terça-feira, agosto 22, 2006

Carta ao inventor do MOCAMFE

Enquanto andava entaramelada nesta deprimente ressaca de fim de campo, em que o cansaço total, a saudade amarga e doce, a estranheza do regresso à civilização e a invasão constante de lembranças mal nos deixam respirar o ar meio esquecido do mundo que existe cá fora, apeteceu-me escrever. E apeteceu-me escrever a alguém que sempre me surgiu meio misterioso, sob vários ângulos e versões, como sempre acontece quando são vários os contadores de histórias. O Hélder já quase não existe na minha memória se não como pedacinhos de pedacinhos de acontecimentos. Lembro-me de me irritar profundamente a maneira como ele me afagava a cabeça e ria, ria que nem um perdido. Na minha fragilidade de criança e de pessoa, irritava-me que um adulto tão criança risse de mim assim.

Agora que escrevo esta carta com voz embargada de saudade e emoção hesito em como hei-de dirigir-me ao destinatário. Talvez seja mais sensato usar a terceira pessoa, fugir ao tu demasiado directo e ao você demasiado impessoal. Quero deixar o Hélder guardado em fragmentos, tal como ele existe em mim agora, sem o tornar demasiado corpóreo numa qualquer carta sem sentido.

Descobri este ano que tenho quase todos os aspectos da minha pessoa a agradecer ao MOCAMFE e, indirectamente, ao Hélder. Descobri este ano que, enquanto houver MOCAMFE, todas as pessoas que fazem parte desta alquimia terão sempre imenso que agradecer ao Hélder. Não há nenhuma outra coisa no mundo que substitua o indizível que é o MOCAMFE, não há nenhum outro lugar onde olhar para as estrelas seja tão mágico, onde dormir em tendas, ao pó, aos bichos e ao frio seja tão reconfortante, onde sentar no chão, em rodinha, e comer em pratos gordurosos seja tão saboroso, onde cantar à desgarrada até ficar sem voz tão saudável para a alma, onde libertar o corpo de tensões e preconceitos seja tão magnífico e onde verdadeiramente encontrar o outro tão libertador. Não há nenhum outro sítio onde a maior parte da comunicação seja a não verbal, onde coabitar um mundo paralelo seja tão natural, onde partilhar intimidades tão óbvio e divertido. Como se explica a piada que tem dizer-se que “a Fada do Cocó vem a caminho, dá cá a chave do Centro Recreativo”?! Não há nenhum outro lugar onde o humor seja ao mesmo tempo tão fácil e tão refinado como neste universo que se cria. Porque as palavras flúem entre nós de uma maneira orgânica, sem grande esforço criativo. E não há como explicar o estranho modo como se desvanecem e ao mesmo tempo perduram…

Desconheço o momento exacto em que nasceu o MOCAMFE, mas creio que isso não é importante. Todas as coisas importantes na vida nascem assim, sem se saber bem com que mistura de ingredientes, sem se perceber ao certo como: quando damos por elas, já elas são um rebentozinho e já nos orgulhamos de as ter inventado. É assim com as pessoas, é assim com os projectos que se tornam realidade.

Fui pinóquia, turrinha, caturrinha, turra e caturra; corri a escala, só falhei um campo e fiz outro que gostaria de ter falhado, mas cheguei ao fim da linha e não fazia sentido parar. Não sabia bem qual a minha relação com o MOCAMFE, questionei-lhe quase todos os pontos, à medida que ia questionando os meus pontos e tacteando caminhos de que nunca estamos certos. Animar foi para mim uma grande descoberta, como andar a escavar durante muito tempo em terra dura para no fim encontrar um tesouro maravilhoso. Mas só este ano me senti verdadeiramente bem num campo, só este ano senti verdadeiramente toda a plenitude e imensidão que se encontra nesses dias em que tudo o mais se desvanece e não existe outra verdade se não aquela. Apaixonei-me verdadeiramente pelos locais, sagrados à luz quebrada do pôr-do-sol, magníficos ao som dos gritinhos dos pinóquios e lindíssimos ao silêncio do seu sono; apaixonei-me pelas pessoas, tão diferentes, com os seus modos próprios, com os seus medos, com as suas ideias, vivências e até defeitos; apaixonei-me pelos miúdos, tão lindos, com a sua pureza, com a sua necessidade de afecto tão simples e genuína, com a sua capacidade de entrega absoluta… Apaixonei-me por todas as coisas corpóreas e não corpóreas que são afinal a essência do MOCAMFE. E no fim ficou aquele sentimento inefável e paradoxal de riqueza e vazio, de alegria e tristeza, de plenitude e de incompletude… ao mesmo tempo…

O que sinto cada vez mais no MOCAMFE é que cada campo é uma relíquia, sem igual e sem definição. É claro que há os rituais comuns, mas tudo o mais é diferente de ano para ano, de pessoa para pessoa, de lugar para lugar… e é nesse interstício entre o que é igual e o que é diferente que reside a magia do MOCAMFE: poder dar continuidade a algo tão maravilhoso e poder fazê-lo com margem para pequenas mudanças… é verdadeiramente magnífico, verdadeiramente libertador.

Quando era participante, a magia era partir de mochila às costas, cheia de medos, inseguranças e com uma vontade enorme de me descobrir e aventurar. O deslumbramento era partir pequena e voltar imensa, com uma mochila a abarrotar de ideias e de pessoas, como se naqueles dez dias tivesse crescido mais do que no ano inteiro. O encanto era chegar dona do mundo e partir no ano seguinte com a certeza de que havia mais meio a conquistar. Quando era participante, os campos eram divertidos, os animadores eram porreiros, quebrar as regras era fabuloso. Até as bolachas tinham outro sabor se fossem roubadas da cozinha!

Mas a verdade é que passar para o outro lado é ainda melhor. Animar é… quase como participar duas vezes. É quase como viver dois campos, fazer parte de dois mundos. E nesse sentido é incrivelmente mais recompensador do que ser participante. Dormir poucas (muito poucas!) horas por noite (e beber café, muito!), ficar até às cinco da madrugada a fazer um horário maluco, dar banho aos miúdos e fotografar as caras de sofrimento, preparar um jogo que resulta num fiasco, perder a paciência com a equipa e desejar matá-los a todos (e depois dar-lhes muitos miminhos ao serão para afastar o sentimento de culpa!!!), levar as pinóquias à latrina vip e ter de demonstrar como funciona, ser acordada a meio da noite para limpar o vomitado de uma tenda, estar tão cansada que se deixa dormir mais uma hora na manhã seguinte, inventar no momento um sketch completamente idiota e fazê-lo com a maior lata do mundo, estar tão esgotada que se lhe dá o quebec!, ir para a rodinha e ter pinóquios a pedir “senta-te aqui, senta-te aqui!!!”, pegar numa viola que mal se sabe tocar porque não há mais animadores na rodinha e pôr os miúdos a berrar o Anzol, consolar as lágrimas sempre prontas dos pinóquios, inventar soluções instantâneas para quando a saudade aperta (como um pacote de lenços mágico que cura as saudades de casa), ir buscar energia a um qualquer recanto da alma para conseguir aguentar mais uma tarde esgotante com os pinóquios sempre saltitantes, não adormecer nas reuniões (ou até adormecer…) com uma rodada de Favaios e cervejas a pensar no dia seguinte e as belas das bolachas a passar de mão em mão, o cafuné fantástico e o puzzle de corpos em busca de calor humano, as conversas partilhadas pela noite fora, paralelas, ou mesmo na tenda antes de adormecer, ir dando bocadinhos de nós aos outros e recolhendo tanto, tanto do que eles nos dão… Revelar as inseguranças, que sempre cá ficam como memória de ser participante (como facto óbvio de se ser sempre participante da vida) e descobrir que se é tão igual aos outros nestes medos que nos tolhem, nestes receios que nos atam ao chão… e também nos sonhos e nos desejos, nas necessidades, nos projectos, nos anseios… E todas as coisas fazem sentido como se se vivesse em linha recta.

E depois tudo acaba de repente e o choque de voltar ao mundo é tremendo. Fica-se uns dias nesse limbo de recordações e vai-se voltando lentamente à realidade. Pouco a pouco, desvanece-se aquela estranheza que faz cócegas na barriga, voltamos a sentir as pernas, os braços, todo o corpo e a alma parece estar mais densa. Vemos e revemos fotografias até sabermos cada uma de cor; trocamos mensagens, traçamos projectos, marcamos encontros, expressamos afectos. Relembramos sketchs, aplausos, stresses, pessoas… E deixamos ressoar em nós os ecos de tudo aquilo que vivemos.

É por tudo isto, Hélder, por todas estas coisas maravilhosas que, agora sim, te agradeço. Escolho, enfim, o tu, porque foste tu que nos deste tudo isto - e tudo isto nos habita o íntimo. O mais engraçado é que só agora sinto que consigo compreender-te. E apercebo-me cada vez mais de que afinal é possível perpetuar o nosso cantinho de criança: basta entregar-nos desta maneira tão sublime a algo tão humano quanto transcendente. Por que é transcendente? Muito simplesmente porque nos ultrapassa, porque nos preenche, porque nos liga de uma maneira que não tem nome. Não sei ao certo o que é…. Há tanto de insondável em tudo o que se vive! Obrigada, Hélder, obrigada por teres inventado isto que é o MOCAMFE.

Evoco por fim as palavras de um pinóquio sob um lindo céu estrelado. O boa-noite cantou-se num recanto descampado, a olhar para cima, para as estrelas, e o pinóquio que cantou ao meu lado parecia um anjo. Encostou a sua cabecinha a mim e disse-me: "Sabes, o Hélder está naquela estrela grande, está ali”. E o dedinho apontava para o céu.

Que fiques, então, Hélder, nessa estrela brilhante, por muito tempo, e a olhar para nós, a olhar por nós – eu não ouso perturbar-te.

Rita Madeira
17 Agosto 2006

Pinóquios 2006

"Já fui ao Sabugueiro
Andei o dia inteiro
Estou farto de trepar
Os calos a estalar
Os pés cheios de dor
Raios partam os... PINÓQUIOS!!!"

Foi a música cansativa que os pinóquios mais cantaram, à desgarrada... eles gritavam ANIMADORES!!! no fim do refrão, nós PINÓQUIOS!!!

E assim mato um cantinho das saudades que me apertam...

terça-feira, julho 25, 2006

Saudade do futuro

Quem não encontra conforto no presente procura alento no futuro. Muita gente gosta de se queixar da vida que leva esquecendo-se que muitas vezes está nas suas mãos o poder de mudar o seu próprio rumo. O consolo no futuro é apenas uma forma diferente de evitar o presente. Essa saudade de um futuro que ainda está para vir é um sentimento típico daquele que está infeliz consigo e com o mundo. Por mais que simpatize com essa forma de saudade, chegando mesmo a julgar senti-la, não posso dizer que me orgulhe de por vezes acalentar essa nostalgia. Descubro cada vez mais que a erótica da vida não está no que se pensa dela, no que se escreve, no que se pinta, canta, toca, dança, representa dela, mas sim no que nela se vive. Tudo o mais é apenas uma imitação da arte que é a vida - e esta é a mais sublime.

terça-feira, julho 11, 2006

Explosão... ou implosão.

Por mais que mo digam, isso não me basta! Não! Não acredito porque não o sinto e comprovo apenas o contrário! Sinto que um dos desafios mais fortes da vida, do caminho, da estrada, da ponte, do fio, do castelo, ou do raio de todas as metáforas de que se servem para simplesmente a nomear, são as relações. E há algo bem importante, cosido ao verbo ou nome das relações, derretido e misturado no seu mais profundo significado, que, para além do tempo, lhe dá corpo, vida, alma, espírito, a faz querer mais, mergulhar, ter fome, gritar de apaixonamento... - a presença. É preciso estar PRESENTE numa relação. Não basta alguém saber que "estarei sempre lá" " amo-te muito" "adoro-te" "és as minha maior amiga". Que raio de futilidades e fugacidades de palavras são estas? É preciso estar presente na vida do outro! É preciso MOSTRAR que gostamos de alguém! Quem se esconde por detrás de um "Ele sabe que eu gosto dele" é cobarde e não tem outro nome! É, de facto, mais fácil ficarmos na sombra e no conforto de um "Ela sabe" e não nos lançarmos num "Tenho de lhe mostrar". Não, não digo provar! Digo demonstrar carinho! Esse é o deasafio! Essa é, agora sim, a nossa prova! Ir ter com o outro, dizer um olá meio sumido, às vezes sem paciência, mas que é um olá! Ficar numa mesa de café remexendo o açucar que deitámos na chávena para cobrir um resto resistente de borras de café mesmo sendo o barulho do toque da colher na chávena o único que se ouve entre os dois. A relação precisa de investimento. O tempo, numa relação, é crucial... mas tem de ser preenchido com a presença! Por isto não me venham com "somos muito amigas" vazios e, assim se comprova, falsos. Não dêem mais palavras e forma, dêem gestos e matéria. Não respondam apenas! Perguntem! Queiram saber! Tomem iniciativa! Dêem-se aos outros! Não esperem receber um sinal do outro para saber que têm de dar! Lembrem! Estejam!Marquem presença!

Hoje explodi de novo. Só Deus sabe como estou egoisticamente farta de "mendigar" amigos.

quinta-feira, julho 06, 2006

Quando

Quando o cansaço das coisas pesa como se carregasses o mundo,
Quando os músculos da cara endurecem de tensão,
Quando o lábio treme e as lágrimas se desenrolam em cascata,
Quando a tua voz se cala de solidão,
Quando o teu corpo dói e a tua alma chocalha lá dentro,
Quando as nuvens cinzentas não deixam a janela da tua vida,
Quando perdeste o teu sentido e o teu centro,
Quando procuras o que não sabes incessantemente e sem fé...

Lembra-te que a bússola que te habita
Acabará por desvelar o teu Norte
E que o mapa que os outros são de ti
É o melhor companheiro de viagem.

segunda-feira, julho 03, 2006

Pensamento do dia

Mais uma vez o homem da grande mente, o homem do advérbio de modo. Só ele para me fazer rir agora (quando a cadeira dele só nos faz chorar - e muito!!! Ó desespero, é devastação!).
Elegi este pensamento como "O" pensamento do dia:

A pessoa real é constituída pela dialéctica de um eu singular e de um eu social - respectivamente o "miolo" e a "côdea" da "boroa" que nós somos.

Será que posso usar palavras como "manteiga" e "geleia" no exame?

sábado, julho 01, 2006

Que pena o político ter virado peixe II...

Quis deixar o meu contributo no blog para festejar o ano de vida... mas não me sai absolutamente nada de jeito. Assim, num gesto simbólico, publico o primeiro texto que aqui se postou. Escrevi este poema há um ano... ou será que foi há dois?! Não sei. Mas como acaba por ser intemporal, cá vai. Desculpem as pessoas que já estão fartas dele! :) (até eu já estou farta dele... e deles! :) )

Pensei que o político era homem vincado
mas tirando a mascára ele é escamado!
E embora a escama esteja bem lustrada
a sua espinha está toda minada!

Abre e fecha a boca como que a discursar
mas nada produz... só bolhas de ar.
Promete e não cumpre, senhor político?
A sua memória está em estado crítico!

Atrás do perfume está o fedor
do podre, do pútrido, verdadeiro horror!
São demasiados, infestam o mar;
com medo do fundo, põem-se a boiar!

Seja cherne, dourada, sardinha ou pescada,
o político esquece, escapa, não faz nada!
É o rico peixinho que marca Portugal
e é também ele que o faz cheirar mal!

quinta-feira, junho 29, 2006

Aniversário

Já fizémos um ano!!!!!!!!!!!!! :)

Parabéns a nós! Happy birthday to us! Joyeux anniversaire à nous! Salue dies natalis! Feliz cumpleaños! (Se alguém souber mais línguas...)

Este era o momento para dramaticamente se fazer um balanço deste primeiro ano de (con)vivências virtuais (mas bem reais) e de chorar a lagrimazinha da praxe. Depois, deixando-nos levar pelas emoções, recordariamos o feliz momento em que de repente decidimos "hei, vamos criar um blog!". Adornávamos com umas quantas grinaldas de flores, faziamos soar os violinos e concordávamos as duas em como é bom comunicar e partilhar experiências e vivências. E assim nasceria mais um post bonitinho que todos líamos e arrumávamos numa esquecida gaveta. Sem comentar.

Mas este post não vai ser nada disto! E para ser completamente imprevisível (ou então não...), não vou dizer nada sobre este ano, sobre este blog, sobre os comentários (ou a falta deles, cough cough), ou sobre o que quer que seja... porque, desta vez, a palavra é toda vossa! Quem quiser quebrar o silêncio que impera sobre os nossos posts há mais de mil anos está agora completamente livre para o fazer! Digam o que vos apetece! Digam o que vos vai na alma! Digam o que pensam, o que acham, o que gostam, o que não gostam! Critiquem! Elogiem (mas não muito, eheh)! Digam qualquer coisa! Quebrem-me esse silêncio! Ou então calem-se para sempre!!! (NÃO!) E não me venham com desculpas esfarrapadas de exames, férias ou qualquer outro pretexto! Não é por isso que deixam de comer e dormir, pois não? Pois (con)viver é uma necessidade básica!!!!

E agora vou-me. Sem mais palavras! (Tomem, tomem, tomem!)

PS: Parabéns a nós!!!! Whoo whoo!!! :D

quarta-feira, junho 28, 2006

Divagações à roda

Às vezes estamos demasiado perto das coisas para as avaliarmos bem, tão perto que a nossa perspectiva fica completamente distorcida, ou então não compreendemos sequer as várias peças que se nos apresentam. Às vezes estamos demasiado perto das pessoas para conseguir vê-las na sua totalidade, outras estamos tão longe que apenas vemos a sua imagem distante de perfeição.

Muitas vezes, quando estamos demasiado perto das pessoas ou demasiado afastados delas, focamos certos aspectos: que nos agradam, que nos impressionam, que nos irritam, que nos atraem, que nos incomodam, que nos assustam, que nos afastam... Como se pegássemos numa lente de aumentar e fizéssemos pontaria para determinadas características. Ofuscamos tudo o resto e concentramo-nos naquelas características... As relações de absoluto não têm lugar no direito. Deus não cabe no direito. Os amigos não cabem no direito. O Amor não cabe no direito. A família não cabe no direito (gostava de saber para que serve afinal o direito...). O direito relativiza-nos uns perante os outros - claro que não poderia ser de outra maneira - e afinal sempre nos liga o princípio da igualdade: tratar igual o que é igual e diferentemente o que é diferente.

Mas as relações de absoluto têm destas coisas que é uma parte absolutizar a outra, perdoar-lhe as arestas pontiagudas dez vezes aumentadas pela lente do tempo e do conhecimento, perdoar-lhe os vértices, os ângulos agudos, as farpas atiradas mesmo sem se dar conta (mesmo aquelas que doem como tudo e demoram tempo, muito tempo, a sarar) e amar independentemente de tudo. Não há relativizações. No Amor não há relativizações. E o tempo não mata a saudade.

Como fazer, então, para não focar só insignificantes pormenores, de uma coisa, de uma pessoa, de um lugar, de um acontecimento, de uma vivência? Não é possível. Não é possível ver a todos os momentos a fotografia completa. Há sempre peças que nos saltam à vista, onde nos demoramos e perdemos, onde tropeçamos, caímos, levantamos e voltamos a tropeçar e a cair aos trambolhões. O absoluto que nós somos esqueceu-se de relativizar as coisas. E assim vamos vivendo, vendo sempre pequenas partes de uma tela que não compreendemos bem, que não imaginamos no seu todo. Ainda o ponto de partida e o ponto de chegada.... sempre a viagem. O melhor que podemos fazer é aproveitar o que temos para fazer da tela em branco um belíssimo desenho. Chegando ao fim, não há remorsos: fizemos o que pudemos com as armas que tinhamos. E absolutizámos. Sempre. Independentemente de tudo.

quinta-feira, junho 22, 2006

...

Porque é que há dias assim?...

terça-feira, junho 20, 2006

Puro plágio...

Encontrei este post noutro blog. Achei interessante postá-lo para saber o que acham:

"Olympia sabe que uma mulher tem uma aparência muito diferente quando é feliz, quando a sua beleza emana de uma sensação de bem-estar ou de se saber profundamente amada. Até uma mulher feia atrai os olhares, se for feliz, ao passo qua a mulher mais elaboradamente penteada e coberta de jóias, parecerá apenas decorativa se não transpirar contentamento."

Anita Shreve in A Praia do Destino

Concordam?

domingo, junho 18, 2006

Perspectivas

E de todas as coisas o que fica,
E de todas as coisas o que parte,
Se nem tudo na vida glorifica
E viver nem sempre é uma arte?

De um banquete só restos de comida,
De uma festa pedaços de pessoas;
E de todas aquelas outras coisas
Já só ficam lembranças menos boas...

O olhar é que escolhe a sua cor
(Mas nem tudo na vida é uma escolha)
E fácil é fecharmo-nos na dor.

Difícil é, sei lá, ver amarelo!
Virar finalmente aquela folha
E abrir as portas do nosso castelo...

quarta-feira, junho 14, 2006

Fotoblogs... Verdadeiramente assustador!

Não, não estou a hiperbolizar. É mesmo verdadeiramente assustador. O quê? Eu explico. Hoje, durante uma das minhas muitas (demasiadas) pausas do estudo de Direito Constitucional, resolvi ir visitar uns fotoblogs de umas colegas. Quando vamos ao fotoblog podemos ter acesso aos fotoblogs favoritos da pessoa que estamos a visitar. Como (supostamente) tinha tempo e queria estupidificar mais um bocadinho resolvi ir espreitando blogs. E foi aí que me assustei. Deparei-me com fotoblogs que me deixaram chocada e alarmada. Não estou a falar de pornografia (desenganem-se mentes perversas :) porque felizmente o sistema dos fotoblogs lá vai tentando proibi-la, pelo que ouço dizer. Estou a falar de uma exploração da imagem e do corpo abusiva e deprimente que se faz nos blogs. Estou a falar de dezenas de fotos, publicadas num sítio a que toda a gente que queira pode aceder, de pessoas que devem ter a minha idade ou ser mais novas do que eu (eu, com os meus 18 anos...), que expoem fotos de uma falta de pudor inacreditável. Em poses no mínimo chocantes. Com expressões faciais e corporais excessivamente provocantes! Mas que raio de mundo humano estamos nós a criar? Que raio de mundo humano SOMOS nós? Que gigante complexo-de-qualquer-coisa leva alguém a aceitar comentários tão ordinários sobre si próprio, sobre a sua imagem? Em que é que isso nos eleva a alma ou o ego? Somos cada vez mais espremidos em padrões de sensualidade, de beleza, já esteriotipados... e deixamo-nos ir? Apagamos de vez o pudor? Pudor? que palavra é essa? Não conheço... !

Deixa-me ainda mais triste constatar que ainda por cima este tipo de fotoblog é maioritariamente de mulheres. Mulheres que se sentem indignadas com o papel diminuto que ainda têm na vida pública porque ainda se sente muito a áurea à volta da figura masculina, mas que depois se colocam a elas próprias num papel que desilude, num mero objecto a ser apreciado pelo homem. Não digo que a sensualidade não seja importante. É muito importante! Qual de nós não gosta de se sentir atraente? Mas há maneiras e maneiras de se chamar a atenção so outro sexo. E os modos de o fazer com que hoje me deparei (que já conhecia, claro. Não sou assim tão ingénua!:)Mas nunca me tinha confrontado com isso) não nos acrescentam nada... apenas nos diminuem e nos reduzem a uma metade de nós - ao corpo - escondendo ou ignorante a outra - a alma (a meu ver, muito mais interessante). Hoje entristeci-me com a realidade.

(Atenção! Não quero generalizar... conheço fotoblogs muito bons. Posso também ter soado a muito radical ou extremista... mas ainda tenho as imagens a ferver-me na cabeça... e a desilusão também)

Tchim tchim aos momentos!... (:

terça-feira, junho 13, 2006

Caminhos, caminhantes e caminhadas

A metáfora da viagem está já gasta pela boca de toda a gente e, contudo, eu não me sinto mal por usá-la. "Caminhante, não há caminho – o caminho faz-se ao andar". Não sei por que toda a gente planeia tão cuidadosamente o caminho que quer traçar se não há nada tão incerto quanto uma viagem, sobretudo uma tão cheia de cruzamentos, encruzilhadas, vielas e becos sem saída. Por que temos todos de ter caminhos definidos à partida, por que temos todos de ter um rumo específico, uma rota traçada? Por que temos todos de caminhar pelo trilho já pisado por gerações de caminhantes e não nos é permitido embrenhar-nos na floresta virgem e marcar com os nossos passos um caminho nunca dantes percorrido?
Afinal todos viajamos sem bússola, sem mapa; guiamo-nos talvez pelas estrelas, seguindo numa embarcação solitária uma rota nunca traçada. Não sabemos para onde vamos e, muitas vezes, nem para onde queremos ir. Por isso deixamos que a brisa embale a nossa vela e vamos andando, às vezes em círculos infindáveis de desespero, outras seguindo ondas fantásticas que nos levam a lugares deslumbrantes. Fazemos paragens, deixamos o barquinho atracado e pisamos terra firme. Aguardamos ventos melhores, ou simplesmente recuperamos do enjoo que meses no mar alto nos provocam. Às vezes acontece-nos voltar atrás e revisitar paragens das quais nem nos lembrávamos. Estas revisitações são por vezes engraçadas, outras dolorosas e estéreis. Não há ninguém que se orgulhe de todos os metros da sua vida, porque todos os viajantes arrastam consigo quilómetros de passado. Quando esses quilómetros são deslumbrantes, os caminhantes exibem-nos cheios de orgulho e tentam vendê-los aos transeuntes que encontram nas suas paragens. Quando o pano é feio e enrugado, os pobres dos caminhantes escondem-no da luz, envergonhados, e antes procuram nas suas paragens comprar panos deslumbrantes aos transeuntes com que se cruzam – panos que sempre sonharam tecer e nunca o fizeram. É o circuito económico da vida de que os economistas não falam. Mas é impossível tecer quilómetros de pano magnífico… e todos temos nas nossas vidas alguns metros de que nos envergonhamos.
Por isso eu me pergunto: por que temos todos de traçar um caminho à partida, ainda ntes de embarcarmos nessa viagem que está na boca de toda a gente? O máximo que podemos fazer é um esboço, saber que toda a viagem tem um ponto de partida e um ponto de chegada, e algumas paragens pelo meio. Entre esses dois pontos, tudo o que fizermos é nosso. E não há nada mais belo do que traçarmos o nosso caminho – passo a passo, enquanto caminhamos.