quarta-feira, novembro 29, 2006

E depois da minha morte

Um dia,
Quando eu morrer,
Alguém dirá que morri.
E verá nascer o sol
Como sempre até aí.

Flores
Cairão sobre a campa;
Meus amigos, dores a rodos!
Estarei nesse caixão
Na memória de todos!

Morte,
Que pretendes afinal?
Se o luto assim causado
Cai invariavelmente
Em transitório passado!

O Tempo
Estancará qualquer perda
E das lágrimas o sal
Terá caído. O Amor
Voltará ao animal...

Jamais
Se erguerá voz poética
Sobre a trivialidade
Dos dias. A voz comum
É a que chora a saudade…

Um dia,
Quando eu morrer,
Cessará a solidão
E tudo o que existi
Deixará de ser em vão.

E sempre,
Numa praia qualquer,
Beijará o mar a areia
Para assim eternamente
Ser o mundo plateia.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Tapete voador

O autocarro ia cheio e ele ficou colado ao vidro da frente. Lá fora chuviscava um fim-de-tarde de Inverno com cheiro a castanhas. Cá dentro cheirava a cansaço de fim de dia, uma espécie de suor abafado de rotina cumprida, e não se ouvia absolutamente nada. Agarrado à barra das senhas, juntinho ao vidro, olhava de frente a estrada que se abria para ele. E então abstraiu-se de tudo: do autocarro, das pessoas, do tempo, da cidade e do caminho que tão bem conhecia. Só existia ele e, um pouco mais difuso, o condutor do autocarro, que o observava pelo canto do olho numa sintonia cúmplice de quem já fez algo parecido. Ou pelo menos assim imaginava ele, sentindo nessa cumplicidade um estímulo para não quebrar a saborosa viagem. Colado ao vidro da frente e olhando de frente a estrada, ele flutuava num tapete mágico, deixando-se balançar gostosamente ao ritmo desse voo…
O seu sorriso desvaneceu-se apenas quando percebeu que o autocarro estava então quase vazio e já não era preciso ir colado à janela, esmagado entre anónimas formigas ansiosas por regressar ao formigueiro. Sem vergonha e com prazer, flutuou até um dos lugares livres e ficou lá a olhar a janela. Talvez tenham pensado que se sentou mais uma formiga cansada. Ele, porém, ainda estava lá à frente, e a voar olhando o mundo nos olhos, livre, inteiro, dançando sempre ao doce balançar desse tapete mágico…

segunda-feira, novembro 20, 2006

Há dias em que me sinto um bicho-de-conta... mas assim mais para o fechadinho... enrolado e fechado.
Enrolada e
fechada.

segunda-feira, novembro 06, 2006

La place des grands hommes

Eles,
Dez anos depois,
No mesmo local sagrado
Dos dias da juventude,
No mesmo silêncio quebrado,
Colam retalhos da amizade.

(Que fizeram do tempo que passou?)

Eles,
Dez anos depois,
No mesmo grupo ousado
Que descobriu a plenitude,
Mas sem o modo apaixonado
De viver a liberdade.

(Que fizeram do tempo que secou?)

Eles,
Dez anos depois,
E um magnífico modo afectado
De medir sucessos das vidas.

Eles,
Dez anos depois,
Couraçados no rumo traçado
E amargos de esperanças tidas.

(Que fazer do tempo em que se não viveu?)

Dez anos depois,
Eles,
Ele e Ela,
Sem eles,
Selando sem dor,
A mortalha do amor.

terça-feira, outubro 24, 2006

O lado bonito das pessoas

O pessoal do teatro faz coisas muito esquisitas. Há quem diga que são todos uns freaks e que cheiram mal e que se enrolam nas próprias mortalhas, perdendo-se na vida. Não sei se encaixo nalguma parte deste perfil estereotipado – provavelmente cheiro mal.
Independentemente do estereótipo, sou uma apaixonada pelo teatro. E uma das (muitas) coisas boas do teatro universitário é que é um lugar fantástico para encontrar pessoas muito diferentes. Não só encontrar, mas sim, e sobretudo, conhecê-las com uma profundidade que é difícil na vida frenética do dia-a-dia.
Tenho muitas vezes a sensação que visto de fora isto do teatro é muito esquisito, como esquisitas parecem as coisas que fazemos. Há, por exemplo, um exercício de contacto muito simples; básico, na verdade, para explorar aspectos relacionados com a interacção dos actores, com a cena e contracena: duas pessoas sentam-se uma à frente da outra e olham-se nos olhos. Numa primeira fase, concentram-se apenas em encontrar aspectos desagradáveis na cara da pessoa em frente. Numa segunda fase, ambas as pessoas se concentram unicamente em descobrir aspectos agradáveis na outra.
Aparentemente palerma, este exercício conseguiu pôr-me a pensar em coisas bem para lá da cena e contracena. Porque o teatro só me interessa porque me interessa a vida e porque me interessam as pessoas. E não faz sentido sem isso.
Participando neste exercício, foi muito interessante perceber de que maneira a predisposição com que olhamos para o outro altera realmente (até certo ponto, é certo) aquilo que sentimos por ele: se realçarmos os aspectos desagradáveis ou inestéticos, sentimos uma certa repulsa, uma irritação, um desejo de distância. Por outro lado, se repararmos nos aspectos agradáveis, sentimos uma espécie de pequena euforia, uma sensação de bem-estar e de afecto pelo outro.
Visto de fora, foi verdadeiramente engraçado ver as caras das pessoas nas duas fases do exercício. Na primeira, os rostos estavam fechados em si, sérios e enrugados, agressivos. Na segunda fase, as caras estavam sorridentes (as pessoas começaram mesmo a sorrir! Com os olhos, com a boca, com o nariz!), descontraídas, abertas.

Mais tarde, de mansinho e quase sem me aperceber, transpus isto para o meu dia-a-dia. E fui-me apercebendo por que é que há dias em que é fácil e agradável a interacção com os outros, e dias em que é difícil e dolorosa, para nós e para eles.
Se olharmos para os outros focando-nos no que eles têm de agradável, não só sentimos imediatamente mais prazer em conviver com eles, como toda a nossa expressão muda, tornando-se também ela mais agradável e receptiva aos outros. Pelo contrário, naqueles dias de impossível mau humor, em que só vemos aquele lábio irritante e aquele nariz horrível, sentimos repulsa pelo outro, pelo que os nossos sinais vão ser negativos, estaremos mais fechados, mais agressivos, mais enrugados e sérios.
Obviamente, há toda uma imensidão de coisas, para além destas, que influenciam as nossas relações com o outro, e essas não as alcanço através de um mero exercício despretensioso como este. Mas não desvalorizo o que aprendi com ele. E, por isso, quando sinto que estou com menos paciência para as pessoas (ou seja, que estou mais centrada nas minhas umbiguices do que atenta às umbiguices dos outros), procuro fazer um esforço por olhar para os traços agradáveis daqueles com quem convivo. Tento observá-los pelo canto do olho (porque na nossa sociedade é difícil olhá-las durante muito tempo e com a atenção devida) e captar o que de belo existe neles. Foco com foco sincero aquele sorriso que me cativa e assim vou buscando um qualquer lado bonito das pessoas – até o feio.

segunda-feira, outubro 23, 2006

desdobrando um trocadilho :)

Gostava de me desdobrar.
Abrir o meu leque.
Desdobrar as dobras
bem dobradinhas
apertadas umas
contra as
outras.
Desdobrar as dobras
e mostrar o desenho
dobradinho,
enlequezado,
com o colorido preservado pela falta de
sol.
Gostava de me desdobrar.
Abanar freneticamente
caras
ainda que não suadas.
Especialmente as
não suadas.
Como gostava, aliás,
de me desdobrar
de as abanar
de as fazer suar
ainda que pela primeira vez
e por uma só vez.
Talvez mais duas para dar três.
Gostava de me desdobrar.
De tocar muitas brisas
com
as minhas muitas dobras.
De absover muitas fragrâncias
no tecido enlequezado
virgenzinho
e preservado.
Gostava de me desdobrar
e continuo dobradinha
do-bra-da nas minhas dobras
bra-da(n)-do nas minhas dobras
a vontade de sair
da-do-bra de mim.
que desvario desvairado : )

segunda-feira, outubro 16, 2006

A deambulação dos pensamentos

Hoje os meus pensamentos saíram à rua
Abraçados uns nos outros num emaranhado confuso.
Desceram a avenida do meu sentir
Como quem desce uma montanha: assustados.
Sem trela, sem rota e sem mim,
Foram andando à chuva
Até que regressaram ao meu corpo
Completamente encharcados,
Pequeninos, entrelaçados
E perdidos.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Espelhos e mocassins

Sempre me entristeceu a incapacidade da maioria das pessoas de se colocar na pele de outras. Há um provérbio nativo-americano que expressa bem a importância de imaginar que se é o outro: nunca conseguirás compreender uma pessoa a não ser que dês uns passos nos seus mocassins.

Gosto deste provérbio, gosto desta maneira de pensar. Sinto que é uma forma nobre de tentar conhecer o que habita a pessoa que queremos conhecer, se não a única maneira. Só tentando recriar o seu espaço interior com aquilo que vamos descobrindo acerca dela e através da nossa intuição, conseguimos pressupor o que a faz ser como é e ter as características que tem. Em suma, só calçando os seus sapatos e imaginando o seu interior conseguimos compreender os seus comportamentos, perceber as suas motivações, vê-la como um (quase) todo – ainda que não partilhemos nenhuma das suas ideias, ainda que não tenhamos nada em comum.

Talvez por isto, cansam-me as pessoas que não conseguem pôr-se no lugar de outras. E cansam-me as pessoas que, de tão cheias de si e dos seus umbigos, são incapazes de sequer se aperceber que em frente delas está alguém, com os seus mocassins, com as suas histórias, com as suas conquistas, com as suas frustrações, com as suas pedras e com todas as coisas que compõem uma pessoa. Irritam-me as pessoas que não vêem mais ninguém para além delas próprias, que olham para as outras como se olhassem para um espelho, que se enchem de orgulho de si e vivem atoladas no seu umbigo.

E tenho um medo de morte de um dia olhar para mim e descobrir que sou assim.

terça-feira, outubro 03, 2006

E a tradição repete-se...

Capas aos ombros, pastas na mão, grandes manchas negras de estudantes praxam caloiros. As mesmas canções, as mesmas brincadeiras, os mesmo gritos, as mesmas maneiras de "acolher" os estudantes que entram agora na Universidade. A alta da cidade enche-se de sons e movimentos, de cerveja, traçadinho e muitas bocas sequiosas são pela primeira vez apresentadas à arte de bem beber. E rastejar.

Os morcegos mais fanáticos já têm os seus caloiros e quem sou eu para julgar as suas escolhas? Gostava de conseguir olhar para a praxe com magnífica simplicidade, mas não consigo. É-me impossível olhá-la de um só lado… Vejo um misto de várias coisas: relaçõezinhas de poder e de afirmação do eu num grupo (ainda que o grupo seja gigantesco e gigantescamente hierárquico); espécie de ritual de entrada em que é quase inevitável desaguar; conservação da tradição (a todo o custo?...); iniciação genuína ao espírito boémio da vida académica da cidade; alguma interacção entre os caloiros… e depois vejo sempre um lado divertido e um lado abusivo (e por isso polémico), que depende sobretudo de que lado se está: divertido se se está do lado dos doutores, abusivo se se está do lado dos caloiros. E mesmo assim ainda depende.

A sensação de que já não nos podem tocar é estranha. Porque é um não poder ao mesmo tempo desinteressado e distante (não querer?). Quase como se a praxe fosse uma espécie de uma redoma em que os caloiros caem, uma redoma com muitos espinhos, é certo, mas que deixa de existir assim que os caloiros deixam de ser caloiros. Como se os doutos doutores fossem plenamente independentes e auto-suficientes (e não são, ninguém é…). E como se deixassem de ser motivo de interesse por parte dos estudantes mais velhos assim que ganham autoridade para praxar.

Não estou a condenar a praxe. Também não a exalto. Mas às vezes dou por mim a imaginar o que teria sido e seria agora diferente se tivesse ido para um ensino superior sem praxe. Seria melhor? Seria pior? É absurdo perguntar isto, mas a verdade é que continuo a ter a visão turva em relação à praxe. Não acho que seja “maçã com bicho”, como reza a canção de Sérgio Godinho, mas também não lhe acho assim tanta graça (é que “há quem ache [muita] graça à praxe”).

O mais interessante é que, (e posso estar completamente enganada, mas é um risco que todos corremos a toda a hora), não me seria estranho se houvesse maneira de concluir que grande parte dos estudantes que passam pela Universidade de Coimbra são relativamente indiferentes à praxe: isto é, entre a minoria de fanáticos e a minoria de antis, há uma grande gama de pessoas que se sujeitam a ela, que a fazem, que a vivem mais ou menos intensamente, mas com um sentimento geral de relativa displicência. E é assim que a tradição continua, e é assim que a tradição se repete… pelas nossas mãos.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Impressão

Às vezes tenho a sensação de que me rodeio de pessoas, de que me envolvo em mil projectos, de que corro sempre de uma lado para o outro porque se parar esbarro de frente com a minha solidão.

Um palco só (ou dezasseis anos)

O nosso palco tem soalho de madeira que range constantemente pelos passos das pessoas que lá passam. Às vezes nem parece ser o nosso palco, porque olhamos e olhamos e olhamos em volta e só vemos caras de pessoas que já se cruzaram connosco em algum ponto da nossa curta vida. Está sempre cheio de gente, gente diferente que nos vai preenchendo recantos diferentes do que preenche uma pessoa. Imagino que estejamos lá no meio, mas a multidão que nos rodeia não deixa que a plateia nos veja na nossa individualidade.

Deslocamo-nos regularmente até aos limites do nosso palco, batendo com a cabeça no limiar da porta de entrada de cada vez que nos aventuramos de mais. A peça que representamos não tem ensaios, mas também não tem guião nem sentido nem rumo nem norte. Não há personagens definidas e a personagem principal ficou nos bastidores a chorar o medo das luzes da ribalta. Andamos às voltas pelo palco, andando, correndo, saltando, sempre com pessoas, sempre com caras, tantas quantas forem precisas para não nos lembrarmos de nós. Já esquecemos o barulho do silêncio porque o nosso palco nunca está vazio e o soalho nunca pára de ranger. Não sabemos o que é estar parado porque nunca nos damos espaço para estar sem as pessoas. Acho que temos medo de que não gostem de nós ou de que não sejamos importantes.

Não sei ao certo se a cortina está fechada se aberta. Talvez esteja aparentemente aberta e talvez as pessoas circulem pelo nosso palco livremente, ou talvez na verdade esteja tão fechada que não é no meio do palco que elas andam mas sim à boca de cena.

Olhamos e olhamos e olhamos e não nos vemos. Estaremos mesmo cá? Faremos parte do nosso próprio palco? Ou seremos como o actor principal com medo da ribalta?

Não sabemos. Às vezes é tudo muito confuso, como se as nossas cabeças ficassem cheias de um barulho mental impossível de aturar. Outras vezes até nos sentimos bem, como se estivéssemos no topo de uma montanha e tudo nos fosse possível.

Temos uma necessidade incontrolável de conversar. É por isso que gostamos de ter longas conversas com os amigos. É uma maneira de nos libertarmos de algumas angústias e também de esquecermos por momentos o barulho do nosso pensamento.

Mas no fundo estamos só a conhecer o nosso palco, este palco que pisamos, e a aproveitar a vida enquanto não crescemos e ficamos sérios de mais. Vivemos o momento e às vezes pensamos no futuro. Mas não muito, porque somos jovens e porque temos toda a vida à nossa frente.

sábado, setembro 16, 2006

carta

Recebi-a e sentei-me. As minhas pernas falharam-me naquele momento em que devia ter ficado firme e fingir-me segura. Mas estava só. Não me ralei. Fechei os olhos e mantive-os assim, bem fechados, com força, ao ponto de as pestanas de cima e as de baixo se colarem, misturarem e confundirem. Sentia o papel liso, escorregadio, lustrado, macio, nas mãos. Tinha uma vontade louca de abrir o envelope, uma curiosidade que me esmagava e me abandonava algures entre o querer saber e o preferir almofadar-me na ignorância. Percorri com os dedos a fina incógnita... sim, era fina. O envelope não era gordo nem recheado. De certo modo, até era como ele. Ele também não era gordo nem recheado. Era fino, oco por dentro, sem nada que o enchesse, sem nada que lhe pesasse, que o fizesse pesar. Passava despercebido. Só me apaixonei por ele porque o destino mo apresentou e pediu que o abrisse... Nunca o fiz. Casámo-nos mas nunca o abri, talvez com medo de descobrir o vazio que o enchia. Assim como este envelope. Também me passaria despercebido se a D.Lucinda não mo tivesse trazido com um brilho especial na cara e um estranho desenho de olhos. O que me chamou à atenção foi aquele canto do envelope. Aquele cantinho superior direito dobrado. Era uma mania dele! Muito embirrei eu com aqueles cantinhos dobrados que encontrava nos livros, nos jornais, nas revistas, nos panfletos. "Para marcar o que me marca!" repetia ele em resposta, primeiro com palavras, depois só com os olhos e, por fim, com o desprezo. Eu nunca me cansei de lho repetir. Primeiro docemente, depois agressivamente, depois saturadamente e, por fim, cansada. No escuro desenham-se as memórias mais facilmente. Abri os olhos. Era a letra dele. Inclinada para a direita, quase deitada sobre o papel, como se alguém a tivesse soprado ou ela estivesse apenas já cansada, a letra desenhava o meu nome, a noss..minha morada, o nome dele, sem morada. O selo estava torto. Sem dar por isso, abri o envelope. Tirei a carta mas não a abri. Saboreei os últimos momentos que viveria na ansiedade de não saber onde o encontrar, dos anos que passei na angústia amarga do abandono, dos anos que passei sem me conseguir libertar da nossa rotina, dos anos que passei a tentar convencer-me de que voltarias. Finalmente, teria uma resposta. Desdobrei o papel e ela caiu para o chão e rolou, fina, dourada, reflectindo os finos raios de sol que se atreveram a tocar-lhe, desenrolando e abandonando no chão as memórias que carregava, bateu no tapete e parou em quina, para eu a ver bem. O papel estava em branco... o canto superior direito estava dobrado. Não consegui evitar que uma lágrima fina como a aliança que agora me devolvias rolasse também pela minha pele. Pela primeira vez em 11 anos, chorei.

sábado, setembro 09, 2006

Porta entreaberta para o tempo

Da porta entreaberta da cozinha vejo a cena toda: sentado à mesa, com a careca reluzente a olhar para cima e um babete enorme preso ao peito qual medalha de honra, o meu velhote rói com os quatro dentes o pedaço de batata preso ao garfo. A velhota ciranda pela cozinha, tão freneticamente quanto lho permite a idade, agarrada à travessa já vazia do peixe. O talher chocalha ruidosamente na travessa e o meu avô mastiga caturrices à minha avó. Ela responde. À letra. Ele retorque. Ela barafusta e entram os dois numa desgarrada de casmurrices! Quase parece uma sinfonia estridente de palermices que a razão da idade já desconhece!

De pé estão os meus pais, calados, num silêncio cúmplice e matreiro. Os velhotes continuam o diálogo sem suspeitar da troca de olhares do casal. E eu vejo essa troca e também calo um riso matreiro, porque também do meu posto há um distanciamento que me deixa ter um laivo de ironia.

E quando for eu a calar um sorriso cúmplice aos diálogos caturras dos meus pais? E quando um filho meu registar a cena toda da porta entreaberta da cozinha?...

quarta-feira, setembro 06, 2006

Histórias que fascinam.

Há histórias de Santos que nos fazem pensar. Algumas deixam-nos a pensar se alguma vez alguém pôde realmente ter sido tão bom, tão completo, tão generoso, que se tenha tornado santo, ou seja, um exemplo de fé e de vida para todos os que acreditam em Deus e mesmo para os descrentes. Duvidamos até se não haverá naquela história pequenos pontos que foram sendo acrescentados por aqueles que a contaram. Mas nada disso interessa. Provar se é ou não verdade, perder tempo a encontrar vestígios que comprovem a realidade e veracidade dessa história, não é o importante. Importa sim aprendermos e retirarmos alguma coisa da forma como alguém aproveitou a vida e a gastou não consigo mas com e para os outros.

Este Verão aprendi uma dessas histórias. Aprendi um história que fez História. O Santo que conheci chama-se S.Francisco Xavier. Este ano celebram-se 500 anos passados desde a data do seu nascimento. S. Francisco fascinou-me. Era um jovem espanhol rico que residia num castelo em Xavier. Era inteligente, astuto, bonito, ambicioso, um óptimo atleta e com jeito para as miúdas. Quando chegou a altura, foi estudar para Paris na Universidade de Sorbonne. Levava a típica vida de estudante... divertia-se com os amigos, bebia uns copos, praticava desporto, namoriscava, estudava. Partilhava o quarto com um amigo de longa data - Pedro Fabro. Certo dia, passa a partilhá-lo também com um estranho homem chamado Inácio, que se vestia de forma andrajosa, parecia bem mais velho do que realmente era, ... e era um grandessíssimo beato. Estava sempre a falar de Deus a Francisco e repetia-lhe vezes sem fim a frase : "De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro se depois vier a perder a sua alma". A principio, esta frase não era para Francisco mais do que sinónimo de gastar latim mas começou a ganhar sentido quando os dois começaram a conversar. Através de Inácio, Francisco conheceu Deus, conheceu o essencial, conheceu o caminho que devia percorrer, caminho este que não passava nem pela carreira de Mestre de Artes, nem pela glória de ser um grande atleta, nem pela vaidade de ser bonito mas por se agarrar ao essencial e esquecer o "mundo inteiro", esquecer aquilo que dantes o decorava mas não o enchia. Passava por se juntar a mais uns amigos que partilhavam o mesmo projecto de vida e com eles formar a Companhia de Jesus, seguindo o Seu exemplo. Assim surgiram os primeiros jesuítas. Francisco acabou por aceitar a missão proposta pelo Papa, partindo para a Índia em evangelização. E assim passou o resto da sua vida. Em lugares desconhecidos, com culturas e pessoas de diferentes hábitos e tradições, tocando onde quer que fosse com a palavra de Deus. Dizia, numa das suas cartas, que por vezes, de tanto baptizar lhe doíam os braços ao ponto de nem os conseguir levantar. Ao peito, trazia escrito num papel o nome dos Companheiros e consigo viajava sempre a cruz oferecida por Inácio, diante a qual muitos se converteram. Acabou por levar Deus até ao Japão, onde percebeu que para conseguir cumprir a sua missão teria de ir até à China. Foi precisamente às portas desse império, deitado numa esteira na areia de uma ilha a poucos quilómetros do solo chinês, esperando pelo barqueiro que tardava a vir, amparado num seu amigo e agarrando a cruz de Inácio, que S. Francisco Xavier morreu de exaustão.

Foi com esta sua história que S. Francisco que fascinou.

O resto fica para outro post que este já está grande demais =).

terça-feira, agosto 22, 2006

Carta ao inventor do MOCAMFE

Enquanto andava entaramelada nesta deprimente ressaca de fim de campo, em que o cansaço total, a saudade amarga e doce, a estranheza do regresso à civilização e a invasão constante de lembranças mal nos deixam respirar o ar meio esquecido do mundo que existe cá fora, apeteceu-me escrever. E apeteceu-me escrever a alguém que sempre me surgiu meio misterioso, sob vários ângulos e versões, como sempre acontece quando são vários os contadores de histórias. O Hélder já quase não existe na minha memória se não como pedacinhos de pedacinhos de acontecimentos. Lembro-me de me irritar profundamente a maneira como ele me afagava a cabeça e ria, ria que nem um perdido. Na minha fragilidade de criança e de pessoa, irritava-me que um adulto tão criança risse de mim assim.

Agora que escrevo esta carta com voz embargada de saudade e emoção hesito em como hei-de dirigir-me ao destinatário. Talvez seja mais sensato usar a terceira pessoa, fugir ao tu demasiado directo e ao você demasiado impessoal. Quero deixar o Hélder guardado em fragmentos, tal como ele existe em mim agora, sem o tornar demasiado corpóreo numa qualquer carta sem sentido.

Descobri este ano que tenho quase todos os aspectos da minha pessoa a agradecer ao MOCAMFE e, indirectamente, ao Hélder. Descobri este ano que, enquanto houver MOCAMFE, todas as pessoas que fazem parte desta alquimia terão sempre imenso que agradecer ao Hélder. Não há nenhuma outra coisa no mundo que substitua o indizível que é o MOCAMFE, não há nenhum outro lugar onde olhar para as estrelas seja tão mágico, onde dormir em tendas, ao pó, aos bichos e ao frio seja tão reconfortante, onde sentar no chão, em rodinha, e comer em pratos gordurosos seja tão saboroso, onde cantar à desgarrada até ficar sem voz tão saudável para a alma, onde libertar o corpo de tensões e preconceitos seja tão magnífico e onde verdadeiramente encontrar o outro tão libertador. Não há nenhum outro sítio onde a maior parte da comunicação seja a não verbal, onde coabitar um mundo paralelo seja tão natural, onde partilhar intimidades tão óbvio e divertido. Como se explica a piada que tem dizer-se que “a Fada do Cocó vem a caminho, dá cá a chave do Centro Recreativo”?! Não há nenhum outro lugar onde o humor seja ao mesmo tempo tão fácil e tão refinado como neste universo que se cria. Porque as palavras flúem entre nós de uma maneira orgânica, sem grande esforço criativo. E não há como explicar o estranho modo como se desvanecem e ao mesmo tempo perduram…

Desconheço o momento exacto em que nasceu o MOCAMFE, mas creio que isso não é importante. Todas as coisas importantes na vida nascem assim, sem se saber bem com que mistura de ingredientes, sem se perceber ao certo como: quando damos por elas, já elas são um rebentozinho e já nos orgulhamos de as ter inventado. É assim com as pessoas, é assim com os projectos que se tornam realidade.

Fui pinóquia, turrinha, caturrinha, turra e caturra; corri a escala, só falhei um campo e fiz outro que gostaria de ter falhado, mas cheguei ao fim da linha e não fazia sentido parar. Não sabia bem qual a minha relação com o MOCAMFE, questionei-lhe quase todos os pontos, à medida que ia questionando os meus pontos e tacteando caminhos de que nunca estamos certos. Animar foi para mim uma grande descoberta, como andar a escavar durante muito tempo em terra dura para no fim encontrar um tesouro maravilhoso. Mas só este ano me senti verdadeiramente bem num campo, só este ano senti verdadeiramente toda a plenitude e imensidão que se encontra nesses dias em que tudo o mais se desvanece e não existe outra verdade se não aquela. Apaixonei-me verdadeiramente pelos locais, sagrados à luz quebrada do pôr-do-sol, magníficos ao som dos gritinhos dos pinóquios e lindíssimos ao silêncio do seu sono; apaixonei-me pelas pessoas, tão diferentes, com os seus modos próprios, com os seus medos, com as suas ideias, vivências e até defeitos; apaixonei-me pelos miúdos, tão lindos, com a sua pureza, com a sua necessidade de afecto tão simples e genuína, com a sua capacidade de entrega absoluta… Apaixonei-me por todas as coisas corpóreas e não corpóreas que são afinal a essência do MOCAMFE. E no fim ficou aquele sentimento inefável e paradoxal de riqueza e vazio, de alegria e tristeza, de plenitude e de incompletude… ao mesmo tempo…

O que sinto cada vez mais no MOCAMFE é que cada campo é uma relíquia, sem igual e sem definição. É claro que há os rituais comuns, mas tudo o mais é diferente de ano para ano, de pessoa para pessoa, de lugar para lugar… e é nesse interstício entre o que é igual e o que é diferente que reside a magia do MOCAMFE: poder dar continuidade a algo tão maravilhoso e poder fazê-lo com margem para pequenas mudanças… é verdadeiramente magnífico, verdadeiramente libertador.

Quando era participante, a magia era partir de mochila às costas, cheia de medos, inseguranças e com uma vontade enorme de me descobrir e aventurar. O deslumbramento era partir pequena e voltar imensa, com uma mochila a abarrotar de ideias e de pessoas, como se naqueles dez dias tivesse crescido mais do que no ano inteiro. O encanto era chegar dona do mundo e partir no ano seguinte com a certeza de que havia mais meio a conquistar. Quando era participante, os campos eram divertidos, os animadores eram porreiros, quebrar as regras era fabuloso. Até as bolachas tinham outro sabor se fossem roubadas da cozinha!

Mas a verdade é que passar para o outro lado é ainda melhor. Animar é… quase como participar duas vezes. É quase como viver dois campos, fazer parte de dois mundos. E nesse sentido é incrivelmente mais recompensador do que ser participante. Dormir poucas (muito poucas!) horas por noite (e beber café, muito!), ficar até às cinco da madrugada a fazer um horário maluco, dar banho aos miúdos e fotografar as caras de sofrimento, preparar um jogo que resulta num fiasco, perder a paciência com a equipa e desejar matá-los a todos (e depois dar-lhes muitos miminhos ao serão para afastar o sentimento de culpa!!!), levar as pinóquias à latrina vip e ter de demonstrar como funciona, ser acordada a meio da noite para limpar o vomitado de uma tenda, estar tão cansada que se deixa dormir mais uma hora na manhã seguinte, inventar no momento um sketch completamente idiota e fazê-lo com a maior lata do mundo, estar tão esgotada que se lhe dá o quebec!, ir para a rodinha e ter pinóquios a pedir “senta-te aqui, senta-te aqui!!!”, pegar numa viola que mal se sabe tocar porque não há mais animadores na rodinha e pôr os miúdos a berrar o Anzol, consolar as lágrimas sempre prontas dos pinóquios, inventar soluções instantâneas para quando a saudade aperta (como um pacote de lenços mágico que cura as saudades de casa), ir buscar energia a um qualquer recanto da alma para conseguir aguentar mais uma tarde esgotante com os pinóquios sempre saltitantes, não adormecer nas reuniões (ou até adormecer…) com uma rodada de Favaios e cervejas a pensar no dia seguinte e as belas das bolachas a passar de mão em mão, o cafuné fantástico e o puzzle de corpos em busca de calor humano, as conversas partilhadas pela noite fora, paralelas, ou mesmo na tenda antes de adormecer, ir dando bocadinhos de nós aos outros e recolhendo tanto, tanto do que eles nos dão… Revelar as inseguranças, que sempre cá ficam como memória de ser participante (como facto óbvio de se ser sempre participante da vida) e descobrir que se é tão igual aos outros nestes medos que nos tolhem, nestes receios que nos atam ao chão… e também nos sonhos e nos desejos, nas necessidades, nos projectos, nos anseios… E todas as coisas fazem sentido como se se vivesse em linha recta.

E depois tudo acaba de repente e o choque de voltar ao mundo é tremendo. Fica-se uns dias nesse limbo de recordações e vai-se voltando lentamente à realidade. Pouco a pouco, desvanece-se aquela estranheza que faz cócegas na barriga, voltamos a sentir as pernas, os braços, todo o corpo e a alma parece estar mais densa. Vemos e revemos fotografias até sabermos cada uma de cor; trocamos mensagens, traçamos projectos, marcamos encontros, expressamos afectos. Relembramos sketchs, aplausos, stresses, pessoas… E deixamos ressoar em nós os ecos de tudo aquilo que vivemos.

É por tudo isto, Hélder, por todas estas coisas maravilhosas que, agora sim, te agradeço. Escolho, enfim, o tu, porque foste tu que nos deste tudo isto - e tudo isto nos habita o íntimo. O mais engraçado é que só agora sinto que consigo compreender-te. E apercebo-me cada vez mais de que afinal é possível perpetuar o nosso cantinho de criança: basta entregar-nos desta maneira tão sublime a algo tão humano quanto transcendente. Por que é transcendente? Muito simplesmente porque nos ultrapassa, porque nos preenche, porque nos liga de uma maneira que não tem nome. Não sei ao certo o que é…. Há tanto de insondável em tudo o que se vive! Obrigada, Hélder, obrigada por teres inventado isto que é o MOCAMFE.

Evoco por fim as palavras de um pinóquio sob um lindo céu estrelado. O boa-noite cantou-se num recanto descampado, a olhar para cima, para as estrelas, e o pinóquio que cantou ao meu lado parecia um anjo. Encostou a sua cabecinha a mim e disse-me: "Sabes, o Hélder está naquela estrela grande, está ali”. E o dedinho apontava para o céu.

Que fiques, então, Hélder, nessa estrela brilhante, por muito tempo, e a olhar para nós, a olhar por nós – eu não ouso perturbar-te.

Rita Madeira
17 Agosto 2006