terça-feira, dezembro 13, 2005

Gosto de ti

Gosto daqueles dias de Inverno em que o Sol, contra o frio, contra o vento e contra a vontade dos deuses, se insinua docemente sobre a harmonia das coisas. E, quase num finca-pé divino, alastra sobre o mundo os seus raios gelados, porque, por mais vontade que tenha de desafiar o frio, este existe, e está aqui e não desiste de ganhar ao sol esta disputa. Gosto da beleza exótica que esta luta proporciona: a combinação entre a brisa fresca, que trava e liberta os pulmões, e o sol docinho que amorna a pele… Hum… divino…

Fico imóvel, deixando o pensamento discorrer livremente, como esta aragem fininha que me beija os cabelos. Ouço o silêncio da concentração total, mas, mal tenho consciência dela, perco-a. Começo então a ouvir os ruídos do mundo: vozes… masculinas, femininas juntas, sozinhas… gravilha… passos – alguém caminha. Talvez uma caminhada apaixonada? Beijos, abraços, palavras lindas e carícias à alma…

Irrompe então o tic toc dos saltos altos… passo apressado em compasso alterado. Tic toc, tic toc, tic toc, tic toc, tic toc, tic toc – tic – toc – tic – toc – tic toc, tic toc, tic toc; alguém pigarreia. Qual será o motivo? Quer clarear a garganta ou quer ser ouvido? Calou-se, talvez ouvindo os meus pensamentos interrogativos. Desculpe, amigo, não quis interromper o seu pigarrear. Estou desculpada? Engraçado, o silêncio desapareceu completamente, mas a concentração cá está. Virei-me do avesso. Agora ouço é os sons deste espaço e não as minhas vozes interiores. Oh, eu até estava a gostar de me ouvir! Chiu! Chiu! Quero ouvir-me outra vez! Quero ouvir as minhas vozes! Mas?... Espera, agora ouço ao longe o burburinho de uma multidão. É um ruído de fundo, desagradável; agora que penso nisso, é quase infernal! Ai! Até ensurdece a minha mudez! E aumenta e aumenta e aumenta e já não ouço mais nada se não a multidão! Ah, calem-se por favor! Poupem-me às vossas conversas de circunstância que nem ouço mas que adivinho desse som contínuo e indiferenciado produzido pelas vossas cordas vocais, como se vos ouvisse individualmente! Pa ta ti pa ta tã! Como a comunicação é às vezes tão absurda e às vezes tão essencial! E como são tão débeis os canais de comunicação!... Ah, poder desligar o botão que me faz ouvir a multidão… não ouvir mais esta estranha mistura de sons e poder concentrar-me apenas no que realmente interessa…

Parece que o sol se foi embora. E a minha vontade de escrever foi com ele. Ainda hoje me pergunto por que somos tão voláteis e incompreensíveis. Quem me dera ser a brisa fresca que me beijou hoje os cabelos. Assim não tinha de pensar em nada, nem de construir relações, nem de alimentar afectos. Bastar-me-ia chegar de mansinho perto das pessoas e, sem magoar ninguém, beijá-las carinhosamente, como quem pisca o olho maroto e diz “Gosto de ti”.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Pego no violino...

Pego no violino e respiro fundo. A penumbra ajuda-me a esquecer um pouco os nervos. Enquanto as violas dedilham uns primeiros acordes eu experimento discretamente algumas notas soltas num pizzicato surdo para relembrar a tonalidade. Lá menor. ok. Ajeito-o debaixo do queixo e inclino a cabeça, enquanto repouso o arco perto do cavalete. Lanço-Te uma rápida mirada. Sorris. Sublime nessa cruz. Sorrio também. O arco toma a iniciativa e lança-se na música. As pessoas lançam-me olhares furtivos, surpreendidos pelo violino, admirados com a brusca iniciativa do arco e com os dedos que vão acertando com as notas. Não ligo. Vou respirando a resina que as cerdas do arco vão libertando na sua corrida. Aos poucos, todo o espaço se habitua à tua melodia e Tu entusiasmas-Te. A certo ponto já nem sei quem toca... eu ou Tu? A melodia pareceu encaixar com o momento de cada um. Eu desligo-me de tudo o resto, do violino, e rezo também, enquanto Tu continuas, sorrindo, a fazer o violino cantar. Também a mim me embalas, Senhor, nessa cantiga. E tocas tão bem! Atravessaste o espaço erguido pelas mãos de alguém e repousaste no altar. Indiscritível esse momento. Anuncias um ritardando subtil, desenhado pelo abrandar da corrida do arco, e, com duas longas notas, terminas a melodia. Levo o violino até debaixo do meu braço (movimento que o arco acompanha) e ajoelho-me perante Ti. Parece que ainda sorris mais, de sobrancelhas ainda mais arqueadas, maçãs do rosto mais definidas, lábio mais distendido, pregado nessa cruz. Acompanho-Te nessa alegria e digo ao meu violino que nessa noite temos de conversar. Ele sorri, feliz e arrogante. Eu sorrio, feliz e interrogante. Tu sorris, feliz e fascinante.

sexta-feira, novembro 18, 2005

áfrica minha...

Sonhei com a terra do pôr-do-sol
Onde as cores se confundem no calor
Que arde quente e faz brilhar
Na pele escura gotas de suor.
.
Imaginei um canto escondido
Onde ecoavam vozes meio gritadas
rezando a Deus, de olhar já rendido,
de bocas secas, barrigas inchadas.
.
Mas nessa terra há ainda esperança
(há ainda vontade de a ajudar!)
E as crianças, cobertas de pó,
Sabem sorrir e sabem sonhar.
.
Sabem amar, sabendo sofrer
E vão vivendo ao sbor do vento
Que embala o cheiro da sua cultura
Que as pinta por fora e as enche por dentro.
.
Para o ano... :)! mal posso esperar!

terça-feira, novembro 08, 2005

Aula de introdução ao direito... :)

"Perdão, senhor juíz!"
diz de algemas ou infeliz.
"Perdão, senhor, perdão!"
Grita, protrado, de olhar no chão!
.
"Eu já nem sei o que fiz!"
"Pobre coitado! Não sabe o que diz!
Pois tu espancaste o teu irmão!
Quase o matavas! Que queres, então?"
.
"Peço clemência... pra ser feliz..."
"Partiste-lhe a cana do nariz!..."
"Por favor! Prá cadeia não!"
E com um pé partiste-lhe a mão!"
.
"Ouça, você fez aquilo que quis."
"Estou inocente... não fiz o que diz!"
"Ficou provado!" "...é um aldrabão...»( "
"Que foi que disse? VÁ PRÁ PRISÃO!!"
.
Grande aula, não? :D

Reminiscência

Um poema pouco conhecido, mas lindíssimo. Claro que não fui eu que escrevi. eheh : )

Reminiscência

"...Lisboa, Santarém, Porto, Leiria..."
(eu sabia de cor toda a geografia)
O Senhor Inspector
deu-me a nota mais alta em geografia
e disse gravemente:
- "Continua. Hás-de ser gente..." -

"Ângulo recto, agudo,
cateto, hipotenusa...
(já manchara de giz a minha blusa
mas respondia a tudo
e a professora sorria
enquanto eu papagueava a geometria)
"...D.Sancho, o Povoador...
D.Dinis, o Lavrador...
(Tinha então boa memória,
sabia as datas da história...)
1580
1640
1143
em Arcos de Valdevez...
(Muito bem, sim senhor!
A pequena é simpática)
E depois, em voz alta, o senhor Inspector:
- Vamos à gramática." -

"...E, nem, não só, mas também...
conjunções copulativas"
(Eu pensava na alegria
que ia dar a minha mãe,
nas frases admirativas
da velha D.Maria,
a minha primeira mestra:
- Tão novinha e ficou "bem"!" -
e esta suavíssima orquestra
acompanhava em surdina
o meu primeiro exame de menina
aplicada, orgulhosa e inteligente...)

- "Vá ao quadro, menina! Docilmente
fiz os problemas, dividi fracções,
disse as regras das quatro operações
e finalmente
O Senhor Inspector felicitou-me,
quis saber o meu nome
e declarou-me
que ficara "distinta" sem favor.

Ah! que esplendor!
Que alegria total e sem mistura,
que orgulho, que vaidade!
Olhei de frente o sol e a claridade
não me cegou, julguei-a quase escura...
As estrelas, fitei-as como iguais.
Melhor: como rivais...
E a Humanidade
pareceu-me um rebanho sem vontade,
uma vasta colónia de formigas...
(As minhas pobres, tímidas amigas!)
Pouco depois, em casa, a testa em fogo, o olhar em brasa,
gritei num desafio
à terra, ao céu, ao mar, ao rio:
- "O mãe, eu já sei tudo!"
No seu olhar tranquilo de veludo,
no seu olhar profundo,
que era todo o meu mundo,
passou uma ironia tão velada,
uma ironia
tão funda, tão calada,
que ainda hoje murmuro cada dia:
"-O mãe, eu não sei nada!..."

Fernanda de Castro
Trinta e nove poemas (1941)

sexta-feira, novembro 04, 2005

Sísifo

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII

Nota (não sei se importante): Sísifo é uma personagem mitólogica condenada pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra montanha acima. Sempre que alcançava o topo, a pedra rolava outra vez para o sopé da montanha. Inutilmente. (Tal como nós?... Como quase tudo, é discutível. Mas quem não sente de vez em quando que carrega com esforço uma pedra pesadíssima só para no fim a ver rolar outra vez cá para baixo?)

terça-feira, novembro 01, 2005

Alice

Sinopse: Passaram 193 dias desde que Alice foi vista pela última vez. Todos os dias Mário, o seu pai, sai de casa e repete o mesmo percurso que fez no dia em que Alice desapareceu. A obsessão de a encontrar leva-o a instalar uma série de câmaras de vídeo que registam o movimento das ruas. No meio de todos aqueles rostos, daquela multidão anónima, Mário procura uma pista, uma ajuda, um sinal... A dor brutal causada pela ausência de Alice transformou Mário numa pessoa diferente mas essa procura obstinada e trágica, é talvez a única forma que ele tem para continuar a acreditar que um dia Alice vai aparecer.

Nota de intenções: Interessava-me na história de “Alice” explorar sobretudo a obsessão. Alguém que perde uma filha e que, sentido-se impotente para agir, cria um sistema paralelo de funcionamento, exterior à sociedade em que vive. Quando, à noite de regresso a casa, vemos os vídeos de Mário e toda aquela multidão anónima, em movimento continuo, já não sabemos se aquelas imagens são reais se apenas existem na cabeça de Mário.Um rosto igual a outro rosto, uma rua igual a outra rua, um dia igual a outro dia. A cidade como local de abstracção onde, alguém como Mário, pode estar profundamente isolado. Na procura de Alice, Mário conhece outras personagens, também elas, de alguma forma, sozinhas também elas isoladas na cidade onde vivem.“Alice” é sobretudo um filme sobre a ausência. Uma história de amor de um pai por uma filha.
Marco Martins

Alice. É, para mim, um filme estranho. E não é por ser português, não é por não ter um enredo com acção intensa e tiros e grandes reviravoltas. Não. É simplesmente um filme estranho, um filme deprimente, parado e angustiante. Não lhe achei enredo convincente (para além do óbvio - o desaparecimento de Alice e a busca obsessiva do seu pai), nem força interpretativa do actor principal, cuja personagem parecia de papel, embora todos os silêncios prolongados, todos os diálogos curtos e intensos tivessem uma força expressiva arrepiante. O ritmo lento (lentíssimo), embora cansativo, pareceu-me o ritmo adequado ao tema, bem como a repetição de espaços, personagens e ambientes sórdidos. Pelo menos exalta o valor da esperança e revela a dificuldade de a manter com a passagem do tempo... Do que gostei mesmo mais foi a música, que achei brilhante, sobretudo pela simplicidade do tema principal, recorrentemente ouvido, e que ficou a ressoar nas nossas cabeças bem para lá dos créditos finais.

Não aconselho nem desaconselho (quem sou eu para o fazer?). Apenas deixo aqui o meu testemunho, juntamente com a esperança que deposito no cinema português de que um dia, se é que não o começa a fazer já, traga a qualidade de representação e a universalidade de temas que sei existir em Portugal para as salas de cinema. E que, nessa altura, espectadores orgulhosos e apaixonados encham as salas nacionais gritando: "Viva o cinema português!"

segunda-feira, outubro 31, 2005

HAJA ALEGRIA!!

Mais uma vez acordo sem conseguir abrir decentemente os olhos. Mais uma vez os mantenho enrugados todo o dia. Mesmo lavando a cara, esfregando vigorosamente, escarafunchando bem no cantinho para arrancar toda a remela, piscando e repiscando as pestanas e, consequentemente, as pálpebras, os olhos conseguem apenas uns redondos momentos de escancaramento para logo se encolherem. Até as sobrancelhas carregam todo o seu peso sobre os pobres desgraçados - já sem grande vontade para andarem um dia inteiro despertos, a ver, a apanhar com poeiras, a ficarem húmidos - e desenham alguns socalcos mais profundos no topo do nariz. Por que raio não abro mais os olhos? Que vontade interior é esta que me faz andar carrancuda todo o dia? Ou melhor, que FALTA de vontade é esta que me faz andar carrancuda todo o dia?Ah, deixemo-nos de pessimismos!!! Que importa o curso ou as pessoas do curso me andarem a desiludir? Que importa se o que desejo está tão longe? Que importa se os dias por vezes se arrastam demasiado lentos e trôpegos para o meu gosto? Que importa se me sinto distante do mundo, dos outros, me sinto "cuspida", agoniada, angustiada, enfastiada,empastelada, ludibriada,... ensonada? Chega de pessimismos! Chega de maus pensamentos! O futuro está em nós e na nossa atitude perante a vida, perante os crescimentos mais atabalhoados, perante os encontros mais atropelados, perante os dias mais ensonados. Vamos escancarar bem os olhos e ver como a vida nos sorri, como os nosso projectos estão longe mas são possíveis, como os obstáculos nos prendem mas depois de ultrapassados nos libertam, como o tempo se encarrega de resolver aqueles "problemazinhos" que nós teimamos em racionalizar. Vamos antes acordar a sorrir, ficar com uma música parola na cabeça e entoá-la sem medos todo o dia. VAMOS ESCANCARAR OS OLHOS E VAMOS ENCARAR OS OLHOS! VAMOS ESCANCARAR A VIDA E ENCARAR A VIDA!! HAJA ALEGRIA!!
(esta foi pra ti, miúda:).GMDT!)

domingo, outubro 30, 2005

Desiderata

Às vezes descobrimos pequenas pérolas no meio da amálgama de frustrações que é a vida de todos os dias. Reencontrei hoje um livrinho lindíssimo esquecido no fundo de uma minha gaveta chamado "Desiderata - Sabedoria de Vida", um livrinho de pequenos conselhos simples acompanhados de imagens belas e tocantes. Gosto particularmente do título: Desiderata - coisas a desejar. Já nem me lembrava dele, mas mal vi um cantinho laranja espreitar do meio da tralha lembrei-me logo desta imagem fabulosa e da frase que (a) acompanha: "Regozija-te com as tuas conquistas e os teus projectos". Fiquei encantanda com esta pequena pérola.

Sinto, no meu turbilhão de emoções diárias, que é cada vez mais difícil cada um regozijar-se com as suas conquistas e com os seus projectos. É difícil porque vivemos num país de medíocres, um país em que qualquer pessoa empenhada que sobressaia ligeiramente do resto da multidão é encarada como um anormalzinho, como um freak do qual apenas nos devemos rir e atirar à cara o quão espertos somos, o quão desenrascados somos, nós, os chicos espertos que passamos por cima de toda a gente e contornamos todas as coisas pelas pequenas brechas da lei.

E é com uma ponta de tristeza que sei que, no meio deste nivelamento por baixo em que vivemos, é difícil regozijarmo-nos com as nossas conquistas, com os nossos pequenos momentos de brilho, aqueles momentos em que sobressaimos, porque a seguir ao orgulho bom vem o escândalo, vêm as críticas, vêm invejas, vêm tretas niveladoras, desculpas demeritórias... e vai-se tornando cansativo aturar tanta parvoíce.

Por isso é mais fácil ser-se banal, passar-se despercebido, não ter grandes conquistas, não ter grandes projectos. Ser-se, enfim, apenas mais um no meio da multidão. (Será assim que se perdem génios?)

Mas é claro que, por mais que se tente, para quem não acredita nesta treta é impossível não ter projectos e não se regozijar com as suas pequenas conquistas. E ainda bem que ainda há gente que sobressai, que ignora críticas e invejas e escândalos e cobiças e se mantém convicta no seu caminho, modestamente orgulhosa do seu percurso e do seu projecto, serenamente em paz, os pés crescendo ao ritmo lento e descoordenado das conquistas que a vida lhe deu...

Penso ser esta uma pequena parte da sabedoria de vida.

sábado, outubro 29, 2005

Poço de sabedoria

A criança é um poço de sabedoria. A criança, por inocente, ensina quem deixou de o ser há já algum tempo a eterna beleza do seu olhar puro, aquele que capta a realidade literalmente. Deixemos de lado os segundos sentidos. Embora a criança os capte bem. E cada vez mais, neste mundo em que vivemos. Mas capta-os de uma forma inocente, adulterada só por não saber bem o que significam. Sabe que têm um sentido perverso, talvez até obsceno – oh, a criança capta essas brincadeirinhas, sim – mas não entende a perversão, não entende a obscenidade, apenas a marotice. Os olhos da criança são, talvez, o espelho no qual o adulto se revê. É lindo ver as crianças crescer porque, no fundo, revemo-nos a nós mesmos, no âmago da sua alminha em crescimento. E sentimos o ressoar da nossa imagem, da nossa altura, da nossa aparência de velhos – aos olhos de uma criança, um jovem parece sempre um velho – no fundo do seu sentimento e a criança ama-nos por olharmos para ela (ou por olharmos por ela?), apesar dos anos e anos de distância. E em nós a criança vê a Perfeição, o Absoluto. Vê a imagem da Verdade e da Sabedoria. E a beleza disto tudo é que este olhar magnifico sobre o adulto obriga-o docemente a rever-se por dentro, a repensar as suas escolhas, os seus traumas, os seus erros e a achar neles toda uma beleza de sabedoria. E sim, começa a acreditar na sua própria sabedoria e cresce-lhe a alma grande por se saber amado por alguém tão frágil e desprotegido. E fecha os olhos, sorrindo, deixando-se levar por tão doce sonho de perfeição, ainda que a consciência o alerte de que é apenas um sonho, e sente a brisa fresca na cara, o vento trazido pela criança e deixa-se ficar numa lassidão perfeita… Que felicidade! Não acreditam? A criança é, já o disse, um poço de sabedoria.

Paradoxo


E é sentir a solidão do existir
E é sentir que a vida muda sem saber
E é ter medo de dar tudo e cair
E é querer ver o mundo todo sem doer!

Se eu fosse ave cumprir-me-ia num só voo
Se fosse flor perfumaria o jardim
Mas sendo gente não me livro deste enjoo
De querer ter tudo e de só me ter a mim!

Eu só queria ter um voo deslumbrante,
Ou um aroma muito fora do vulgar
Mas o que é mesmo, mesmo mais decepcionante

É não ser ave, não ser flor e ser só gente
Levar toda a vida a sentir e a pensar
E assim acabar, vazia e indiferente.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Não quero sentir o amor morrer

Que se lixem as pessoas! Que se lixe todo o mundo! Que se lixem todas as coisas, dignas e indignas, pois nenhuma delas servirá alguma vez para alguma coisa. Tudo é inútil como um prato vazio: já serviu, já alimentou, já fez sentir, já deu vida - depois disto, o nada.

São assim as relações humanas. São, como não podia deixar de ser, nesta cultura do usa e deita fora, efémeras. São intensas e depois inúteis. São maravilhosas e depois vazias. Ah, e são quase todas por necessidade. Necessidade e conveniência - é isso que junta as pessoas.

Estou cansada! Farta! Farta desta complexidade estúpida, desta utopia de perfeição, deste sonho de felicidade! Estou farta das pessoas, farta de ser atraiçoada! Farta de ser enganada, de ser criticada, cuspida, apontada... numa palavra: estou farta de ser usada.

Que se usem os outros, que eu não quero saber. Dos meus erros sei e posso dar conta, dos dos outros não há muito que eu possa fazer. Porque aí cairia na incoerência de lhes apontar o dedo, de o espetar nas suas feridas mais profundas e de escarafunchar desalmadamente. E eu não quero ser incoerente quando posso escoher não o ser.

Que se amem os outros, que eu não quero amar e ser amada. Que se amem até à exaustão, até se fartarem - e que, depois, cuspam nas caras uns dos outros os tiques e defeitos mútuos que antes comeram e adoraram e imitaram. Eu isso não quero: não quero sentir o amor morrer.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Cultura Umbigal

Bigo, umbigo, ou buraquinho
Mesmo a nu ou com brinquinho,
Metido pra dentro ou mais para fora,
Umbigo, toda a gente te adora!
.
Dantes, sempre tapado!
Entre tecidos, bem disfarçado.
Agora, seja bem aparecido!
Ele anda tudo menos escondido!
.
Desce a calça, sobe o top,
A "moda umbigo" é nonstop!
Nem é só moda, é já cultura.
É das que pega e que perdura!
.
Pequeno ou grande, largo ou estreito...
Até no inverno! Umbigo, estás feito!
Passerel, montra, etecetera e tal,
tudo alimenta a "cultura umbigal"!
.
Passas de secreto a mais do que comum!
Afinal, umbigo tem-no qualquer um!
Há apenas quem goste de o cultivar
Inventando mais um deviador de olhar!

segunda-feira, setembro 26, 2005

Violência doméstica

O marido bate na mulher. Eu amo-te muito, meu amor! O marido bate na mulher. Desculpa, eu prometo que não volta a acontecer. O marido bate na mulher. Silêncio. O marido bate na mulher. Comida na mesa para dois. O marido bate na mulher. Silêncio. Bola. Silêncio. O marido bate na mulher. A vida continua. O marido bate na mulher. Estou grávida. O quê?!!! O marido bate na mulher. Já devias ter percebido, estúpido! O marido bate na mulher. O marido bate na mulher. O marido bate na mulher. Silêncio. O marido bate na mulher. Comida na mesa para dois, em breve três. O marido bate na mulher. O tempo passa. O marido bate na mulher. Desagua o rio que nela nascera. O marido não bate na mulher. A criança vê a luz do dia. O marido não bate na mulher, que está no hospital. Como está o nosso filho, meu amor? O marido não bate na mulher. Está bem. O marido não bate na mulher. É tão pequenino! O marido não bate na mulher. Voltam para casa. O marido bate na mulher e no filho que nasceu. É cego, pobrezinho, para não ver a dor do mundo em que nasceu.

sexta-feira, setembro 09, 2005

O Primeiro Dia

Já era tempo de pôr aqui esta letra do Sérgio Godinho. "Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida"... Grande canção.
A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se um descanso por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida