos livros arranjar umas citações…” “Oh, pois mas mesmo assim…”

O resto já não ouvi. Mas talvez vá aos livros buscar umas citações.