quinta-feira, maio 17, 2007

Exames, estreias e cigarros

Preciso desesperadamente de um cigarro. Preciso de o sentir nos lábios, de lhe sentir o cheiro lânguido e adocicado, de lhe ver a ponta incandescente queimando lentamente o seu corpo. Preciso da sua consistência, de lhe puxar o fumo para dentro de mim e saborear a calma e prazer de o sentir percorrer-me as alamedas do ar, de lhe travar a teimosia e voltar a deitá-lo cá para fora, lentamente.

Há dois momentos muito específicos em que gostava que o destino me tivesse tornado fumadora: um, nos dias que antecedem uma estreia, aquele nervoso miudinho do palco que nasce do baixo-ventre e viaja até à garganta, aquela adrenalina irrequieta; outro, nas longas e tortuosas épocas de exame, sobretudo naquelas que começam uma semana depois da Queima…

Por favor lembrem-me de que não estou sozinha!!!

sexta-feira, maio 11, 2007

Djorgé... Pálmaaaaaaaaaaaaa!

Mais um ano de nove dias de festa, loucura, anestesia. A Queima das Fitas tornou-se sinónimo exclusivo de Noites do Parque, de Quim Barreiros, de Xutos e Pontapés, de Rui Veloso, de The Gift, de Jorge Palma e de outras bandas recorrentes todos os anos. Há as barracas, há o palco, há as bebidas e, é claro, a cerveja. E há uma multidão indiferenciada de bonequinhos pretos.
As tensões da vida quotidiana escorregam pelas goelas e dão saltos na gravilha do recinto. O dinheiro esvai-se dos nossos bolsos rotos para as mãos ávidas dos vultos furtivos que exploram toda esta festa, mina de ouro, pólvora, fonte quase inesgotável de mais euros do que aqueles que nos atrevemos a imaginar. A nós interessa-nos o álcool e a folia e o resto é conversa.
Andamos trajados de orgulho estudantil ou anarquicamente vestidos de nós mesmos, num gesto deliberado de não fazer parte de nenhum grupo excepto do grupo dos anarquistas. Somos rebeldes e não nos importamos que nos pensem no secundário (a festa é nossa, a festa é desta e para eles não há festa como esta!). Nós temos bilhete geral e todos os dias, todas as noites, estamos lá a fazer a nossa festa, o nosso "show" e a enriquecer quem fez da nossa festa uma empresa. A festa não é nossa, a festa já não é nossa! A festa é das tascas, a festa é dos táxis, a festa é das concessões, a festa é dos coletes amarelos e dos "staff"!... a festa é de todos menos dos estudantes, para quem ela foi criada.
A festa acaba hoje e, com ela, a folia de Coimbra. Volta à pacatez, volta à pequenez, volta aos tons cinza, a nossa Coimbra. Cada cidade tem em si um pulsar próprio de que não se apercebe quem nela vive - só quem vem de fora e passa uma temporada a conhecê-la. Pelos olhos de um amigo de fora eu vi o pulsar de Coimbra: a sua pacatez durante o ano, a sua depressão nas épocas de exames, a sua extroversão e loucura nas épocas festivas. É uma cidade universitária e as suas ruas vivem ao ritmo dos estudantes. Depois da festa, a ressaca – e os exames.

sábado, maio 05, 2007

"abstreto"

... e então, depois de muito caminhar, de já conseguir sentir todos os músculos da perna a cada passo que dava, de já quase sentir a vibração pouco silenciosa das cordas vocais depois de ter abusado delas escandalosamente para tentar encontrar o que queria, de já quase ter perdido toda a esperança (e ela sabia que essa era a última a morrer!...), sentiu um quentinho, viu uma luz, quase que ouviu aquele coro de anjinhos pirosos que aparece nos cartoons... mostrou os dentes num meio sorriso que se foi rasgando até às orelhas... seria possível? encontrou alguém e disse: - Não acredito. Encontrei? É aqui que há mais? Consegui encontrar o sítio e as pessoas que dão mais? - hahaha! Aqui, se há mais, é mais do mesmo. E ela morreu.
(duro, talvez. Mas bem real. Estou a entrar em decomposição.)

terça-feira, maio 01, 2007

Em jeito de carta a um suicida bem sucedido

Há exactamente dois anos e onze dias. Doze dias. Treze dias. Vão passando os dias e a carta espera porque nunca chegará ao seu destino. Há exactamente essa eternidade precisa, deixaste. Desististe. Catorze dias. Quinze dias. Vão passando os dias e foi hoje exactamente há dois anos e quinze dias. A pergunta ficou suspensa nos nossos lábios vivos. Eternidades passam e a tua memória perdura, porque tu existes precisamente à flor da nossa memória. És Abril. Abril em mim, Abril em nós.

Não quero glorificar a tua morte. Não há nada de glorioso no suicídio e a glória póstuma de gente invisível em vida é a maior arrogância da gente visível que sobrevive. Arrogância e culpa. A tua infelicidade foi um crime punido com a indiferença mas somos nós os criminosos que a lei não pune. Só a consciência.

Uma vontade, uma corda, uma fuga: a cobardia e a coragem ficam ao critério de quem te quer julgar como bom ou mau, nesse maniqueísmo terrível da moral rasa de papel. Eu não sei, há um pouco de tudo ou talvez nem seja nada disso. Quem sabe? Os teus lábios já não respondem. Há exactamente dois anos e quinze dias.

Tudo isto é demasiado impressionante para as palavras. Porque não foi só o impacto da tua morte o impressionante – o impressionante foi o vazio. Num momento existias e no momento seguinte não passavas de uma memória. Voluntariamente. Conscientemente. Puff.

Se eu soubesse exprimir tudo o que perdeste nesta eternidade reduzida de dois anos e quinze dias… mas como expressar a beleza de viver por inteiro? Como expressar a maravilha que é viver uma paleta completa de tonalidades cromáticas? Como fazer-te ouvir o sublime das escalas todas, dos tons, dos acordes, dos ritmos, ruídos, silêncios e como fazer-te sentir a textura das palavras vivas? Como mostrar-te que o belo, o dolorosamente belo, de estar vivo é experimentar os matizes todos dos sentires e sentidos, os cambiantes dos sabores das lágrimas e dos risos e a mais insuportável banalidade dos dias reais? Como explicar-te que não há magnitude nenhuma, não há realeza, não há tronos, não há coroas – só cadeiras de verga onde sentamos o corpo cansado de mais um dia brutal, onde bebemos o licor da esperança dos dias que ainda hão-de vir e recuperamos energias perdidas com preocupações vãs? Como revelar-te que não há indignidade nenhuma no sofrimento e que a alegria não é uma planície? Como explicar-te que a felicidade é uma substância química pouco palpável cujo néctar só bebemos em certos momentos pequenos e a doseados tragos? Como transmitir-te a calma divina da paz de espírito e da tranquilidade, quando os assombros e os fantasmas abandonam a nossa cabeceira da vida e nos deixam relaxar por inteiro? Como extasiar-te com a euforia da descoberta, de nós, do outro, de nós com o outro?... Como falar-te do Amor? E como, como, desenhar-te os contornos indefinidos desta coisa vaga e imprecisa que é Viver?

Se eu soubesse mostrar-te tudo isto, se tu tivesses sabido tudo isto… Porque no fim só paira uma pergunta nas nossas línguas sobreviventes: para quê, T.?

Para quê?

quarta-feira, abril 25, 2007

Do dia 25

Hoje só quero repetir uma palavra até ficar sem voz:

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

Liberdade!

(Ainda há tanto por para fazer…)

arrependimento

Arrependimento. Palavra que pesa na alma. Quem se enche de arrependimento, quem deixa que o arrependimento alastre como uma nódoa na sua vida, não aproveita o presente. Vive atracado no passado. A lamuriar-se, arrependido, pelos erros que o fizeram mudar a rota da sua viagem. Arrependido, tão arrependido, que tendo chegado a rasgar algumas ondas, a avançar para o mar alto, a saborear o marulhar, não chegou onde queria, onde sempre quis, onde sempre desejou chegar. E, assim, arrependido e frustrado, recolheu as velas e voltou ao cais do passado. Chorando musgo pelas frestas da madeira do seu casco envelhecido. Sem querer errar mais, para mais tarde não se arrepender, não avançou. E nem sequer se apercebeu que não tinha chegado mais longe porque se arrependeu. Arrependeu-se de não ter seguido a rota já planeada. Arrependeu-se de ter tomado decisões condicionado. Arrependeu-se até de ter feito planos porque isso o levou ao arrependimento. Nesse cais do ontem, largou a sua âncora, o seu arrependimento, que o fez ficar ali. A certa altura até se sente confortável ali, seguro até. Muito seguro. O arrependimento pesa-lhe, mas também o segura à areia. Não o deixa arriscar em nada. O mar que o rodeia é sempre o mesmo. Até já nem é frio. É quentinho. Já não chora mais. O arrependimento já faz parte dele. Essa âncora já não vai ser subida. Nunca. Ele já sabia que se a subisse, arrepender-se-ia de o ter feito. E ficou ali. feliz. (Não se chegou a aperceber verdadeiramente dos momentos que poderia ter vivido. Não se chegou a aperceber que bastava ter navegado mais um pouco, com mais um pequeno esforço, dando a volta aos problemas, para chegar a um cais diferente. Bastava isso. Um cais onde se sentiria verdadeiramente feliz. Ele era feliz... mas porque simplesmente não quis arriscar e ver que havia mais. Muito mais para além daquele cais.) E ali apodreceu.

terça-feira, abril 24, 2007

O teu voto conta!

Hoje é dia de eleições na faculdade de direito.

O teu voto conta!

As eleições são um acontecimento grandioso e espectacular que consegue levar multidões ao claustro sempre deserto de uma faculdade historicamente orgulhosa. Há eleições praticamente durante todo o ano: para a Direcção Geral da Associação Académica de Coimbra, para as Comissões de Curso, para o Núcleo de Estudantes de Direito, para isto, para aquilo…

O teu voto conta!

Desta vez são para o Núcleo de Estudantes de Direito e, durante uma impossível e interminável semana, não se vê mais nada. Em qualquer ponto que o nosso olhar alcance, lá estão os flyers, os cartazes, organigramas, caras e mais caras (algumas total e completamente desconhecidas), autocolantes, porta-chaves, isqueiros, promessas, mais promessas, projectos megalómanos e ideias luminosas. Em nenhuma outra altura do ano há tantas conversas, tantos beijinhos e abraços, tanto contacto entre os caros colegas, futuros juristas. Em nenhuma outra altura do ano há tantos amigalhaços naquele claustro, em nenhuma outra altura do ano se vive uma atmosfera tão intensa.

O teu voto conta!

As eleições são um fenómeno interessantíssimo:

  • revelam a fibra dos estudantes que andam adormecidos o ano inteiro;
  • estreitam laços entre perfeitos desconhecidos;
  • incentivam a comunicação e dão vida a uma geriátrica instituição;
  • desenvolvem competências de socialização, de relação interpessoal e, especialmente, técnicas de manipulação e aldrabice;
  • promovem o caciquismo e a demagogia e despertam a veia política de um elevado número de estudantes;

As eleições têm ainda o mérito de, ao menos durante uma semana de vez em quando, fazer as pessoas sentirem-se importantes. Quem não gosta de ver aproximar-se um perfeito desconhecido que nunca lhe dirigiu a palavra na vida (e assim que acabarem as eleições deixa imediatamente de o fazer) dar-lhe dois beijinhos entusiasmados e dizer:

“Tu és importante, não te esqueças de ir votar no dia 24!”.

O teu voto conta!

Hoje é dia de eleições na faculdade de direito. Dia de espectacular luxo democrático, ele é o culminar de uma interminável semana de campanha e o advento do sossego. De hoje sairá um novo Núcleo de Estudantes de Direito, cheio de promessas, projectos megalómanos, ideias originalmente luminosas. Sentar-se-á no trono como o fizeram inúmeros grupos de promessas antes dele e acabará por deixá-lo sem que o mundo tenha saído dos eixos. E no fim, as costas do trono estarão quentes, nunca arrefecem porque há sempre promessas a entrar e a sair.

O teu voto conta!

segunda-feira, abril 23, 2007

O espelho do mundo

Olho-me ao espelho como uma desconhecida e vejo a evidência que tanto me irrita: a palidez da minha pele não liga com a minha carapinha. Está escrito na minha imagem que sou o fruto de um atentado às convenções, filha de dois mundos diferentes. Sou feita de duas raças e a arbitrariedade com que a natureza as juntou em mim é dolorosamente cruel. Do meu pai de ébano herdei a cabeleira rebelde, indomável e insubmissa, da minha mãe a pele láctea e olhos cor do mar. Faço parte daquele terreno pantanoso que não é uma coisa nem outra, e eu não sou branca, nem preta, nem mulata. Cometi o pecado de nascer diferente e a diferença é, para o Homem, um pecado sem perdão.

O espelho olha-me do outro lado e eu vejo-me desconhecida. O espelho olha-me como um desconhecido com a força do preconceito. Sinto nele os sorrisos de piedade, os olhares de espanto e sinto-me como uma besta no circo, estou num palco e vejo os rostos surpreendidos por entre as barras de ferro. Apetece-me gritar, partir o espelho, quebrar o espelho do mundo. Apetece-me odiar as pessoas que me olham com os olhos no umbigo e não vêem nada – nem mesmo elas próprias.

Eu cometi o erro de ser uma contingência estranha da natureza. Cometi o erro maior, o que encosta o Homem à parede e lhe põe o rabo entre as pernas e as orelhas baixas e a miar e a gemer e morrer de medo. Eu cometi o erro de não ser classificável.

Eu sou branca, tenho os olhos azuis e o cabelo muito preto, muito enrolado na cabeça. As minhas raízes estão espalhadas por duas culturas, duas formas de vida tão opostas quanto ricas em beleza. Amo as minhas duas culturas e as minhas origens dispersas, amo-as e não sou nem só uma nem só outra. Eu tenho o privilégio pesado de ser duas e não ser nenhuma e, embora eu ame os dois mundos que me deram vida, eles não me amam a mim porque só amam a pureza. As duas matilhas olham-me como a um cão rafeiro, brandindo aos quatro ventos a qualidade da sua raça pura.

Não sou rotulável. Eu sou a prova viva da imprevisibilidade do Universo e sou suficientemente arrogante para afirmar que personifico a confusão, a dúvida, o medo. As pessoas olham para mim e não compreendem a Natureza, eu grito-lhes a estranha contingência da vida aos ouvidos tapados e abro-lhes os olhos cegos para a coisa mais assustadoramente bela da existência: a imprevisibilidade. Mas as pessoas precisam de clareza, de certeza, de segurança. Eu também. E olho para o espelho e vejo tudo isto e sei que vou ser sempre inadaptada. Porque eu sou o oposto da clareza, da certeza, da segurança. Eu sou uma brincadeira cósmica à escala humana. E por isso, sou olhada com desconfiança, até por mim própria. O preconceito dos outros é o mesmo que o meu e não é por isso que deixa de me irritar menos. A incoerência da minha pele e da minha cabeleira dói-me como as minhas contradições, porque sei que, se fosse de uma só raça e olhasse alguém que não é uma coisa nem outra, o meu olhar seria de preconceituosa indiferença, talvez até de desdém, e a consciência disto é extremamente dolorosa. É tão fácil julgar os outros com os olhos cegos postos no nosso próprio umbigo, tão fácil usar os nossos padrões, a nossa bitola liliputiana, a nossa curta perspectiva para tecer juízos de valor sobre os outros… e esta é a minha vergonha, o meu arrependimento – sou inadaptadamente preconceituosa por despeito.

quinta-feira, abril 19, 2007

A história do ego que era grande de mais

Era uma vez um ego tão inchado, tão inchado, tão inchado que um belo dia explodiu.

Evasão

sábado, abril 14, 2007

A ilha do teu corpo

O teu corpo é uma ilha comprida
Na exacta medida do meu desejo.
Sábios astrolábios para um beijo,
Secretas coordenadas da loucura,
Teus lábios prendem um trevo
Erguido e toda a tua figura 
É a postura de um deus grego.

Na ponta da ilha do teu corpo
Rebentam ondas de cabelo escuro,
Agreste, rebelde, viril e maduro.
Vagas de fogo eternamente posto,
Densa floresta em dança louca,
Prolonga-se pelo teu rosto
Emoldurando a tua boca.

No porto da ilha do teu corpo
Teus olhos refulgem cintilantes,
Tesouros misteriosos, diamantes.
Teu queixo é o cais, moreno discreto,
Teus ombros fortificações maduras;
A penugem áspera do pescoço erecto
Donde se soltam, loucas, as doçuras.

Toda a ilha do teu corpo é um mundo
Onde é extensa a planície de quimeras.
Vastos são os braços com que enlaças
Em ti as minhas doces primaveras.
E aí mais no fundo não disfarças
O teu ceptro maduro, androceu:
O teu corpo é uma ilha
E tudo o que és é meu.

segunda-feira, abril 09, 2007

Um metro e meio de violino

Um metro e meio, ou pouco mais de um metro e meio, de braço dado com o seu pequeno violino, o menino subiu ao palco, muito sério, muito contido. Tinha uns olhinhos pequeninos, quase em bico, quase fechadinhos, de um castanho muito escuro, muito escuro, como o cabelo escorrido a cair no pescoço. Depois de uma vénia tímida, apertou o violino com o pescoço e contra o peito (imagino o coraçãozinho a bater lá dentro, descompassadamente) e de repente o violino já fazia parte dele, já não era só um instrumento era, isso sim, o prolongamento da sua pessoa. Afinou-o, trocando olhares com a professora sentada ao piano, e estavam os dois prontos para começar.

E de repente, com uma violência incrível, com gestos quase dramáticos, tão intensos, tão rápidos, tão impressionantes, ele e o seu pequeno violino dançavam, ou talvez fosse a sua alma a passar dos dedinhos para as cordas, um som tão intenso, tão brutal… como sai tanta intensidade de um menino? Ah, que pena eu não perceber de música se não o prazer de a ouvir! Soubesse eu as notas, soubesse eu tudo e perceberia o prodígio de onze anos e o som do seu violino! Fosse para mim o Chaconne de Vitali o Chaconne de Vitali e não um longo e arrepiante choradinho!

(Primeiro entra o piano, baixinho, suave, como um sussurro que convida a falar. O violino responde ao chamamento, de repente, revoltado ou talvez apenas triste, chorando, chorando, num diálogo íntimo e por vezes violento, exaltando-se aqui e ali, mas sempre intenso, sempre intenso. Parece contar-lhe a história da sua vida, com altos e baixos, exaltações e lamentações, com uma profundidade absolutamente impressionante e esmagadora. O violino domina o piano, subjuga-o, ou talvez seja o piano que constantemente incita o violino a contar dramaticamente a sua história. Não funcionam um sem o outro e sabem-no e por isso incitam-se mutuamente, numa relação quase física, numa convivência quase material.)

De vez em quando, nas partes menos violentas da peça, o menino ficava de repente muito contido, muito tranquilo, e a sua boquinha fazia uma espécie de biquinho de concentração. E a música lavou-me até às lágrimas e eu não percebo como pôde um principezinho emocionar-me tanto. Uma grande plateia de gente grande e toda a gente comovida com a imensidão de um menino tão pequenino.

terça-feira, abril 03, 2007

Dogville

Há rasgos de génio que nos enchem de espanto.

Há retratos cruelmente lúcidos do que é ser-se pessoa, do que é ser-se humano (e por mais voltas que lhe demos, por mais optimismo que tenhamos, por mais felicidade que toquemos, não há como fugir à lucidez desses retratos…).

Há obras-primas que nos corroem de inveja porque queríamos ter sido nós a criá-las! (e eu que nunca tive aspirações de realizadora de cinema…)

Este filme é em tudo um dos melhores que já vi. Por mais voltas que dê à cabeça, qualquer que seja o prisma, é sempre irrepreensivelmente genial. Vendo-o da perspectiva do argumento (genial), da perspectiva da cenografia (genial), da perspectiva da luminotecnia (genial), da perspectiva do trabalho de actor (genial), da perspectiva de toda a sua concepção (como é que Lars Von Trier se lembrou DISTO?!!!), não encontro nada fora do lugar, nada que esteja em desequilíbrio. É um tratado de filosofia, um tratado de poesia, um tratado de teatro do melhor que há, um tratado da existência (numa visão absolutamente trágica e sem redenção possível) e não há uma única sombra no que toca à perfeição deste filme. E até aí é cruel porque é um filme essencialmente sobre a imperfeição do humano, sobre a sua eterna arrogância e sobre a maneira como as circunstâncias influenciam (determinam?) tudo o que fazemos, não fazemos e deixamos de fazer.

Não tenho palavras. Este é um daqueles filmes que só mesmo vendo. Está lá tudo. Tudo.

(Ah, o carinho por esta caixa preta de experiências, os traços de giz no chão e as transparências de todos nós! Todas as paredes são de vidro e todos os nossos muros são de esponja… Dogville somos todos nós – está-nos no sangue de humanos. Antes fossemos cães e a nossa natureza fosse a nossa natureza e não houvesse maneira de contornar isso…)

domingo, abril 01, 2007

Apontamento desbotado

Suave,
Eternamente suave,
A lembrança
Da inocência
De criança.

Breve,
Incrivelmente breve,
A ideia
De uma vida
Sempre cheia.

Leve,
Extremamente leve,
O peso da saudade,
Da lembrança,
E da eterna nostalgia
Da infância.

sexta-feira, março 30, 2007

Dommage à deux

Eu era muito nova e ele tinha o charme de ser mais velho. Eu era muito nova e não sabia nada da vida e no olhar dele lia uma espécie de sabedoria tranquila. Eram duas avelãs, os olhos dele, bem escuros, bem lindos, bem profundos. Fitavam-me como dois faróis, invadiam-me a intimidade e deixavam-me nua, desprotegida, sem jeito. Ele tinha o charme de ser mais velho, tinha o charme no sorriso, em toda a boca, no sinal no queixo, no nariz torto, na barba por fazer… e tinha ainda o charme de me ouvir no meu embaraço e de me fazer sorrir, sorrir por dentro, rir por fora, tolinha. Ele tinha tudo, tudo… Eu era muito nova e ele tinha esse charme de ser homem.

Como nos conhecemos? Não importa. Na sua contingência, as histórias de amor são todas iguais. Há o momento do encontro, da atracção, do enamoramento, da paixão, do desejo… a ordem é mais ou menos indiferente, não há ordem no caos do amor. Às vezes é tudo ao mesmo tempo, outras vezes são parcelas de todos esses momentos, misturadas como peças de um puzzle em construção.

Conhecemo-nos num concerto, através de um amigo comum. Talvez importe, afinal – quem sabe? Há em todas as coisas a possibilidade infinita de ser uma infinidade de coisas. Talvez tivesse sido diferente se nos tivéssemos conhecido num bar. Ou no cinema. Ou na faculdade. Ou num outro lugar qualquer. “Olá, a tua cara não me é estranha. Conheço-te de algum lado?” Mas não foi assim.

Aconteceu tudo tão depressa… Eu flutuava, flutuava, vivia à beira de um precipício encantado onde o desejo e o risco se entrelaçavam. Era uma sinfonia, uma sinfonia! Uma sinfonia de sensações dispersas, de sentimentos de diferentes tonalidades e no fim, oh no fim, tudo se conjugava na mais bela música que já sentira dentro de mim. Êxtase, êxtase, e o ciúme, e o ciúme… A admiração babada daquele ser caído dos céus, as mãos, as suas mãos hábeis, os dedos lindos que imaginava em carícias, as mãos perfeitas e mágicas que faziam ilusionismo diante dos meus olhos… a vertigem da proximidade… o abismo da distância… a adoração…

O fim. Apaixonou-se – disse com a maior das latas – por outra rapariga. Estava completamente apaixonado por ela e eu a olhar para ele e já não havia mais ninguém. Eu olhava para ele e ela desaparecia quando ele olhava para mim, eclipsava-se quando conversávamos, morria quando ele me tocava ao de leve no braço. Mas ele agora tinha namorada. E eu odiei-os. E pensei que morria.

Não fui a única. Havia mais alguém que chorava o que eu chorava, que sentia o que eu sentia. Alguém que, como eu, recolhia os cacos do desgosto para debaixo do tapete do amor e aguardava em sofrimento que passasse o tempo, que passasse o luto. Mas ele tinha acrescido o peso do preconceito, o grilhão da sociedade e as suas lágrimas eram reprimidas. E o meu amigo chorava comigo a perda do mesmo homem. E eu era muito nova e ele não era assim tão novo e ambos chorávamos a perda de um homem mais velho. Estranhamente, encontrámos algum conforto no sofrimento mútuo, no carinho mútuo e fraternal. E ele disse-me: “Sabes Sofia, se eu fosse heterossexual, ficava contigo”. E eu disse-lhe “e eu, se fosse homem e homossexual, ficava contigo”. E rimos os dois feitos parvos, entre lágrimas salgadas e lágrimas perdidas. C’est dommage. Mas a vida continua.