segunda-feira, dezembro 24, 2007

Um Santo Natal...

... cheio do Essencial... ;)

sexta-feira, novembro 23, 2007

A última aula do lente

A Cabra dá doze badaladas. Deixo para trás a Porta Férrea e corro um pouco, não vá quebrar-se a tradição e começar-se à hora. Subo as escadinhas, aceno à Sala dos Capelos à minha direita e prossigo. A ombreira da porta lateral acolhe-me, aceno então ao azulejo da raposa que só pontapeei uma vez e ouço um ilustre professor informar a um transeunte bem vestido “É no auditório!” Dobro a esquina do pequeno hall, e vejo logo ali o espectáculo: um rol de gente engravatada conversa em amena espera. Sossego vendo o mundo rodar nos eixos: a tradição ainda é o que era.

O claustro transpira personalidades ilustres e eu, que não sou ilustre nem nada que se pareça, sinto uma onda de entusiasmo percorrer-me o corpo. Afinal não sou indiferente ao charme do poder, do reconhecimento público de alguma coisa que seja, nem que seja apenas, como em certos casos muito raros hoje em dia, a beleza estonteante e a absoluta falta de talento. Aqui, não é o caso. Aqui há talento, aqui há poder, aqui há troca de favores.

Reconheço caras sisudas, caras sorridentes, outras não reconheço. O cortejo, grave, desce alegremente as escadas, em marcha lenta, lenta, lenta. Temos um auditório enorme e fantástico, modernaço e sóbrio, com uma fabulosa entrada do tamanho de um postigo.

Sinto no ar a excitação dos outros, o burburinho das conversas dos outros. Há também sotaques de além-mar, que prova bem o nível de reconhecimento que atingiu o homenageado, Jorge Figueiredo Dias, e a importância deste acontecimento que é a sua última lição.

Ouvir falar este nome sonante do Direito Penal deve ser uma coisa fascinante. Deve ser, porque eu nunca ouvi.

Figueiredo Dias fez setenta anos e a lei mandou-o jubilar-se (até o imagino a saltar em cima da cama, com leis avulsas nas mãos, como rebuçados, a rejubilar de contentamento pela jubilação). Ora manda a tradição, nesta ala geriátrica da Universidade de Coimbra, que o professor jubilado, por professa ignorância, não dê a sua última aula. Sim, é isso mesmo. Esta senhora manda que a última lição do professor jubilado não seja dada pelo próprio, o mestre, mas pelo seu discípulo mais velho. Manuel Costa Andrade, no caso concreto. A cereja é a justificação: por motivos de “humildade científica” e “noção de continuidade”.

Ó magnífica tradição, ó deusa imperativa a quem todos rezamos e devemos devoção! Corta-nos a raiz do pensamento, estupidifica-nos com a tua sabedoria, abrasa-nos, esmaga-nos, traga-nos com a tua imensidão!

Ao jubilado não é permitido sequer comparecer à sua própria homenagem. Esta espécie de funeral antecipado é como que um prolongamento da ideia distorcida de humildade que vigora neste país. Humildade, no léxico de Portugal, significa não se congratular pela ambição que se teve de ir mais longe, num país que nivela por baixo e esmaga com o jugo da tradição. “Não te gabarás!” “Não ficarás feliz pelas tuas próprias conquistas!” Significa embaraço perante o elogio, daí a necessidade de apenas o fazer indirectamente, perante outros que não o elogiado. O falso elogio tornou-se tão banal que o verdadeiro elogio, aquele que vem de dentro, da admiração sincera, não encontra quase lugar. Porque o verdadeiro elogio deixa um rasto de vulnerabilidade na sua passagem, ao implicar a humildade genuína que não se ensina neste país.

A cerimónia em si foi bonita. Encenações destas é o que de melhor se faz em Portugal. Falou-se bem a linguagem social, aplaudiu-se de pé o discurso de Costa Andrade e a partir das 13h já ninguém ouvia nada se não o estômago.

Acredito que haja vozes dissonantes, mas mesmo essas são engolidas pela força inelutável de alguma tradição. Costa Andrade fez um grande discurso, transbordante de uma sabedoria e cultura que não é para qualquer um. Foi é engolido pelo formalismo da tradição e pelo nervoso da responsabilidade. De qualquer modo, a ocasião não era para ele mas sim para o homenageado, e tudo em Costa Andrade foi de uma profunda humildade sincera.

À saída mesmo, a correr para apanhar o autocarro, ouvi um belo comentário de um assistente que me dá aulas práticas: “Fogo, o gajo… tu viste o discurso do gajo? Eu não conseguia... nem conheço metade dos nomes que ele citou!” Alguém lhe respondeu: “Oh, eu conseguia, ia aos livros arranjar umas citações…” “Oh, pois mas mesmo assim…”

O resto já não ouvi. Mas talvez vá aos livros buscar umas citações.

domingo, novembro 18, 2007

O fabuloso negócio dos preconceitos

Um dia, quando for grande, vou vender preconceitos. Vou montar uma banquinha no meio da rua, com um carrinho de mão enferrujado e uma sombrinha toda comida pelo sol. Visto o meu melhor fato de treino roxo e verde fluorescente, daqueles que fazem crs crs a cada passo que damos, e depois sento-me silenciosamente num banquinho de feirante. Abro o negócio a meio da tarde, ou talvez depois do almoço, que é quando há mais gente na rua. Deixo que os transeuntes me olhem bem de frente, e não só pelo canto do olho, como quem tem medo de ver realmente. Assim, ofereço, de borla total e completa, o primeiro preconceito aos transeuntes que se cruzarem comigo na rua. Promoção do dia, ao preço da chuva, que é nada.

Um preconceitozinho aqui e outro ali, para começar, e quando o negócio for de vento em poupa, lanço as primeiras edições de coleccionador, para ver se têm saída. Mas não vou aceitar moeda viva, que essa nem se sente na pele: o preço rondará o valor da culpa. Os pequenos preconceitos terão um valor baixo, porque a culpa que eles geram é menor. Os grandes preconceitos terão alto valor, porque a culpa por eles gerada é incomportavelmente maior. E assim não darei de mãos abertas o preconceito gerado pela diferente capacidade económica, e também esse terá de ser comprado. Serei realmente uma vendedora astuta e pensarei em tudo.

Então, se Deus quiser, terei um negócio maravilhoso e poderei deixar o meu curso a meio. Assim terei ainda outro preconceito na manga que poderei vender com considerável sucesso. Um dia, todo o mundo terá muito mais preconceitos e seremos todos mais felizes. Quanto mais preconceitos temos, mais nos defendemos dos preconceitos dos outros. Será um mundo cada vez mais fraterno, solidário e justo: todos terão direito a preconceitos, numa profunda visão democrática da coisa. Seremos realmente iguais em direitos porque teremos todos direito a preconceitos.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Uma questão de justiça

Quando uma sala está quase cheia na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra só pode ser uma de duas coisas: ou são alunos do primeiro ano em regime de avaliação contínua ou é uma aula do Costa Andrade.

Isto, que seria ainda mais verdade em anos anteriores, onde alunos que pusessem os pés naquele claustro eram aberrações da natureza, continua a ser verdade uns meses depois de Bolonha. É que há professores péssimos, professores maus, professores medianos, professores bons, professores excepcionais – e depois há o Costa Andrade.

Ir a uma aula do Costa Andrade é perceber em carne e osso que quem só sabe direito não sabe nada de nada. Que há muito mais para ensinar do que normas e princípios, casos práticos e teorias. Que há uma coisa excepcional, uma coisa imprescindível para que um professor seja realmente bom e que, parecendo que não, faz toda a diferença: a arte de comunicar.

Eu não sei se o Costa Andrade sabe mais do que outro professor qualquer (sei que ele sabe muito, muito, muito). O que sei é que é muitíssimo melhor comunicador do que qualquer um com que já me tenha cruzado. E depois tem o charme dos seus muitos anos, do sorriso largo, o encanto de quem se esquece às vezes de pequenos pormenores, como quem perde o fiozinho de lã à meada do pensamento, e brinca com isso, sorrindo, brincando e ensinando ao mesmo tempo. E fala de futebol (é ferrenho do Benfica, já deu para perceber) e tem piada e fala de coisas bem para lá do direito e depois, como tem já idade para isso, diz coisas que só vindas da sua boca têm o encanto e graça que têm. Como a que motivou este elogio rasgado ao melhor professor, com base em critérios científicos e total imparcialidade.

A propósito de teorias históricas do crime, da importância do elemento subjectivo para determinar se determinado comportamento se enquadra ou não num tipo legal de crime, Costa Andrade prova que quem é bom foge à regra com um estilo magnífico. E dá um exemplo “pouco académico”. Ri-se um pouco e diz, com o ar mais natural do mundo e uma classe tremenda “Por exemplo, um exemplo pouco académico… Um homem apalpa a mama a uma mulher”. Ficamos todos boquiabertos, como que diz ai ai ai o que é que vem lá. E depois lembramo-nos de que aquele homem irradia uma aura qualquer (quase tenho a impressão de que ele poderia estar a dizer a maior barbaridade que ainda assim teria classe - claro, é só impressão). Após breve pausa, acrescenta que tal acto, se não tivermos em conta o elemento subjectivo, pode ser muita coisa.

“Pode ser um acto médico.” E nós, ah! E ele gesticula com as mãos, como quem busca o exemplo seguinte.

“Pode ser um acto de coacção sexual”. E nós pensamos, claro, foi logo disso que nos lembrámos. E faz uma pequena pausa, como quem sabe a exacta reacção das palavras que vai dizer.

“Pode ser um acto gratificante para ambos”.

A sala enche-se de um riso geral, embalado pelo seu sorriso experiente. E eu fico uns minutos a viver o meu fascínio por aquele homem e a pensar que há tanto para explorar no ensino que talvez nunca tenha fim.

É por isto que a minha primeira afirmação estava completamente errada: quando há uma sala cheia na faculdade, só pode ser uma aula do Costa Andrade.

segunda-feira, novembro 12, 2007

hoje.

Não quis deixar de marcar o dia. ;)
Há lá imagem que transmita mais esperança do que a de Cristo a sorrir na cruz?! ;)

O que levas na mochila tu?

Sento-me, cansado. Muito cansado mas feliz, cansadamente. Cheguei ao fim. Que orgulho. Cheguei ao fim. Já nem consigo sentir a expressão da minha alegria talvez porque as rugas da minha cara já não a desenham. Perdi-a algures na minha viagem. No fim, penso eu. A cortina de traços que me vincam a pele do rosto, endureceram-me a fisionomia. E estes olhos também não ajudam. Sempre a lacrimejar, sem eu saber sequer porquê. Quer dizer, eu nem sei bem se assim é... já não me olho ao espelho há tanto tempo. O meu espelho foram sempre as pessoas com quem me cruzei na minha viagem. Que ou se aproximavam, ou se afastavam. Ou me sorriam ou tinham pena de mim. Ou me viam como uma fonte de energia ou como uma fonte seca, a estalar de velhice e a precisar que lhe dessem lugar no autocarro. Deixei que o olhar me fugisse para fora e repousasse na minha mochila. "O que levas na mochila tu?", perguntou-me uma criança uma vez, pendurada nas grades da escola da sua aldeia, desrespeitando por traquinice a regra das conversas com estranhos. Na altura respondi "roupas sujas e latas. Canivete. Umas botas sobresselentes. 8 mapas. Uma toalha e um fato de banho. Umas coisas de toilette. Uma panela. Um camping gaz. Uma lanterna, pilhas, fósforos. Um cantil. Uma guitarra... " "Xiii porque é que tens tanta coisa? Onde vais?". Silêncio. Silêncio. Silêncio. "Não sei". "pffff!" A boca dela rasgou-se num torto sorriso branco e a bata amarela virou-me as costas. Pela primeira vez, lembro-me, senti o peso da minha mochila tão pesada mas tão cheia de um denso vazio.
to be continued...

Curso de relações humanas

Um fim de semana. Um homem que tranpirava cultura, sabedoria, argúcia, inteligência e um refinadíssimo sentido de humor. Uma sala cheia de gente. Umas dezenas de pares de olhos, emoldurados com ou sem rugas, cheios de curiosidade. Uma constatação incrédula de que nas nossas relações fazemos tantas coisas erradas. Uma constatação incrédula de que nas nossas relações podemos fazer coisas tão diferentes e tão mais sadias. Uma leve sensação de alívio por percebermos gradualmente qual é a melhor maneira de nos relacionarmos uns com os outros. Tanta, tanta coisa... ainda não digeri tudo. Como diz o padre Alberto, "não queiram que este fim de semana dê frutos... era pedir de mais e seria absurdo dizê-lo. Verdadeiro é dizer que daqui levam flores... se cuidarem delas, darão bons frutos a longo prazo." Acho que saí com um ramo... de flores silvestres... que sei que darão bons frutos. Este fim de semana, mostrou-me como todos nós temos tanto para melhorar. Eu também e vou começar. Já.
Partilho mais e também mais concretamente nos próximos posts.

sexta-feira, outubro 26, 2007

BRILHANTE!!!! :D

adoooro ventriloquistas! este é mesmo brilhante!! Achmed the dead terrorist
Obrigadas Sergei! :)

terça-feira, outubro 16, 2007

Quando os animais envelhecem

A minha avó sempre teve gatos. Era eu pequenina e pegava num fio e fazia trinta por uma linha com os gatinhos, que apesar de tudo entravam com paciência nas minhas brincadeiras felinas. A minha avó sempre disse que não queria mais gatos porque vestia um luto comprido sempre que um deles morria. E eu na altura não percebia, porque os gatos eram lindos e fofinhos e divertidos, e eu nunca estava lá a ver o corpo inerte deles quando eram atropelados ou quando adormeciam de velhice.

Eu tenho um hamster. Uma hamster, na verdade, tenho que dizê-lo: o meu único hamster antes desta viveu a vida toda com problemas de autodeterminação sexual, porque nós teimávamos em chamá-lo Algodão, mas a sua anatomia e comportamento ditavam precisamente o contrário. Talvez por isso, ou não, o Algodão tinha tendências suicidas e encontrávamo-lo muitas vezes a cirandar pelo chão da casa. Nunca descobrimos como conseguiu ele (ou ela, na verdade) abrir a tampa da gaiola e saltar o metro e meio de bancada que a erguia do chão sem sofrer graves hemorragias internas. As patitas deviam ser mais fortes do que pareciam ou então a barriga rasa não chegava a tocar o chão. Não sei. Acho que agora também já não interessa.

A verdade é que tenho uma hamster há pouco mais de dois anos. Como os hamsters vivem em média três, a pobre da Chica (sim, é um nome estúpido e a explicação ainda é mais estúpida, por isso mais vale nem contar) está no período a que se chama velhice. Mais, está a entrar naquilo a que se chama senilidade.

A Chica, quando era nova e irreverente, tinha o hábito irritante de, assim que eu punha areia nova e comida e a casa dela mais parecia um hotel de cinco estrelas, virar imediatamente tudo do avesso, derramar a água, virar o prato da comida e depois encher as bochechas até não conseguir atravessar a janela da casa, por onde entra sempre, e ter de entrar pela porta (ela nunca foi convencional). Era uma espécie de rotina, o pobre do bicho não descansava enquanto não punha a casa lá como ela queria. Tudo bem, aprendi a ver esse ritual e, a certa altura, deixei de ligar.

Era movida pelo instinto. O instinto fazia-a ir directamente para o prato da comida, encher as bolsas de sementes e levá-las para o ninho, onde estavam seguros, longe de possíveis predadores, onde teria mantimentos para sobreviver se tivesse de se refugiar. Basicamente, cumpria os desígnios da natureza, ainda que mantida em cativeiro pelos humanos. Por mim.

E assim passou a sua juventude.

Foi então que começou o estranho hábito de andar do lado de fora da roda, contra a grade. Irreverente? Talvez, no início. Mas é muito ténue a linha entre a irreverência e a loucura. Mais tarde, começou a andar pendurada de cabeça para baixo nas grades de cima da gaiola. Eu não fiquei nem um bocadinho surpreendida, pensei que tivesse chegado ao cúmulo da irreverência.

Só recentemente reparei nos terríveis efeitos da senilidade nos animais. É que andar ao contrário na roda, andar pendurada de cabeça para baixo, é compreensível se pensarmos no tédio que era a juventude dela. Mas agora…

Agora eu mudo a casa à Chica e o hotel de cinco estrelas fica intocável. O pobre do bicho bebe um bocadinho de água, não toca na comida e anda de um lado para o outro a cheirar os cantos. Pega numa semente e faz maratonas de uma ponta da gaiola à outra. Bate com a cabeça na roda e fica sem saber onde pôr a bola de sementes que tem na boca. Pousa-a no chão e vai em direcção a casa. Sem comida, sem as bochechas a abarrotar. Entra. Pela porta.

A minha avó sempre disse que não queria mais gatos. E eu não percebia porque não sabia nada da morte. Mas a vida dos hamsters é bem diferente. Uma gaiola é bem diferente. E agora sou eu que digo que não quero mais hamsters! Muito menos gaiolas.

Fábula surrealista

Quando os egos se fartaram de andar sozinhos pelo mundo, decidiram habitar os corpos dos homens. Rapidamente morreram de tédio, porém, porque de dentro todos os corpos são iguais. Os egos encontraram então uma forma de diversão e, para tornarem os corpos diferentes entre si começaram a comer muito. Distinguiam assim, para além dos corpos, os egos que os vestiam. Começaram a inchar bastante e quando se deram conta eram egos grandes, enormes, enchouriçados. Quando já não conseguiam comer mais, começaram a saltar, a saltar e a ver quem conseguia chegar mais alto. A certa altura, um dos egos engravidou e, quando lhe rebentaram as águas turvas, deu à luz a hipocrisia. O outro morreu de inveja, coitado, porque, embora maior, era estéril.

domingo, outubro 14, 2007

Ataque de lirismo (metablogar)

Esta coisa dos blogs tem muito que se lhe diga. Para mim, nunca foi uma obrigação e sempre me deu prazer. Também nunca foi um dever. Só que começou a ser uma coisa agradável que temos de fazer mas que a partir do momento em que deixa de ser algo que nos apetece fazer para passar a ser algo que temos de fazer se torna chata e difícil. Deixei de saber o que queria escrever aqui, portanto, e deixei de te tempo e deixei de ter vontade e deixei, pela parte que me toca, o blog adormecer. Sinto saudades. Podemos ter saudades de algo que é meramente virtual?

O que é isto da blogosfera afinal? Onde estão as pessoas de carne e osso, aquelas que abraçamos, a quem nos abraçamos e deixamos que nos abracem? Onde estão os risos sonoros, as piadas sem piada nenhuma mas que ditas por nós, entre nós, no universo que reconstruímos só para nós para que tudo faça sentido, têm toda a piada do mundo? Onde estão os choros pela dor que nos corrói? Onde estão as palavras ditas, sussurradas a meio tom ao ouvido de quem se ama? Onde estão as pessoas, onde estão?

A blogosfera é magnífica, maravilhosa. Podemos falar com quem está longe, podemos partilhar coisas que de outra maneira era difícil de partilhar – pôr um texto aqui é bem mais simples do que mandar cinquenta cartas, alem de que é infinitamente mais barato. É realmente poderoso o acesso à informação, com tudo o que isso implica. Mas não deixa de ser… agridoce.

Já dizia o professor, tantas vezes exaltado aqui neste blog, o excelentíssimo utilizador do advérbio de modo, que é impossível aos homens estar em tudo com todos os aspectos da sua personalidade, porque isso seria insustentável. Dizia também que nenhum homem é capaz de assumir plenamente a responsabilidade, por mais responsável que se proclame. Curiosamente, foi só isto que me ficou de Introdução ao Direito. E ainda mais curiosamente, lembrei-me disto agora a propósito da blogosfera. Na blogosfera é impossível sermos pessoas por inteiro. Somos só palavras, imagens, nomes. Mas não somos de carne e osso.

Talvez por isso me tenha remetido ao silêncio tanto tempo… Hum… ser ou não ser?

É isso a questão.

quinta-feira, outubro 04, 2007

"Espalhem a notícia"

Foto de J.P. Casainho

Sérgio Godinho é grande. Trinta e três anos depois da festa da liberdade, continua a encher Portugal de música de intervenção. Soube envelhecer bem, o raio do homem, com uma energia impressionante e uma versatilidade incrível. Encheu ontem as cadeiras balofas do TAGV de uma vitalidade espantosa, voltou três vezes ao palco para uma sucessão de encores tão milimetricamente planeados que pareciam improviso.

Impressionante a coordenação do grupo, o ritmo do espectáculo, as novas letras que continuam tão boas como sempre foram. E, em palco, o cantor não é só cantor! É homem de teatro, expressivo, conta as histórias das suas músicas com o próprio corpo, voz, entoação das palavras…

Apetecia mesmo era saltar das cadeiras e pôr toda a gente a dançar, cantando os clássicos a plenos pulmões… Só faltou mesmo (nós ainda berrámos na esperança que nos ouvisse, mas não…) uma das mais especiais…

Mas eu já não digo nada. Espectáculos assim cortam-nos a respiração. Até uma máquina de escrever era música! Sérgio Godinho continua aí, cada vez melhor. Espalhem a notícia!

"Stabat Mater"

Estas coisas devem ser escritas a quente, sob o efeito do espanto que se fumou ao longo de uma hora e meia (excepto se formos críticos de teatro, mas se formos críticos de teatro não fumamos espanto, fumamos cinismo e haxixe, que assim expelimos o ressentimento por não sermos nós os donos do palco). Infelizmente, esta já não vai a quente. Mas, e daí, talvez seja melhor assim.

Eu nunca gostei de monólogos. Talvez porque, para mim, teatro é conflito, comunicação, intensidade e, embora não seja impossível, é muito mais difícil conseguir isto num palco de um actor só. Claro, há sempre os conflitos interiores, mas os conflitos interiores vêem-se melhor na relação com os outros do que na solidão do palco. E depois tenho sempre a sensação, nos monólogos, de que é uma espécie de exibição egocêntrica do actor, uma montra viva das excelentes capacidades dramáticas de alguém. Isto pensava eu dos monólogos e dos actores de monólogos.

Até que vi “Stabat Mater” de António Tarantino. Ou melhor, até que vi Maria João Luís em palco. E fiquei bêbada de espanto do princípio ao fim. Como é que alguém consegue, com um ritmo impressionante, fazer tudo é que é teatro numa hora e meia e sozinha? Como é que aconteceu ali teatro? Não encontro explicação racional. A não ser uma qualidade impressionante do texto, da actriz, do encenador, muito trabalho, claro, e a conquista, à primeira palavra, do público. Mas mesmo assim, há algo que escapa... talvez porque o teatro nao se presta a análises racionais... Não, não sei definir nem explicar o que aconteceu naquele palco.

Só sei que teatro assim é teatro e o resto é conversa.

domingo, setembro 30, 2007

curioso.

p.s. desculpem a completa estagnação do blog. Prometemos ganhar vida e inspiração quando acabarem estes exames de melhoria.Não prometemos, Ritinha? :)

sábado, setembro 01, 2007

Regresso

Será urgente regressar? Regressar, simplesmente, assim de repente como nasceu uma criança. Regressar, sem pressas, às avessas, com a mochila cheia a abarrotar de gentes, com os dentes tortos de bater com a boca no chão das quedas que se (não) deu, com as costas cheias de dores e os pulmões colados à garganta (como se isso fosse anatomicamente possível). Será preciso regressar?

Para regressar é preciso ter partido. Mochila às costas, roupa no pêlo, guitarra na mão (ou não), bilhete de ida e volta, fazer-se ao caminho. Quem foi que disse ao viajante que não há caminho? “Viajante, não há caminho, faz-se o caminho ao andar.” E se não se andar? Ficar parado é triste.

Talvez haja regressos metafóricos. Ou porque o viajante nunca chegou a partir ou porque não se atreveu a regressar. O que interessa é quem regressa, não o regresso em si. Como voltou? Vem mais cheio, mais inteiro? Mais gordinho? Que aconteceu no caminho?

Sim, que aconteceu? Só tem sentido assim, o regresso. Espalhar a roupa da mochila na cama e com ela os pedacinhos dos outros que vieram por engano no meio dos trapos. Sentir a sujidade das roupas e lembrar os segredos que ela guarda. O que aconteceu? Espalhar depois os pedacinhos que não vieram porque não deixámos e os que perdemos e ficaram a pairar na ponte invisível entre mim e o outro – a ponte dos afectos, instável, com vigas de madeira a baloiçar de um lado ao outro. Indizível para quem não sente, desmorona-se com facilidade e com esse desmoronar ficamos sós. Nós e a nossa roupa suja na mochila. Mas há sempre o espanto que nos leva a escavar mais fundo, a querer descobrir mais, uma pequena certeza de um pedacinho de alguém, nem que seja roubado, e a encontrá-lo ao pé de um par de meias mal cheirosas onde guardámos o nosso lado errado. Pena que tenha ficado tanta coisa esquecida na nossa própria mochila… algum viajante ficou mais pobre porque nós só lhe mostramos a roupa de cerimónia e não lhe demos uns trapos que guardamos junto ao coração…

O que é o regresso afinal? Há um regresso ou o regresso é o de quem regressa? É o mesmo que chegar? É o inverso de partir? Para que regressamos?

Regressar é voltar ao lençol do quotidiano e vê-lo com olhos extraordinários. Sim, é preciso regressar. Chegar, enquanto descoberta, não basta. É preciso voltar a chegar. Regressar tendo partido, regressar outro, mas o mesmo (ou qualquer coisa de intermédio). Regressar, sempre, como se viajássemos continuamente e repetidamente regressássemos de viagens infinitas. Regressar, ponto final. Quem não regressa é a mera promessa de partir. E a promessa, embora fina, é como quem desafina porque nem chegou a cantar. E ainda assim, não basta o regresso em si. O regresso como um fim é a ilusão da viagem. Não conheço nenhum viajante a quem baste o regresso. Isso são os turistas, cheios de souvenirs e lembrancinhas que não lembram a ninguém, as fotografias e o postal da catedral que se viu pela lente da máquina descartável. Não, não basta o regresso e os seus troféus. É preciso ter visto com olhos de ver, ter olhado outros céus, outros seres e no fim vir ainda insatisfeito. Com o aperto no estômago de não ter bastado, de não ter sido, de não ter dado mais do que o bastante.

Para que serve este regresso? Para que serve a barriga de insatisfação, de tristeza a roçar a melancolia, de pesar? É o embalo, a raiva, a seiva da certeza de voltar. Re-partir e regressar.