sexta-feira, março 30, 2007

Dommage à deux

Eu era muito nova e ele tinha o charme de ser mais velho. Eu era muito nova e não sabia nada da vida e no olhar dele lia uma espécie de sabedoria tranquila. Eram duas avelãs, os olhos dele, bem escuros, bem lindos, bem profundos. Fitavam-me como dois faróis, invadiam-me a intimidade e deixavam-me nua, desprotegida, sem jeito. Ele tinha o charme de ser mais velho, tinha o charme no sorriso, em toda a boca, no sinal no queixo, no nariz torto, na barba por fazer… e tinha ainda o charme de me ouvir no meu embaraço e de me fazer sorrir, sorrir por dentro, rir por fora, tolinha. Ele tinha tudo, tudo… Eu era muito nova e ele tinha esse charme de ser homem.

Como nos conhecemos? Não importa. Na sua contingência, as histórias de amor são todas iguais. Há o momento do encontro, da atracção, do enamoramento, da paixão, do desejo… a ordem é mais ou menos indiferente, não há ordem no caos do amor. Às vezes é tudo ao mesmo tempo, outras vezes são parcelas de todos esses momentos, misturadas como peças de um puzzle em construção.

Conhecemo-nos num concerto, através de um amigo comum. Talvez importe, afinal – quem sabe? Há em todas as coisas a possibilidade infinita de ser uma infinidade de coisas. Talvez tivesse sido diferente se nos tivéssemos conhecido num bar. Ou no cinema. Ou na faculdade. Ou num outro lugar qualquer. “Olá, a tua cara não me é estranha. Conheço-te de algum lado?” Mas não foi assim.

Aconteceu tudo tão depressa… Eu flutuava, flutuava, vivia à beira de um precipício encantado onde o desejo e o risco se entrelaçavam. Era uma sinfonia, uma sinfonia! Uma sinfonia de sensações dispersas, de sentimentos de diferentes tonalidades e no fim, oh no fim, tudo se conjugava na mais bela música que já sentira dentro de mim. Êxtase, êxtase, e o ciúme, e o ciúme… A admiração babada daquele ser caído dos céus, as mãos, as suas mãos hábeis, os dedos lindos que imaginava em carícias, as mãos perfeitas e mágicas que faziam ilusionismo diante dos meus olhos… a vertigem da proximidade… o abismo da distância… a adoração…

O fim. Apaixonou-se – disse com a maior das latas – por outra rapariga. Estava completamente apaixonado por ela e eu a olhar para ele e já não havia mais ninguém. Eu olhava para ele e ela desaparecia quando ele olhava para mim, eclipsava-se quando conversávamos, morria quando ele me tocava ao de leve no braço. Mas ele agora tinha namorada. E eu odiei-os. E pensei que morria.

Não fui a única. Havia mais alguém que chorava o que eu chorava, que sentia o que eu sentia. Alguém que, como eu, recolhia os cacos do desgosto para debaixo do tapete do amor e aguardava em sofrimento que passasse o tempo, que passasse o luto. Mas ele tinha acrescido o peso do preconceito, o grilhão da sociedade e as suas lágrimas eram reprimidas. E o meu amigo chorava comigo a perda do mesmo homem. E eu era muito nova e ele não era assim tão novo e ambos chorávamos a perda de um homem mais velho. Estranhamente, encontrámos algum conforto no sofrimento mútuo, no carinho mútuo e fraternal. E ele disse-me: “Sabes Sofia, se eu fosse heterossexual, ficava contigo”. E eu disse-lhe “e eu, se fosse homem e homossexual, ficava contigo”. E rimos os dois feitos parvos, entre lágrimas salgadas e lágrimas perdidas. C’est dommage. Mas a vida continua.

quarta-feira, março 28, 2007

O lirismo é uma espécie de doença crónica

O lirismo é uma espécie de doença crónica, instalada no ventrículo esquerdo, incrustada numa qualquer membrana de que não sei o nome porque não estudo medicina. O lirismo é uma praga, uma chaga que arde constantemente e cujo principal sintoma é a compaixão. O estado lírico é um estado gelatinoso, uma ligeira impressão no peito, que se manifesta sob o som interno “baque” e deixa o paciente numa disposição melancólica e nostálgica. Episódios deste tipo são frequentes em doentes líricos em situações de alguma carga emocional. É muito frequente, por exemplo, entrar neste estado emocional quando se encontra um velhinho ou uma velhinha na paragem de autocarro e se ouve a narração breve (ou não tão breve assim) da história de uma vida inteira. Ou quando o mesmo velhinho ou velhinha não conseguem subir para o autocarro e precisam de uma mãozinha. Muitíssimo comuns são também manifestações líricas sob a forma de sorriso rasgado ou mesmo uns sons do estilo “ohhhhh” na presença de crianças e bebés, afectando esta forma de lirismo mais o género feminino do que o masculino. O contacto com a natureza e o ar puro tem o mesmo efeito em doentes líricos, causando invariavelmente um momentâneo estado depressivo quando os sintomas físicos alteram os químicos no cérebro e os pensamentos dos indivíduos.

Não se conhece nenhuma cura para esta espécie de doença crónica. Há quem diga que não há mesmo possibilidade de cura e que a única maneira de sublimar esta condição é através da arte, qualquer que seja a sua forma. Claro que a arte de viver não conta, porque é a principal causa desta eterna condição lírica.

terça-feira, março 27, 2007

Querer e poder.

Fruto de muitos futuros, sou quem sou.
De futuros já passados, de futuros ainda presentes, de futuros ainda futuros.
Sou raiz e um pouco de caule. Sonho já com o resto.
Com as folhas, com os espinhos, com o verde, o amarelo,
com a flor, com o fruto, com o castanho. Com a seiva
de que me quero alimentar.
Eu fui sendo, sou sendo e serei sendo.
É ao ser que serei.
É ao querer ser que conseguirei serei.
Não sou o que me deixam que seja.
Eu sou, com a raiz que já tenho e o caule que começo a ser, o que quero ser.
Se depender de mim e, claro, de Quem me rega, serei quem sonho ser. Quem quero ser.
Está nas Nossas mãos.
Sem grande sentido... nao me importa.
Tchim tchim às conversas e ao chá!
; )

terça-feira, março 20, 2007

Music. The art of the heart.

Respirar fundo mais uma vez. Outra. Mais profundamente ainda. Tentar fazer com que o nervoso que prende a minha voz largue o meu corpo através deste suspiro. Fico calma por cinco segundos para voltar de novo ao mesmo. Não faz mal. Penso eu. Eu safo-me. No fundo, safo-me sempre. Como é que uma arte me dá tanto trabalho e ainda é exigente quando a manejo. Traz com ela um largo e espesso manual de instruções que eu vou demorar ainda muito mais tempo do que o que já gastei para o ler. Horas. Horas a fio. Sozinha. Com ela. Com esta arte que exige trabalho e tempo. Seja pelas cordas do violino seja pelas cordas da voz. Duvido sempre dela nestes momentos. Vale a pena esta ansiedade que me oprime os sentidos? Este nervoso que me tira até a força para aguentar os meus joelhos sem tremer? Este zumbido nos ouvidos que ause nem me deixa ouvir mais nada? Vale a pena as horas gastas no meu quarto, submersa em estudo? Valem a pena as 13 horas no Conservatório? Valem a pena os momentos de família e amigos que acabo pr perder por causa deste dever? "E agora vamos ouvir uma música chamada O anjo que foi composta por Wagner". Levanto-me. Sou eu. Quase que me encosto à curva delgada do piano de meia cauda e firmo a mão no tampo. Assim sinto-me segura. Troco um rápido olhar com o pianista... Estou pronta. Soam os primeiros acordes e eu entro. Meio torta no início, a voz falhou-me (maldito frio), mas endireito-me. Penso no que canto. No anjo com que eu sonhava quando era mais miuda. Momentos mais leves, momentos mais pesados, mais ansiosos, mais pacíficos... tento passar o que sinto ao público através desta arte matreira. Acabo. Pelas palmas, vejo que consegui. Boa. "Cada palma que se ouve do público são 375 lágrimas choradas por nós em casa", já dizia o meu mestre. É verdade. É mesmo verdade. Voltei ao meu lugar. Vale a pena. Definitivamente, vale a pena. Como pude chegar a duvidar?

sexta-feira, março 16, 2007

A felicidade é a minha vizinha de cima

Comprador: Boa tarde.

Vendedor: Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?

C: Queria 2kg de felicidade, por favor.

V: Desculpe?

C: Queria 2kg de felicidade.

V: Felicidade? O senhor não estará equivocado?

C: Não, não – apenas desejo comprar 2kg de felicidade.

V: Sim, mas nós não vendemos felicidade.

C: Não?

V: Não.

C: Ah.

V:

C: Então como explica a placa lá fora?

V: Qual placa?

C: Aquela placa ali ao pé das maçãs: “Há felicidade”

V: O senhor só pode estar a brincar comigo…

C: Por amor de Deus, não!

V: Ó homem, deixe lá Deus que Ele não é para aqui chamado. O senhor não vê que isto é uma mercearia?

C: Vejo, mas a placa não engana ninguém: aqui vende-se felicidade. Quanto custa?

V: Já lhe disse que isto é uma mercearia! Se quiser maçãs, laranjas, bananas, couves, ovos, bolachas… tudo isso eu tenho para dar e vender. Sobretudo para vender. Agora felicidade…. Ó homem, se se vendesse felicidade não haveria nem um grama em stock e toda a gente andava para aqui com sorrisos parvos na cara!

C: Isso quer dizer que não vende mesmo felicidade?... Mas e a placa?

V: E ele a dar-lhe com a placa… Lamento desiludi-lo, mas aqui – nem que eu saiba em lado nenhum – não se vende felicidade. Agora a placa… a placa! Às tantas pensou que viu a placa e agora está convencido que a viu mesmo! Se quiser vamos lá fora confirmar que não há placa nenhuma.

C: Pronto, deixe lá a placa… eu só queria mesmo era um bocadinho de felicidade… sabe, ando tão abatido, tão em baixo… os meus amigos dizem-me todos que eu tenho que me animar, que tenho é de pensar positivo… eles têm razão mas eles não sabem…

V: Pois é, pois é, toca a todos. E olhe que há quem esteja pior, há quem esteja pior….

C: Duvido. Não imagina como me sinto… a minha vida é um pesadelo. Nem imagina o difícil que é ser eu… eu só queria um cheirinho de felicidade… nem precisavam de ser 2kg, bastava-me um bocadinho…

V: Pronto, homem, não fique assim! Olhe, fazemos o seguinte: eu tenho aqui uma garrafinha de vinho que é uma maravilha. É a mais cara que tenho aqui, mas como o senhor está tão abatido, até lhe faço um desconto. O senhor leva uma garrafinha e se quiser leva até um queijinho – o senhor gosta de queijo? Ah, óptimo, óptimo, estou a ver que é boa boca! – e fica metade por conta da casa. Está a ver, afinal é o seu dia de sorte! Vai para casa, come e bebe este petisco e olhe que até fica com a barriga cheia de felicidade!

C: É muito generoso da sua parte… tem a certeza?

V: Veja lá, não me faça mudar de ideias! Olhe que eu nem me conheço, já se lá viu eu alguma vez oferecer meia garrafa de vinho… aproveite, aproveite homem que não sei o que me deu hoje.

C: Já que insiste… não é que tenha muita fome, mas um queijinho sabe sempre bem. Vai ser uma boa surpresa para a minha namorada.

V: Está a ver, até já fala em mulheres! Assim é que eu gosto!

C: É, a minha Paula é muito importante para mim… Coitada, ela sofre muito com a minha infelicidade…

V: Pois é, homem, é para o bem e para o mal. Andamos cá todos uns para os outros, não é? Mas olhe que era o que eu lhe dizia há bocado, ainda bem que assim é, acredite. Já viu o que era se andássemos sempre a saltitar de alegria? Caramba, nem quero imaginar! Se a minha Dulce não tivesse crises de irritação eu não tinha um momentinho de descanso… Mas olhe que eu também não sou fácil, está a perceber?... Também sou de mau génio e às vezes também me arrasto para aí muito infeliz. É a vida, homem. A infelicidade de uns é a felicidade dos outros.

C: Não percebo como pode dizer isso… Eu não fico feliz por os outros andarem infelizes, eu fico infeliz é por andar infeliz… e também tenho pena que os outros andem infelizes e isso faz-me sentir ainda mais infeliz. Por isso é que eu acho que deveria haver felicidade para dar e vender. Sobretudo para dar, porque a felicidade deveria ser gratuita…

V: Ó homem, como se houvesse alguma coisa grátis neste mundo!

C: Ah, o senhor é um daqueles pessimistas iluminados. Olhe, antes eu conseguisse ser assim também… mas eu sou um pessimista que anda sempre na escuridão.

V: Deixe lá, homem, há sempre um queijinho para iluminar o caminho. E quando não há queijo, há presunto! Prefere de cabra ou de vaca?

C: Hum… não sei… talvez de cabra…

V: Ah, é cá dos meus! Eu também prefiro de cabra, é mais intenso, mais saboroso. Então vá que já lhe arranjo o embrulhinho. Está a ver, não comprou felicidade mas leva aqui um belo pedaço de queijo!

C: É verdade, é verdade…

V: Vê, até já leva um sorriso na cara!

C: Sabe, ainda bem que passei aqui. Espero não tê-lo incomodado.

V: Ora essa, homem, não incomodou nada!

C: Depois digo-lhe o que achei do queijo.

V: Fico à espera. Para a próxima leva outro!

C: Combinado. E já agora, quanto custam dois dedos de conversa?

quarta-feira, março 14, 2007

Deixa lá, há quem esteja pior do que tu

O conforto ridículo que se sente na desgraça dos outros é desumanamente humano.

quinta-feira, março 08, 2007

Não vale a pena comprar celofane

Embrulhei o meu coração em papel celofane para o proteger de toda e qualquer forma de dor. Um dia, quando tentei tirar o papel, ele estava demasiado agarrado à carne e foi impossível descolá-lo. Arranquei pedaços do papel à força e foi assim que fiquei com o coração desfeito. Foi nessa altura que percebi que seria melhor ter um tijolo a bater no peito em vez desse relógio de corda. Mas isso não seria nada prático, porque estaríamos constantemente com um enorme peso no peito.
Mais tarde, o tecido do coração foi crescendo e recuperando consistência. Creio que os restinhos de papel foram absorvidos pelo corpo e o coração cresceu desmesuradamente, sem a obstrução do papel. Tive medo de ter um coração desprotegido, em jeito de flor abandonada ao vento norte. Pensei em pô-lo numa redoma de vidro, impecavelmente higiénica e transparente. Mas eu não queria ser uma flor rabugenta e cheia de espinhos. Não encontrei uma solução e deixei, a medo, o coração ao natural.
Um dia o meu coração encontrou outro coração e brincou com ele. Riram os dois feitos loucos e bateram descompassadamente. Reparei depois que o tecido fino que envolvia o meu coração estava mais forte e que, quanto mais ria e aparvalhava com outros corações, mais esse tecido se entrelaçava em si e nos outros.
Às vezes rasgavam-se os tecidos e isso fazia o coração ficar outra vez pequenino. Queria cobrir-se de celofane, confessava. Mas eu dava-lhe dois pares de estalos e dizia-lhe que não, que não o queria enterrado na mortalha transparente. Ele não percebia, mas eu sim.
Embrulhei o meu coração em amor para que ele batesse descompassadamente ao saber a vida, ao sabor da vida, ao longo de uma longa e desejada vida.
E nunca mais comprei papel celofane.

segunda-feira, março 05, 2007

Imperativo 34

As montras são todas lindíssimas, cheias de luzes de todas as cores, muito modernas, muito in. Nelas pairam corpos esculturais sem cabeça, que exibem casacos muito fashion e calças de ganga afuniladas em coxas esbeltas. Os preços são mais baixos numas, mais altos noutras mas o IVA é sempre a 21%. E o imposto uniforme sobre o valor acrescentado é tão uniforme como a uniformização da moda e dos padrões de beleza.

Em todas as lojas de um qualquer centro comercial encontram-se as mesmas peças, com ligeiras variações. Consomem-se em massa peças de roupa todas iguais que pairam nas ruas em corpos diferentes, e que caminham todos contentes porque afinal são iguais. O problema é que a cobertura não muda o recheio do bolo e não é por usarmos as mesmas roupas que temos corpos iguais.

Mas a verdade é que lá estão os manequins nas montras, lá estão as beldades nos filmes e nas séries a exibir-nos formas perfeitas, dimensões irrealistamente proporcionais. Os deuses gregos caminham neste Olimpo de perfeição computorizada e a sociedade mastiga esse ideal de beleza e cospe-o sob a forma de imperativo. O imperativo 34.

Claro que há imensos tamanhos, todos sabemos isso. Mas os tamanhos variam imenso e de cada vez que levo dez pares de calças de ganga para os provadores e saio de lá sem que nenhum me tenha servido apetece-me esganar todas as modelos do mundo. O imperativo 34 é omnipresente e, mesmo quando os pares de calças são maiores do que isso, está lá. Desconfio até que começaram a fazê-las mais pequenas só para nos fazer sentir gordas. Marotos!

Preocupante é quando uma ida às compras como esta arrasa as pessoas. Preocupante é quando o imperativo 34 leva a anorexias e a bulimias ou meras baixas auto-estimas e vergonhas de si. Preocupante é não sermos capazes de perceber a riqueza da diferença e a beleza da individualidade dos corpos.

Sempre que vou às compras e me sinto ameaçada pelo imperativo 34, apetece-me abastecer a minha despensa de bolachas e chocolates e ir vegetar para o sofá: obedeço ao imperativo do prazer momentâneo (que depois sedimenta sob a forma de culpa na barriga e nas pernas) só para deitar a língua de fora ao imperativo 34!!!

Aqui está um bom exemplo da beleza perfeita e computorizada! A campanha da Dove "Por uma beleza real" foi a melhor campanha publicitária dos últimos tempos. Só é pena que iniciativas como esta, que são verdadeiramente de louvar, sejam tão raras...

domingo, março 04, 2007

Waited for Tom

Tom Waits é um mundo que se me abriu por acaso quando por acaso um CD dele me veio parar às mãos. Um álbum com um rapaz de uma sensualidade imensa, encostado a um carro com um cigarro na mão e sobrancelhas franzidas, bem à época. As letras azuis diziam Tom Waits, "Used Songs 1973-1980". Eu ainda nem existia... Gostei do rapaz da capa. Acho que foi amor à primeira vista.

Apaixonei-me pelo homem aos primeiros acordes. Que voz! Que espanto! Que rasgos de genialidade! Uma voz tão versátil que não parece a mesma de música para música, que ora canta e é doce e quase lamechas, ora grita, arranha as cordas vocais, sussurra, fala, murmura... incrível... genial!

Não é uma voz - são muitas.

Não é um estilo - são muitos (mas é só um, é só um... o dele).

Não é uma maneira de cantar - é uma maneira de fazer arte.

Agora, continua a lançar álbuns e está um senhor de respeito e olho azul!

quinta-feira, março 01, 2007

Reverentíssimo professor

Ele entrou solene na sala e com ele entrou o silêncio. Sem olhar sequer para os míseros subordinados sentados nas primeiras filas, dirigiu-se majestosamente ao quadro, sobrolho franzido e lábios apertados, numa expressão terrivelmente assustadora. Foi com assombro que o vi pegar num pedaço de giz e, em gestos tremidos e vagarosos, começar a escrever umas linhas numeradas. Quase me vieram as lágrimas aos olhos ao lembrar-me dos stores do ensino básico a escrever o sumário! Oh, saudade!
Pousou o giz e dirigiu-se à secretária de mogno (ou de outra madeira qualquer, mas gosto desta palavra: mogno) onde estavam já comodamente instalados um copo e uma garrafa de água do Luso. Ainda de pé, sempre com a expressão medonha na cara, com as sobrancelhas unidas por uma ruga tremenda e os lábios apertados contra o nariz, onde lhe caem perfeitamente os óculos míopes, ele esfrega com a mão esquerda os dedos da mão direita, embranquecidos pelo pó do giz. E continua o gesto obsessivo até que se senta, pesado, na cadeira reverencial de catedrático. Que excelente dinossauro!
Abre então a boca, descontraindo por momentos os lábios carnudos e avermelhados, e deixa ver uns dentes muito brancos, muito direitos. As suas sapientíssimas palavras atropelam-se umas às outras num magnífico jorro de conhecimentos que, se lhes fizéssemos fast forward, seriam de facto interessantes. Mas não. O único ponto de interesse é quando ele se lembra de dar um ar da sua graça e, esquecendo por momentos o modo solenidade, se ri de uma qualquer coisa que disse, voltando a mostrar o sorriso Pepsodent e alisando a ruga gigante que lhe contorce toda a expressão. Convém só dizer que o seu riso é apenas isto: alisar a ruga entre os olhos e mostrar os dentes brancos. Não há cá sons, nem paragem para os ecos do riso, nada disso! O direito é um assunto muito sério.
Chega o final da prelecção (aula é demasiado banal para o reverentíssimo professor) e ninguém se mexe. Espantada, pergunto ao amigo sentado ao meu lado num tom quase inaudível: “Ninguém sai antes de ele se levantar?” Ele abana a cabeça. Para um lado e para o outro. Meu Deus!

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Adeus, meu telemóvel

É só um pedaço de tecnologia. São só uns quantos números. São só palavras trocadas tantas vezes. É só um telemóvel.
Eu não ligo muito ao telemóvel. No início, irritava-me aquele objecto estranho e nunca sabia onde o pôr. Mas, à medida que me ia habituando ao objecto estranho, ia-me afeiçoando a ele.
Há uns meses, quando ele tentou fazer um mortal à porta de minha casa (depois de imensas tentativas das quais não saiu ileso, ficando com vincados arranhões naquela carinha tola), ficou surdo e mudo. Foi para arranjar e recuperou o pio e o ouvido atento. Senti a falta dele durante um mês, apesar de ter tido um rasco substituto verde-ranho, que me incomodava profundamente na sua forma, lentidão e pouco fôlego para aguentar os dias. Para durar o mesmo que o outro (o meu), tinha de o carregar umas três vezes. Nunca confiei nele.
Estranhei as teclas e as cores do meu regressado telemóvel quando finalmente voltou para mim. Ah, bons tempos em que ele voltou a ouvir como dantes e a falar ainda melhor!
Só que o seu destino estava talvez traçado desde o início. A verdade é que nunca mais fez mortais e nunca me ameaçou fugir. Mas ontem... deixou-se seduzir por uma mão malvada que se meteu com a minha carteira na confusão carnavalesca. Ou então caiu, enquanto eu fugia da chuva, com um rabo com o triplo do tamanho do meu, umas calças brancas às pintas azuis e o resto da vestimenta igualmente parola e improvisada de velhos figurinos do Teuc. Mas só se a chuva me abriu a carteira.

Nunca gostei muito do Carnaval. Gostava quando era pequena, o fascínio de mascarar, pintar a cara, fascínio de todas as crianças. Mas há uns tempos que me irrita o Carnaval e a folia estúpida de gente tristonha e monótona que só se liberta vestida de mulher, de vampiro, de zorro ou de fada. E nem nos valem os cortejos, importados directamente do Brasil, cheios de um samba que não vale nada porque, por ser importado, lhe falta aquilo que mais lhe faz falta: a garra. Mas dancemos, dancemos e cantemos vestidos de gente que não somos até a festa acabar e o país voltar ao fado e às tricanas. Ao menos bebemos umas cervejas.
Não gosto muito do Carnaval. Há quem goste, e muito, e há muitas maneiras de viver o Carnaval. Como em tudo. Eu não gosto. Gosto, talvez, do fascínio (de criança?) de vestir a pele de outras pessoas, andar outros andares, falar outros falares, sentir outros sentires. Mas isto não é Carnaval, é teatro. Gosto do pouco de teatro que há no Carnaval.
Não gosto do Carnaval. E finalmente, em 2007, com a morte do meu telemóvel, percebo porquê: os foliões que são ladrões não deixam de ser ladrões só por serem foliões. E se a ocasião faz o ladrão, esta foi uma ocasião em que alguém se fez ladrão. Não há máscaras que mudem isso. Não há disfarces que mudem nada.

O que vale é que, no fundo, é só um pedaço de tecnologia. O resto – tudo o resto – não se rouba assim tão facilmente. Os números só têm valor porque são pontes para as pessoas. E essas sabem onde me encontrar. E eu a elas: há sempre outras pontes.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Absurdos

As pessoas fazem coisas absurdas a toda a hora. Ainda me lembro de ver um homem negro muito musculado e com uma boina vermelha enfiar-se dentro dum pequeno cubo de vidro muito transparente. Meus Deus, as horas que ele deve ter treinado aquela elasticidade para uns segundos de claustrofobia em que todos o aplaudiam! Realmente, as pessoas fazem coisas absurdas.
As pessoas fazem coisas absurdas e eu cada vez gosto mais do absurdo nas pessoas. O absurdo nas pessoas é a forma palpável do nosso lado absurdamente irracional, ilógico e imprevisível. E eu gosto disso. É como se, permitindo-nos ser absurdos, aceitássemos um pouco melhor a nossa própria vulnerabilidade, os nossos limites e fragilidades. Talvez o absurdo em nós seja um beijo de Deus, em que tantos amigos meus acreditam, mas um Deus que saiba dançar.
Talvez o absurdo seja uma das formas mais verdadeiras de ser humano. Quando nos permitimos ser absurdos, caem-nos todas as máscaras e é por isso que ser absurdo é tão assustador. Quando nos permitimos ser absurdos, permitimo-nos desarranjos que as máscaras escondem e ser humano não é mais do que ser desarranjado. Há em todos nós uma incrível desarrumação interior, um mais ou menos disfarçado caos sentimental, uma eterna incerteza quanto ao futuro. E ser absurdo é abrir uma janela para tudo isto e negar a tentadora compartimentação da existência em gavetinhas de dados adquiridos.
Há uma diferença muito subtil entre ser absurdo e ser ridículo. Ser ridículo é fazer coisas absurdas, mas sem ter consciência do grotesco em que se está a cair. O absurdo é deixar cair a máscara; o ridículo é pôr mais uma máscara e tentar ser algo que não se é. Não gosto muito do ridículo, mas fascina-me cada vez mais o absurdo.
Ser absurdo é também saber rir-se de si. Quando tropeçamos e caímos numas escadas à frente de imensas pessoas, temos duas saídas: ou berramos com a mais próxima e dizemos “Que é, nunca viste?!” ou nos rimos que nem loucos. A segunda é a mais absurda e inesperada, mas é a que gera mais empatia. Quem se ri de si abre espaço aos outros para se rirem consigo.
As pessoas fazem coisas muito absurdas. Às vezes, demasiado absurdas, tão demasiado absurdas que se tornam ridículas. É muito subtil, a diferença entre o absurdo e o ridículo. Mas não nos cabe a nós julgar quem é absurdo e quem é ridículo… até porque todos nós somos ambas as coisas de vez em quando. Há muitas coisas absurdas em todas as pessoas e em todas as vidas. Há coisas absurdamente boas e agradáveis e coisas absurdamente dolorosas. Há que ter paciência e saber rir quando a situação é para rir e chorar quando é para chorar. Mas sobretudo, há que ter muita paciência. Ser humano é ser absurdamente paciente com a vida.

domingo, fevereiro 11, 2007

Há momentos em que as orações encaixam tão bem...

Não te inquietes com as dificuldades da vida,
com os seus altos e baixos, com as suas decepções,
com o seu futuro mais ou menos sombrio.
Quer o que Deus quer.

Oferece-lhe no meio das inquietações e dificuldades
o sacrifício da tua alma simples que
aceita os desígnios da sua providência.

Pouco importa que te consideres um frustrado
se Deus te considera plenamente realizado ao seu modo.

Perde-te confiando cegamente nesse Deus
que te quer para si
e que chegará até ti, ainda que nunca o vejas.

Pensa que estás nas suas mãos,
tanto mais seguro
quanto mais decaído e triste te sintas.

Vive feliz. Vive em paz.
Que nada seja capaz de tirar-te a paz.
Nem a fadiga mental. Nem as tuas falhas.
Faz com que brote, e conserva sempre no teu rosto,
um sorriso doce, reflexo daquele que e Senhor
continuamente te dirige.

E no fundo do teu coração coloca, primeiro que tudo,
como fonte de energia e critério de verdade,
tudo aquilo que te enche da paz de Deus.

Lembra-te, tudo o que te oprime e te inquieta é falso:
asseguro-te em nome das leis da vida
e das promessas de Deus.

Por isso,
quanto te sintas desanimado e triste,
Adora e confia.

(Teilhard de Chardin)

sábado, fevereiro 10, 2007

A rotina

Acordou do lado errado da cama. E o seu estava vazio. Estremunhada, olhou para a mesa-de-cabeceira: 10h45m. Meus Deus! Estava atrasadíssima!
Saltou então da cama, maldisse o despertador, tomou um duche rápido, vestiu-se, bebeu café à pressa, lavou os dentes, pôs perfume e saiu de casa. Chegou tardíssimo à escola. E com uma nódoa de café bem imprópria. “Tenho de a trocar ao almoço”, pensou.
As duas primeiras aulas foram ao ar, obviamente trocadas por uma qualquer aula de substituição. Agora ainda tinha duas para dar, mas queria ver como justificava a falta. Simples: não justificava. Acordada já pelo café, desejou ter-se deixado adormecer mais duas horas… Pelo menos aproveitava o desleixo. Ai, ainda se eles gostassem de poesia…
As aulas correram muito mal. Devia ter tomado cinco cafés em vez de um, para acompanhar a pedalada dos miúdos. Pedalada, quer dizer, pedalada para a estupidez. Não sabia se era ela que estava a ficar velha, ou se era uma ideia feita, mas os miúdos pareciam-lhe cada vez mais insolentes e infantis.
Ao toque de saída da última aula, suspirou de alívio. E depois inspirou irritadamente, quando o relógio lhe disse que ainda só era hora de almoço. Que longo dia, que longo dia…
A caminho de casa ia tendo um acidente. Desta vez a culpa não era dela, a outra parva é que se meteu pela rotunda do lado errado e depois ia-se espetando em cima dela ao querer sair na terceira à direita. Imbecis. Conduz-se muito mal neste país… por sorte, não acontecera nada se não umas buzinadelas.
Em casa, era só ela para almoçar. O marido tinha um almoço de negócios com o sócio. O Francisco almoçava na escola e a Sofia ia almoçar em casa de uma amiga. Ok, almoçaria sozinha, então. Não tinha importância. Comia qualquer coisa. De qualquer modo, à tarde tinha uma reunião. Mais uma… Ainda havia uns restos no frigorífico.
Depois do almoço, fumou um cigarro, (ah, o primeiro do dia!) e só depois tomou café. Sim, fazia ao contrário de todos os fumadores: primeiro fumava, depois tomava o café. Os colegas implicavam com ela por causa disso e de todas as vezes ela resmungava que era assim que lhe sabia bem. Mesmo assim eles não se calavam.
Não chegou atrasada para a reunião e ainda teve tempo para outro cigarro. A este queimou-o depressa, deixando-lhe um beijo de insatisfação que se perdeu no cinzeiro.
A meio da reunião, telefonaram-lhe por causa do filho. Caíra numa aula de Educação Física e magoara o joelho. Foi com ele a correr às Urgências. Saiu de lá três horas depois, com uma entorse ligada na perna dele e, nela, uma irritação maldita contra o sistema de saúde do país.
Deixou o filho em casa e saiu a correr para ir buscar a filha a casa da amiga e levá-la ao ballet. Pelo caminho, e do banco de trás, aquela contou-lhe as peripécias todas do dia, incluindo a parte em que a Mariana lhe tinha dito que o papá dela é que era bom porque ganhava montes de dinheiro. Irritada, deu à filha uma qualquer resposta torta, de que logo se arrependeu quando lhe viu tremer o lábio inferior. Tentou remediar a situação com umas palavrinhas de consolo, mas o mal estava feito. A culpa comodamente instalada. “Logo a mamã vem buscar-te, sim querida?” A menina bateu com a porta, obviamente sem responder. E logo ali a culpa se transformou em revolta… com o país. Mas que raio de país é este?! Que estamos nós a fazer às nossas crianças?! Vêem televisão a mais, é o que é… e esquecem a poesia.
Entretanto o marido telefonou-lhe a pedir-lhe que fosse com ele comprar umas camisas. Há muito tempo que o seu marido não era seu marido… Teria outra? Ups, já estava. Foi só um breve segundo, menos, uns meros milésimos de segundo, mas o pensamento ali estava, automático e inquestionavelmente afirmativo. Agora, já racional: teria ele outra? Ou… ainda desejava ela ser sua mulher? Ultimamente, o seu corpo andava adormecido… mas o cansaço de ambos explicava tudo. “Sim, querido, vamos depois do jantar”.
Foi, então, buscar a filha ao ballet.
Chegara cinco minutos mais cedo. Estacionou o carro, desligou as luzes, o motor, puxou o travão de mão, tirou o cinto. Encostou-se para trás e pensou em descansar um bocadinho, enquanto a filha não vinha. A rádio tocava Maria Bethânia, “Agora não pergunto mais aonde vai a estrada. / Agora não espero mais aquela madrugada. / Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser, faca amolada.” Encostou o cotovelo na janela, deixou cair a testa sobre a mão e respirou fundo. Não foi preciso mais nada para as lágrimas caírem livremente.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Voto Não.

No dia 11 de Fevereiro, os portugueses vão ser chamados a pronunciar-se, em referendo, a favor ou contra a “despenalização da interrupção voluntária da gravidez se realizada, por opção da mulher, nas dez primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado.” Eu respondo um convicto e mastigado ao longo de muitos anos Não.

Por detrás desta questão que é levada a referendo como uma "simples pergunta" sobre a despenalização de uma "vergonha nacional", escondem-se questões muito complexas que nos levam a questionar o modelo de sociedade em que vivemos, o modo como vemos a justiça e se ela funciona ou não, a abrirmos os olhos para dramas humanos que, estando tão perto, arrumamos na prateleira do real mas longínquo, a olharmos para o nosso círculo de valores e tentarmos pô-los em prática... questionando-os.

Começo por apresentar dois pontos em que eu penso que os dois lados têm em comum e que acabam por dificultar a escolha dos mais indecisos. Primeiro ponto: o aborto é um mal. É a exterminação de uma vida. Pode não ser pessoa, mas é uma vida humana. Não é um bicho, uma planta, ou (como infelizmente já ouvi alguém dizer) uma víscera. A prova está na imagem que postei no início do texto. É assim um feto de 10 semanas. Apesar de correr o risco de me chamarem piegas, ou de dizerem que sou estúpida ao recorrer a isto, penso que é importante saber-se que é a vida de um ser humano ASSIM que se elimina (e não interrompe). Segundo ponto: ninguém quer ver mulheres presas pela prática do aborto. Saiba-se que, com esta lei, nenhuma mulher foi ainda presa em Portugal por esta razão e que das sete que foram julgadas apenas uma foi penalizada e não se sabe por que razões (pode ter feito um aborto tardio, ou mais do que um,... não se sabe). Estamos todos dispostos a mudar a lei.

O sim e o não divergem quando, depois de termos sangrado discursos defendendo argumentos laterais, se chega à colisão de dois direitos. O direito à escolha da mulher e o direito à vida do feto. Parece-me que, enquanto o sim se centra apenas num dos direitos ignorando por completo o outro, o não faz uma ponderação muito mais razoável, sensata e humana dos dois valores. O não (ao contrário do que dizes, Rita) não quer deixar a lei como está. Eu, que defendo o não, falarei na primeira pessoa, sabendo (porque sou activista pelo não e tive a sorte de poder conversar imenso sobre este assunto com muita gente de ambas as partes) que falo pela maioria dos Nãos. Acho que o aborto clandestino é um problema real na sociedade. É assustador pensar na quantidade de abortos clandestinos que se fazem em Portugal. Penso, porém, que é ainda mais doloroso e assustador pensar no número de abortos que se vão passar a fazer se o sim ganhar. Tanto legais como os ilegais que não desaparecerão. Em Espanha o número triplicou! E pergunto a todos aqueles que dizem comigo que o aborto é um mal, como vão votar numa lei que vai triplicar esse mal? Ou será que o aborto só é mau quando é clandestino? Ou será que o aborto só é sinónimo de morte quando é feito em más condições e na obscuridade? O direito à vida impõem-se imperativamente à liberdade de escolha da mãe. Sem direito à vida, não há direito à escolha. E pergunto mais: defendem o direito à escolha mas só o da mulher! E o do pai? E o do filho? Qual é a justiça por detrás de uma escolha unilateralmente feita, quando há pelo menos mais dois intervenientes que têm uma palavra a dizer e que serão impedidos de o fazer porque a única que se poderá pronunciar é a mulher?

Despenalizar ou não despenalizar. Nesta pergunta que vem a referendo NÃO É a despenalização que está em causa. Primeiro, a pena não desaparece da lei. Se a mãe abortar nem que seja um dia depois do prazo absurdo estabelecido pela lei, será penalizada na mesma. Segundo, está em causa a liberalização. O aborto poderá ser feito por opção da mulher e sem ser necessário mais nenhuma condição. (Não me digam que o Governo já disse que haverá, CLARO, (clarissimo, sim!) cláusulas de restrição ou dissuasão. Porque aí digo-vos que outros políticos também já disseram que se o não ganhar, haverá novas propostas para serem analisadas na Assembleia, mais justas e que estabeleçam um equilíbrio mais justo entre os dois valores em colisão.)Ou seja, o aborto será livre, logo, liberalizado e não despenalizado. Por aqui se percebe que esta não é uma questão meramente jurídica e que como não podemos ver a questão que vai a referendo como uma questão de conflitos de direitos abstractos. Não esqueçamos que atrás de direitos estão sempre princípios, fundamentados em valores. Valores esses que estão assentes na ética. Esta questão tem tudo a ver com a ética.

Votar Não não é querer deixar tudo como está. Toda a gente já acordou para esta problema. Todo o país está desperto e, finalmente, percebe o que se passa tão perto mas tão longe. Esse é um argumento vazio. O não diz que não quer que o aborto seja livre até às dez semanas. O não diz que quer que a mulher tenha oportunidades para ter filhos e que o aborto não seja uma delas. O não concorda com a mudança de lei mas que esta seja uma mudança positiva e optimista! Que seja uma lei justa. A lei que temos agora não funciona e não é justa para as mulheres que continuam a abortar. Mas a lei que, se o sim ganhar, for aprovada não será justa nem para o filho, que morrerá, nem para a mãe, que vai pensar que assim resolve os seus problemas mas que em breve se aperceberá que vai ficar submersa em remorsos e sentimentosde culpa. O país sabe desta chaga social. Os políticos já a conhecem bem. Se o não ganhar a lei será mudada na mesma mas sem injustiças de parte a parte.

Entristece-me pensar que tanta gente veja no aborto a única saída para o desespero de uma mulher que engravidou sem planear nada. As Associações Pró-Vida ajudaram 100.000 mulheres, desde o último referendo. Estes são dados verídicos. Imaginem a quantas mulheres e bebés nnós poderiamos chegar com mais ajudas. Ajudas tanto do Estado como de todas as pessoas que ficaram alertadas para esta questão e que queiram participar. E acho que esta ideia não é idílica. Se tantas associações se formaram independentemente depois do último referendo, quantas mais não se poderiam formar agora! Entristece-me aperceber-me que a sociedade é cada vez mais uma sociedade negativista e que nós, portugueses, que nos aguentámos firmes na decisão de não permitir a pena de morte e o mostrámos orgulhosamente ao mundo, apresentamos o argumento "mas na Europa já quase todos fazem" como muito lógico. Sem sequer percebermos, aliás, que na Europa se começa a caminhar,agora, no caminho inverso e que, arrependidos, há países onde se paga aos casais uma pensão para promover a natalidade. Entristece-me que se uma mulher se vir pressionada a abortar pelo marido, pelo pai dela, pelas más condições económicas em que vive, a resposta mais fácil que ela encontrará será o aborto, oferecido pela sociedade. Fácil, não no sentido de ser tomada em ânimo leve mas fácil como mais rápida e ilusoriamente menos onerosa. Entristece-me pensar que esta lei acaba por ser reflexo de um desespero da sociedade. Que se agarra a este referendo como a única hipótese que tem para não manchar mais a "dignidade das mulheres" (Ainda alguém me tem de explicar como é que o aborto livre confere dignidade às mulheres e, principalmente, saúde.) sem sequer pensar que há mais opções. Reais. Concretizáveis. Bastas querermos.

Basta, a meu ver, votarmos Não. Por amor.