segunda-feira, setembro 26, 2005

Violência doméstica

O marido bate na mulher. Eu amo-te muito, meu amor! O marido bate na mulher. Desculpa, eu prometo que não volta a acontecer. O marido bate na mulher. Silêncio. O marido bate na mulher. Comida na mesa para dois. O marido bate na mulher. Silêncio. Bola. Silêncio. O marido bate na mulher. A vida continua. O marido bate na mulher. Estou grávida. O quê?!!! O marido bate na mulher. Já devias ter percebido, estúpido! O marido bate na mulher. O marido bate na mulher. O marido bate na mulher. Silêncio. O marido bate na mulher. Comida na mesa para dois, em breve três. O marido bate na mulher. O tempo passa. O marido bate na mulher. Desagua o rio que nela nascera. O marido não bate na mulher. A criança vê a luz do dia. O marido não bate na mulher, que está no hospital. Como está o nosso filho, meu amor? O marido não bate na mulher. Está bem. O marido não bate na mulher. É tão pequenino! O marido não bate na mulher. Voltam para casa. O marido bate na mulher e no filho que nasceu. É cego, pobrezinho, para não ver a dor do mundo em que nasceu.

sexta-feira, setembro 09, 2005

O Primeiro Dia

Já era tempo de pôr aqui esta letra do Sérgio Godinho. "Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida"... Grande canção.
A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se um descanso por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

quarta-feira, julho 20, 2005

...e ela sentou-se e mandou.

Chutada para um canto do universo, ou tendo rebolado para aí livremente, a Humanidade chora, amarrotada em papel. Revê com cuidado cada passo, cada escolha, cada cova do sofa onde tantas vezes se sentou obesamente e ficou à espera do destino, do não sabe ela de quê. Caminhou mal e depressa demais, escolheu mal e depressa demais, acomodou-se bem e por tempo demais. Agora chora rasgada, chamuscada nos cantos, preenchida pelo pó, amarelacastanhada da velhice. Quanto mais evoluia, menos progredia... e quanto mais escolhia, menos caminhos de escolha encontrava..(só o remedeio). E o mal estava nela propria, na falta de amor-proprio, ou na baixa auto-estima, possivelmente. Auto-destruiu-se destruindo as barreiras que a protegiam no espaço e destruindo os laços que a tornavam uma, una. fragmentou-se em milhares, milhões, biliõs, triliões de Humanidades que lutavam pelo seu pedacinho de papel, onde escreviam as suas leis, as suas regras, os seus tratados, as suas politicas. Depois vieram as alianças e depois as guerras e depois as mortes e depois o rompimento das alianças e depois as guerras e mortes e... E agora é papel. Depois do osso, da pedra, do ferro, do aço... é papel.
Tudo porque alguém lhe disse: "Levanta-te e anda." e ela sentou-se e mandou.

terça-feira, julho 05, 2005

Parábola de Schopenhauer

Não é preciso ser-se grande filósofo para perceber o que aqui nos diz Schopenhauer. Mas é preciso ser-se poeta (ser poeta é ser Homem) para se apreciar a força de uma imagem tão sugestiva.

De acordo com a parábola de Schopenhauer, os porcos-espinhos de uma manada apertavam-se uns contra os outros, numa manhã gelada de Inverno, para se protegerem do frio e se aquecerem mutuamente; mas, ao apertarem-se deste modo, não podiam evitar a dor de se picarem uns aos outros. Oscilando entre estas duas situações penosas, acabaram por ter de encontrar a distância aceitável entre eles a fim de tornar a situação suportável. De modo semelhante, a necessidade de sociedade puxa os homens uns para os outros, mas as suas qualidades indesejáveis e os seus defeitos insuportáveis afastam-nos novamente.

domingo, julho 03, 2005

Cidadela

Num mundo em que toda gente tem sempre uma palavra a dizer sobre praticamente todas as coisas é sempre bom relembrar que dentro de nós existe algures uma voz que nos dita as nossas verdades mais puras. E que sempre que ignoramos essas verdades somos nós que ficamos incompletos. Eis o que nos diz Antoine de Saint-Éxupéry num excerto do seu livro Cidadela, que encontrei muito por acaso.

Nunca dês ouvidos àqueles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações. Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti. E, se a atraiçoas, é a ti que desfiguras.

sábado, julho 02, 2005

(Con)vivências

Este não é um espaço definitivo, nem é um espaço definido à partida. É antes um espaço de (con)vivências: um espaço de convivências e com vivências; ou seja, um espaço em que falamos de vivências, numa convivência virtual com quem lê o que escrevemos. Por isso, é um espaço que se vai construindo. Palavra a palavra. Vai-se fazendo, de pensamentos e ideias que decidimos partilhar aqui. Para quem tiver paciência para ler. Divirtam-se!

quarta-feira, junho 29, 2005

Que pena o político ter virado peixe!

Pensei que o político era homem vincado
mas tirando a mascára ele é escamado!
E embora a escama esteja bem lustrada
a sua espinha está toda minada!
Abre e fecha a boca como que a discursar
mas nada produz... só bolhas de ar.
Promete e não cumpre, senhor político?
A sua memória está em estado crítico!
Atrás do perfume está o fedor
do podre, do pútrido, verdadeiro horror!
São demasiados, infestam o mar;
com medo do fundo, põem-se a boiar!
Seja cherne, dourada, sardinha ou pescada,
o político esquece, escapa, não faz nada!
É o rico peixinho que marca Portugal
e é também ele que o faz cheirar mal!
(foi só para estreia...=)