Gosto daqueles dias de Inverno em que o Sol, contra o frio, contra o vento e contra a vontade dos deuses, se insinua docemente sobre a harmonia das coisas. E, quase num finca-pé divino, alastra sobre o mundo os seus raios gelados, porque, por mais vontade que tenha de desafiar o frio, este existe, e está aqui e não desiste de ganhar ao sol esta disputa. Gosto da beleza exótica que esta luta proporciona: a combinação entre a brisa fresca, que trava e liberta os pulmões, e o sol docinho que amorna a pele… Hum… divino…
Fico imóvel, deixando o pensamento discorrer livremente, como esta aragem fininha que me beija os cabelos. Ouço o silêncio da concentração total, mas, mal tenho consciência dela, perco-a. Começo então a ouvir os ruídos do mundo: vozes… masculinas, femininas juntas, sozinhas… gravilha… passos – alguém caminha. Talvez uma caminhada apaixonada? Beijos, abraços, palavras lindas e carícias à alma…
Irrompe então o tic toc dos saltos altos… passo apressado em compasso alterado. Tic toc, tic toc, tic toc, tic toc, tic toc, tic toc – tic – toc – tic – toc – tic toc, tic toc, tic toc; alguém pigarreia. Qual será o motivo? Quer clarear a garganta ou quer ser ouvido? Calou-se, talvez ouvindo os meus pensamentos interrogativos. Desculpe, amigo, não quis interromper o seu pigarrear. Estou desculpada? Engraçado, o silêncio desapareceu completamente, mas a concentração cá está. Virei-me do avesso. Agora ouço é os sons deste espaço e não as minhas vozes interiores. Oh, eu até estava a gostar de me ouvir! Chiu! Chiu! Quero ouvir-me outra vez! Quero ouvir as minhas vozes! Mas?... Espera, agora ouço ao longe o burburinho de uma multidão. É um ruído de fundo, desagradável; agora que penso nisso, é quase infernal! Ai! Até ensurdece a minha mudez! E aumenta e aumenta e aumenta e já não ouço mais nada se não a multidão! Ah, calem-se por favor! Poupem-me às vossas conversas de circunstância que nem ouço mas que adivinho desse som contínuo e indiferenciado produzido pelas vossas cordas vocais, como se vos ouvisse individualmente! Pa ta ti pa ta tã! Como a comunicação é às vezes tão absurda e às vezes tão essencial! E como são tão débeis os canais de comunicação!... Ah, poder desligar o botão que me faz ouvir a multidão… não ouvir mais esta estranha mistura de sons e poder concentrar-me apenas no que realmente interessa…
Parece que o sol se foi embora. E a minha vontade de escrever foi com ele. Ainda hoje me pergunto por que somos tão voláteis e incompreensíveis. Quem me dera ser a brisa fresca que me beijou hoje os cabelos. Assim não tinha de pensar em nada, nem de construir relações, nem de alimentar afectos. Bastar-me-ia chegar de mansinho perto das pessoas e, sem magoar ninguém, beijá-las carinhosamente, como quem pisca o olho maroto e diz “Gosto de ti”.
terça-feira, dezembro 13, 2005
Gosto de ti
segunda-feira, dezembro 05, 2005
Pego no violino...
sexta-feira, novembro 18, 2005
áfrica minha...
terça-feira, novembro 08, 2005
Aula de introdução ao direito... :)
Reminiscência
Um poema pouco conhecido, mas lindíssimo. Claro que não fui eu que escrevi. eheh : )
Reminiscência
sexta-feira, novembro 04, 2005
Sísifo
Nota (não sei se importante): Sísifo é uma personagem mitólogica condenada pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra montanha acima. Sempre que alcançava o topo, a pedra rolava outra vez para o sopé da montanha. Inutilmente. (Tal como nós?... Como quase tudo, é discutível. Mas quem não sente de vez em quando que carrega com esforço uma pedra pesadíssima só para no fim a ver rolar outra vez cá para baixo?)
terça-feira, novembro 01, 2005
Alice
Sinopse:
Passaram 193 dias desde que Alice foi vista pela última vez. Todos os dias Mário, o seu pai, sai de casa e repete o mesmo percurso que fez no dia em que Alice desapareceu. A obsessão de a encontrar leva-o a instalar uma série de câmaras de vídeo que registam o movimento das ruas. No meio de todos aqueles rostos, daquela multidão anónima, Mário procura uma pista, uma ajuda, um sinal... A dor brutal causada pela ausência de Alice transformou Mário numa pessoa diferente mas essa procura obstinada e trágica, é talvez a única forma que ele tem para continuar a acreditar que um dia Alice vai aparecer.Alice. É, para mim, um filme estranho. E não é por ser português, não é por não ter um enredo com acção intensa e tiros e grandes reviravoltas. Não. É simplesmente um filme estranho, um filme deprimente, parado e angustiante. Não lhe achei enredo convincente (para além do óbvio - o desaparecimento de Alice e a busca obsessiva do seu pai), nem força interpretativa do actor principal, cuja personagem parecia de papel, embora todos os silêncios prolongados, todos os diálogos curtos e intensos tivessem uma força expressiva arrepiante. O ritmo lento (lentíssimo), embora cansativo, pareceu-me o ritmo adequado ao tema, bem como a repetição de espaços, personagens e ambientes sórdidos. Pelo menos exalta o valor da esperança e revela a dificuldade de a manter com a passagem do tempo... Do que gostei mesmo mais foi a música, que achei brilhante, sobretudo pela simplicidade do tema principal, recorrentemente ouvido, e que ficou a ressoar nas nossas cabeças bem para lá dos créditos finais.
Não aconselho nem desaconselho (quem sou eu para o fazer?). Apenas deixo aqui o meu testemunho, juntamente com a esperança que deposito no cinema português de que um dia, se é que não o começa a fazer já, traga a qualidade de representação e a universalidade de temas que sei existir em Portugal para as salas de cinema. E que, nessa altura, espectadores orgulhosos e apaixonados encham as salas nacionais gritando: "Viva o cinema português!"
segunda-feira, outubro 31, 2005
HAJA ALEGRIA!!
domingo, outubro 30, 2005
Desiderata
Às vezes descobrimos pequenas pérolas no meio da amálgama de frustrações que é a vida de todos os dias. Reencontrei hoje um livrinho lindíssimo esquecido no fundo de uma minha gaveta chamado "Desiderata - Sabedoria de Vida", um livrinho de pequenos conselhos simples acompanhados de imagens belas e tocantes. Gosto particularmente do título: Desiderata - coisas a desejar. Já nem me lembrava dele, mas mal vi um cantinho laranja espreitar do meio da tralha lembrei-me logo desta imagem fabulosa e da frase que (a) acompanha: "Regozija-te com as tuas conquistas e os teus projectos". Fiquei encantanda com esta pequena pérola.
Sinto, no meu turbilhão de emoções diárias, que é cada vez mais difícil cada um regozijar-se com as suas conquistas e com os seus projectos. É difícil porque vivemos num país de medíocres, um país em que qualquer pessoa empenhada que sobressaia ligeiramente do resto da multidão é encarada como um anormalzinho, como um freak do qual apenas nos devemos rir e atirar à cara o quão espertos somos, o quão desenrascados somos, nós, os chicos espertos que passamos por cima de toda a gente e contornamos todas as coisas pelas pequenas brechas da lei.
E é com uma ponta de tristeza que sei que, no meio deste nivelamento por baixo em que vivemos, é difícil regozijarmo-nos com as nossas conquistas, com os nossos pequenos momentos de brilho, aqueles momentos em que sobressaimos, porque a seguir ao orgulho bom vem o escândalo, vêm as críticas, vêm invejas, vêm tretas niveladoras, desculpas demeritórias... e vai-se tornando cansativo aturar tanta parvoíce.
Por isso é mais fácil ser-se banal, passar-se despercebido, não ter grandes conquistas, não ter grandes projectos. Ser-se, enfim, apenas mais um no meio da multidão. (Será assim que se perdem génios?)
Mas é claro que, por mais que se tente, para quem não acredita nesta treta é impossível não ter projectos e não se regozijar com as suas pequenas conquistas. E ainda bem que ainda há gente que sobressai, que ignora críticas e invejas e escândalos e cobiças e se mantém convicta no seu caminho, modestamente orgulhosa do seu percurso e do seu projecto, serenamente em paz, os pés crescendo ao ritmo lento e descoordenado das conquistas que a vida lhe deu...
Penso ser esta uma pequena parte da sabedoria de vida.
sábado, outubro 29, 2005
Poço de sabedoria
A criança é um poço de sabedoria. A criança, por inocente, ensina quem deixou de o ser há já algum tempo a eterna beleza do seu olhar puro, aquele que capta a realidade literalmente. Deixemos de lado os segundos sentidos. Embora a criança os capte bem. E cada vez mais, neste mundo em que vivemos. Mas capta-os de uma forma inocente, adulterada só por não saber bem o que significam. Sabe que têm um sentido perverso, talvez até obsceno – oh, a criança capta essas brincadeirinhas, sim – mas não entende a perversão, não entende a obscenidade, apenas a marotice. Os olhos da criança são, talvez, o espelho no qual o adulto se revê. É lindo ver as crianças crescer porque, no fundo, revemo-nos a nós mesmos, no âmago da sua alminha em crescimento. E sentimos o ressoar da nossa imagem, da nossa altura, da nossa aparência de velhos – aos olhos de uma criança, um jovem parece sempre um velho – no fundo do seu sentimento e a criança ama-nos por olharmos para ela (ou por olharmos por ela?), apesar dos anos e anos de distância. E em nós a criança vê a Perfeição, o Absoluto. Vê a imagem da Verdade e da Sabedoria. E a beleza disto tudo é que este olhar magnifico sobre o adulto obriga-o docemente a rever-se por dentro, a repensar as suas escolhas, os seus traumas, os seus erros e a achar neles toda uma beleza de sabedoria. E sim, começa a acreditar na sua própria sabedoria e cresce-lhe a alma grande por se saber amado por alguém tão frágil e desprotegido. E fecha os olhos, sorrindo, deixando-se levar por tão doce sonho de perfeição, ainda que a consciência o alerte de que é apenas um sonho, e sente a brisa fresca na cara, o vento trazido pela criança e deixa-se ficar numa lassidão perfeita… Que felicidade! Não acreditam? A criança é, já o disse, um poço de sabedoria. Paradoxo
E é sentir a solidão do existir E é sentir que a vida muda sem saber E é ter medo de dar tudo e cair E é querer ver o mundo todo sem doer! Se eu fosse ave cumprir-me-ia num só voo Se fosse flor perfumaria o jardim Mas sendo gente não me livro deste enjoo De querer ter tudo e de só me ter a mim! Eu só queria ter um voo deslumbrante, Ou um aroma muito fora do vulgar Mas o que é mesmo, mesmo mais decepcionante É não ser ave, não ser flor e ser só gente Levar toda a vida a sentir e a pensar E assim acabar, vazia e indiferente.
quinta-feira, outubro 27, 2005
Não quero sentir o amor morrer
Que se lixem as pessoas! Que se lixe todo o mundo! Que se lixem todas as coisas, dignas e indignas, pois nenhuma delas servirá alguma vez para alguma coisa. Tudo é inútil como um prato vazio: já serviu, já alimentou, já fez sentir, já deu vida - depois disto, o nada.
São assim as relações humanas. São, como não podia deixar de ser, nesta cultura do usa e deita fora, efémeras. São intensas e depois inúteis. São maravilhosas e depois vazias. Ah, e são quase todas por necessidade. Necessidade e conveniência - é isso que junta as pessoas.
Estou cansada! Farta! Farta desta complexidade estúpida, desta utopia de perfeição, deste sonho de felicidade! Estou farta das pessoas, farta de ser atraiçoada! Farta de ser enganada, de ser criticada, cuspida, apontada... numa palavra: estou farta de ser usada.
Que se usem os outros, que eu não quero saber. Dos meus erros sei e posso dar conta, dos dos outros não há muito que eu possa fazer. Porque aí cairia na incoerência de lhes apontar o dedo, de o espetar nas suas feridas mais profundas e de escarafunchar desalmadamente. E eu não quero ser incoerente quando posso escoher não o ser.
Que se amem os outros, que eu não quero amar e ser amada. Que se amem até à exaustão, até se fartarem - e que, depois, cuspam nas caras uns dos outros os tiques e defeitos mútuos que antes comeram e adoraram e imitaram. Eu isso não quero: não quero sentir o amor morrer.
sexta-feira, outubro 07, 2005
Cultura Umbigal
segunda-feira, setembro 26, 2005
Violência doméstica
O marido bate na mulher. Eu amo-te muito, meu amor! O marido bate na mulher. Desculpa, eu prometo que não volta a acontecer. O marido bate na mulher. Silêncio. O marido bate na mulher. Comida na mesa para dois. O marido bate na mulher. Silêncio. Bola. Silêncio. O marido bate na mulher. A vida continua. O marido bate na mulher. Estou grávida. O quê?!!! O marido bate na mulher. Já devias ter percebido, estúpido! O marido bate na mulher. O marido bate na mulher. O marido bate na mulher. Silêncio. O marido bate na mulher. Comida na mesa para dois, em breve três. O marido bate na mulher. O tempo passa. O marido bate na mulher. Desagua o rio que nela nascera. O marido não bate na mulher. A criança vê a luz do dia. O marido não bate na mulher, que está no hospital. Como está o nosso filho, meu amor? O marido não bate na mulher. Está bem. O marido não bate na mulher. É tão pequenino! O marido não bate na mulher. Voltam para casa. O marido bate na mulher e no filho que nasceu. É cego, pobrezinho, para não ver a dor do mundo em que nasceu.
sexta-feira, setembro 09, 2005
O Primeiro Dia
A princípio é simples anda-se sozinho passa-se nas ruas bem devagarinho está-se bem no silêncio e no borborinho bebe-se as certezas num copo de vinho e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo diz-se do passado que está moribundo bebe-se o alento num copo sem fundo e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida E é então que amigos nos oferecem leito entra-se cansado e sai-se refeito luta-se por tudo o que se leva a peito bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja olha-se para dentro e já pouco sobeja pede-se um descanso por curto que seja apagam-se dúvidas num mar de cerveja e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida Enfim duma escolha faz-se um desafio enfrenta-se a vida de fio a pavio navega-se sem mar sem vela ou navio bebe-se a coragem até dum copo vazio e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida E entretanto o tempo fez cinza da brasa outra maré cheia virá da maré vaza nasce um novo dia e no braço outra asa brinda-se aos amores com o vinho da casa e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

