domingo, fevereiro 10, 2008

"Desimportantizar"

“Que quis eu da poesia? Que quis ela de mim? Não sei bem. Mas há uma palavra francesa com a qual posso perfeitamente exprimir o rompante mais presente em tudo o que escrevo: dégonfler. Em português, traduzi-la-ia por desimportantizar, ou em certos momentos, por aliviar, aliviar os outros, e a mim primeiro, da importância que julgamos ter. Só aliviados podemos tirar o ombro da ombreira e partir fraternalmente, ombro a ombro, para melhores dias, que o mesmo é dizer, para dias mais verdadeiros. É pouco como projecto? Em todo o caso, é o meu. O que vou deixando escrito, ora me desgosta, enjoa até, ora me encanta. Acontece certamente o mesmo aos outros poetas, tenham estatuto ou não. Mas comigo, talvez essa oscilação se dê com mais frequência. É que a invenção atroz a que se chama o dia-a-dia, este nosso dia-a-dia, espreita de perto tudo o que faço. É o preço que tenho pago para o esconjurar, pelo menos nas suas formas mais gordas e flácidas.”

Alexandre O'Neill

sábado, fevereiro 09, 2008

Obstinadamente

Sabe bem gozar com a vida, recusar-lhe a vitória demolidora sobre nós, quando as coisas não correm como planeado (quase sempre) e a vida parece uma durona qualquer que se recusa a ser feliz. Nem pensar, não se lhe pode dar uma vitória assim tão fácil: sabe bem ser estupidamente optimista, de uma forma quase ingénua. É para chorar? Sim senhora! Depois das lágrimas, os risos.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Cápsula do tempo

O tempo passou mas nós ficámos congelados no momento em que fomos um grupo. Somos outros (estamos mais velhos), mas permanecemos iguais na maneira como estamos uns com os outros. As nossas mudanças, invisíveis para três dias, não mudaram as nossas brincadeiras. Não mudaram as nossas paranóias. Não mudaram o nosso amor pelo teatro, os nossos fantasmas, as nossas palermices. Os nossos vícios e dependências. As nossas limitações, os nossos silêncios, as nossas danças malucas, as nossas vozes, as nossas tensões, os nossos medos. A nossa pancada por fotografias loucas. As nossas mudanças não mudaram isto que sentimos os quatro, isto que nos une aos quatro como irmãos de sangue (da arte que nos corre nas veias) que podemos finalmente ser. Os laços permaneceram intactos e a sensação é estranha. O tempo mudou, mudou-nos, separou-nos, e afinal ainda estamos unidos, ainda estamos ligados.

Seremos velhinhos, casados, solteiros, com filhos, viúvos, sozinhos e sentiremos nós o mesmo uns pelos outros? Irmãos, eternamente irmãos, continuaremos a encontrar-nos pelos quatro cantos do mundo e sentiremos sempre que o tempo não passou por nós enquanto grupo como passou por nós enquanto indivíduos?

O tempo mudou, mudou-nos.

O tempo, afinal, amigos, mudou tudo – mas não mudou nada.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Solidão

Durante muito tempo pensei a solidão em sentido metafísico. De estarmos postos neste mundo, abandonados a um deus-dará, desprotegidos e cheios de frio face às contingências da vida. A solidão não é mais para mim esse monstro filosófico-metafísico. Não estamos enregeladamente sozinhos, nem abandonados pelos deuses do Olimpo, nem pelo Deus de uma qualquer religião monoteísta. Acredito em Deus? Que importa?

A minha única solidão é o medo de perder aqueles que amo (não é esse o medo universal?).

sábado, janeiro 19, 2008

Os processos da vida

Eu não sou psicóloga. Sou, ou parte de mim é, aprendiz de jurista, que é como quem diz estudante de direito. A palavra processo está, por isso, para mim, irremediavelmente contaminada pelo universo jurídico. Em processo leio, automaticamente, processo civil, processo penal, administrativo, acção judicial, sequência de actos e diligências referentes à composição judicial de um litígio ou conflito de interesses… e outros palavrões que tais.

Cheguei já a um estado que se pode considerar grave: penso nas palavras processos da vida e tenho logo a imagem nítida de uma gigante biblioteca com estantes a abarrotar de processos arquivados, processos chorudos onde estão guardados todos os pormenores da vida de cada pessoa. Seria engraçado poder chegar a uma biblioteca assim, dirigirmo-nos sem vergonha ao bibliotecário e pedir, sem mais, para consultar o processo das nossas vidas e, quem sabe, das vidas dos outros. Seria sem dúvida engraçado, mas também perigoso, e traria novos sentidos ao tão falado segredo de justiça…

Mas não é de justiça que se fala quando se fala em processos da vida (a vida é tudo menos justa). A palavra processo, mais do que a palavra vida, é arrogantemente polissémica e por isso a minha mente de jurista foi estudá-la ao dicionário. Saí, obviamente, derrotada: a minha ignorância é tal que nem se lembrou do significado primeiro, mais óbvio e escancarado da palavra. Processo é, antes de mais, o modo pelo qual uma coisa é feita. E logo a seguir, a forma pela qual alguma coisa tem um determinado percurso, tem um certo seguimento.

Como a minha imaginação é pródiga, em todos os sentidos, imaginou logo um curso de água, correndo liquidamente ao longo do seu caminho. E pensou também que, no limite, tudo é processo, até o rio, que corre interminavelmente pelos tempos. Razão tinha então o filósofo quando dizia, para espanto de todos, que nunca se toma banho duas vezes no mesmo rio, seja porque as águas são já outras, seja porque o banhista não é já o mesmo. Tudo o que é orgânico é processo, matéria em decomposição, ainda que seja viva. Até os calções de banho do tal banhista, matéria morta, não são os mesmos ao segundo banho no rio: estarão mais gastos, mais ruços, mais perto, enfim, do destino que os aguarda, com um sorriso irónico nos lábios, e que é a sua morte. Ou a reciclagem, que é mais politicamente correcto.

Processo é, portanto, nesta acepção, uma coisa em devir (ora cá está a minha perspectiva filosófico-jurídica a meter-se onde não é chamada), é evolução, transformação, mudança, passagem.

Claro que uma perspectiva assim, embora realista, é assustadora. Saber que os calções de banho, bikinis e afins, aqueles de que tanto gostávamos e que usaríamos até ao fim dos tempos, envelhecem e se estragam e deixam de cobrir com pudor os segredos e os locais que no fundo são iguais em todos nós é algo verdadeiramente doloroso. É uma perda irremediável e da qual saímos sempre outros, mais cépticos, mais amargos, mais desiludidos com o processo da vida. Mas no limite, tudo é processo, e processo é, na sua essência, digo eu e não o dicionário, dinâmica, dialéctica, movimento e às vezes estagnação. Processo é, e assim diz o dicionário, uma sucessão de etapas e de estados.

Mas processo é apenas uma parte do problema. A outra parte, bem mais complexa, é em si só um mundo irresistível: a vida.

E aqui é que as coisas se tornam verdadeiramente difíceis. O dicionário contém definições, não respostas. O dicionário explicita as acepções da palavra, mas todos os significados são poucos para a vida. De tão especial, quase se pode apelidar de palavra mãe, a palavra de onde brotam todas as outras. Mas o que é a vida, afinal? O que é a vida?

Sim, numa perspectiva muito científica e pragmática, a vida são processos. Nascemos e morremos – entre esses dois momentos, tudo em nós é um conjunto infindável de processos, processos incríveis, milagrosos, misteriosos, processos que nos levam a dizer, se no fim ainda formos capazes, que vivemos, que fomos vivos, que passámos por este mundo e experimentámos esse fenómeno inefável que é viver. Processos atrás de processos, descobertas, aprendizagens, mudanças, transformações, experiências… o léxico é variado, mas tudo se resume a uma palavra: processo. O próprio nascimento é um processo complexo. Doloroso, num irónico piscar de olho a quem nasce, como quem diz que a vida, ela própria, não é fácil e é, muitas vezes, dolorosa.

Eu não conheço, em qualquer grau que ultrapasse o senso comum, os fenómenos reais que são esses processos todos, quer a nível cerebral, hormonal, anatómico, celular, genético ou qualquer outro que fazem parte da experiência de se ser pessoa. Não sei que nome lhes dar, não sei identificá-los. Não sei apontá-los num mapa, não sei procurá-los no dicionário. Mas sei senti-los.

Sei reconhecê-los em mim e, por analogia (sempre o jurídico, estou perdida…), nos outros. Por mais diferenças de fundo que haja – e há-as, sem dúvida – somos todos humanos e a experiência de se ser humano é uma experiência universal. Os processos são em tudo semelhantes em todos nós, humanos, nós que evoluímos dos macacos (dizem), que evoluímos da própria evolução do mundo, em si mesma um processo repleto de processos – como as matrioshkas russas, grávidas de si próprias em miniatura – e chegámos aqui, hoje, ao Homem global, ao Homem “evoluído”, ao Homem cada vez mais parecido consigo próprio.

O Homem que, embora individual, preso no seu corpo, no seu ser, nos seus processos interiores, se transcende e alcança o outro, ama, age e influencia a pequena parcela do mundo onde vive, se deixa transformar, se deixa amar, se deixa evoluir. E no fundo, tudo isto são processos.

Sim, a vida é um conjunto intrincadamente complexo de processos, a vida, essa linha descontínua entre o nascer e o morrer. A vida, essa poesia breve, essa brisa que nos faz estremecer num orgasmo silencioso ao percebermos quão breve e finita ela é… esse cheiro a maresia, essa cor, essa alegria, esse vibrar esfusiante de energia! Essa dor, eterna, esse respirar como se fosse a última golfada de ar, esse leve desespero, essa lamentação de saber a condição com que nascemos… E no fim, poder dizer ainda: “eu vivi, eu vivi plenamente sabendo que iria morrer, eu vivi sabendo que me foi dada a magia de passar por um número incontornável de processos a que tive constantemente de me readaptar, reajustar, numa flexibilidade aprendida à custa de muitas lágrimas e de muitos risos”. Poder dizer: “eu vivi e dei vida, eu vivi e amei e fui amado e, embora morra agora, não morri. E de alguma maneira permaneci na memória de quem me sobreviveu”.

Sim, a vida é uma sucessão de processos. Processos com ou sem sentidos, consentidos ou não, que a vida não pede autorização para acontecer. A vida, a vida, a vida… Haja só esta ou haja outra, a vida é rica. A vida é, não pode deixar de ser, processos. Mas…

E a Vida, o que é?

segunda-feira, janeiro 14, 2008

; )

Hoje é mesmo o primeiro dia do resto da minha vida! As decisões são tramadas... mas valem bem a pena! Olá vida nova!!

Mais pormenores?!... eles virão a seu tempo! ;)

domingo, janeiro 13, 2008

Reflexões sobre insatisfação, exigência e Amor

"A tua exigência sem amor, revolta-me. O teu amor sem exigência, humilha-me. O teu amor exigente dignifica-me." Henri Caffarel

(É mesmo isto. Quis dizer-te esta frase mas não me lembrei das palavras exactas e resolvi esperar até as saber.)

Não sei Amar sem exigência. Não consigo conceber o Amor sem a Exigência. Acho que só quem sabe exigir é que Ama. Estas não são realidades que, juntas, se tornam mutuamente perfeitas... ou melhor, a exigência não é o único componente do Amor e o Amor não se extingue na Exigência. No Amor cabe muito, cabe tanto, cabe tudo. Mas sei, acredito, que um Amor sem exigência não é Amor. O Amor é querer mais. O Amor é o oposto da estagnação. E a exigência é o motor que provoca o andamento, é o constante empurrão que gera o dinamismo. É por eu querer saber mais sobre mim que me mexo, que escavo, que aprofundo, que vou mais dentro, que toco feridas, que dou passos dolorosos... para depois me aceitar e seguir em frente, mais feliz. Quero saber mais de mim, conhecer-me melhor, porque não estou satisfeita. Não estou satisfeita porque sei que posso dar e ser mais. Se sei que posso dar e ser mais e quero dar e ser mais, sou mais exigente comigo. A insatisfação é consequência directa da exigência. E a exigência é consequência directa da insatisfação. "O homem é um eterno insatisfeito"... já não sei se é "frase feita" ou se foi dito por algum brilhante filósofo, mas há lá frase mais certa do que esta? Seja para o lado menos humano do Homem, seja para o seu lado mais seu, a insatisfação é que puxa os cordelinhos. Porque quer mais dinheiro? Porque o que o tem não o satisfaz. Porque dá do seu tempo para o gastar nos outros? Porque viver para si e dentro de si só não o satisfaz. O Homem é um ser aberto, incompleto, que procura sempre mais, por natureza. E é por assim ser que evolui. É por assim ser que há dinamismo na história da Humanidade. É, também, por assim ser que o Amor sobrevive. Porque nesta insatisfação humana, não pode caber apenas a insatisfação pessoal. Rapidamente o Homem perderia de vista aquele que é o âmago da sua existência - o outro. A insatisfação do Homem abarca o outro. Abarca tudo aquilo que ele Ama. E se a insatisfação é condição da exigência, também é pressuposto do amor. O amor é querer mais. É aceitar aquela pessoa por tudo o que ela é hoje mas saber que depois do hoje há o amanhã e que amanhã ela poderá ser mais. Mais ela própria. Mais encontrada consigo mesma e portanto conseguindo também ser mais para os outros. Encontrar-se nos outros. Ser mais para a família, os amigos, os desconhecidos. Mais para o mundo. Amar é querer mais. É querer mais de mim e mais dos outros. Por isso digo que não sei amar sem exigência. E claro que também não posso exigir sem ser por amor. Porque "a tua exigência sem amor, revolta-me". A exigência sem amor é oca. É falsa. É hipócrita. É incoerente. É estéril. Conduz apenas à revolta e à quebra de laços.

A meu ver, é por o Homem estar, cada vez mais, a perder a capacidade de exigir, que também cada vez mais frequentemente estabelece relações superficiais, que ficam pela rama da pessoa, pela parte agradável, e com a qual é fácil de conviver, do outro. É por o Homem não ter coragem para exigir que não consegue tantas vezes amar verdadeiramente.. e por isso proliferam as rupturas de relações, por exemplo. Porque enquanto a relação se aguenta naquele mútuo entendimento do "toma-lá-dá-cá", naquela facilidade do "tens de gostar de mim como eu sou porque eu sou assim e pronto", naquele conforto do "se eu não te chatear tu também não me chateias", a convivência é fácil, serena, sempre divertida e sem problemas. Cedo, porém, começam as discussões "porque eu te dou e tu não me dás nada", "porque a relação caiu no tédio, ja que não há nada de novo a descobrir em ti"... porque não há crescimento em conjunto sem interacção ou exigência com o outro. Não há crescimento se só houver a mera aceitação. Na mera aceitação falta o empenho, o investimento, a preocupação, o deixar que o outro me ajude a crescer e ajudá-lo a crescer também... falta a exigência. A mera aceitação, a satisfação com a mera aceitação, traça um caminho entre dois, lado a lado, tolerante, mas não uno... acho que não chega sequer a ser um caminho. É um encontro sem pernas nem caminho para andar.

Para crescermos, temos de interiorizar que não nos bastamos a nós próprios. Precisamos dos outros, que estão fora do quadro a olhar para a pintura e conseguem perceber muito mais facilmente e com mais clareza quais são as áreas que temos de trabalhar, colorir mais ou menos, dar uns retoques, preencher ou deixar em branco. O eu precisa que o tu interaja. Sempre. Precisa de um tu que ame o eu como ele é, com todos os defeitos que ele tenha, mas que queira mais, que queira que ele seja feliz e que não desista no caminho para ser melhor... e que como tal não tenha medo de exigir.

Por isto é que o amor é difícil... mas, sem dúvida, gratificante.

"Não me peçam para ser menos exigente. É o mesmo que me pedirem para não vos amar."
O que aprendi? ... que tenho de
dar sempre a entender aos eus que este tu exige porque ama
e não o faz por egoísmo ou por querer destruir o eu.
E que é tão exigente com os eus como é consigo mesmo.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Às vezes preferia que não fosse assim. Mas ainda bem que é.
Trago a música tatuada na pele.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Um Santo Natal...

... cheio do Essencial... ;)

sexta-feira, novembro 23, 2007

A última aula do lente

A Cabra dá doze badaladas. Deixo para trás a Porta Férrea e corro um pouco, não vá quebrar-se a tradição e começar-se à hora. Subo as escadinhas, aceno à Sala dos Capelos à minha direita e prossigo. A ombreira da porta lateral acolhe-me, aceno então ao azulejo da raposa que só pontapeei uma vez e ouço um ilustre professor informar a um transeunte bem vestido “É no auditório!” Dobro a esquina do pequeno hall, e vejo logo ali o espectáculo: um rol de gente engravatada conversa em amena espera. Sossego vendo o mundo rodar nos eixos: a tradição ainda é o que era.

O claustro transpira personalidades ilustres e eu, que não sou ilustre nem nada que se pareça, sinto uma onda de entusiasmo percorrer-me o corpo. Afinal não sou indiferente ao charme do poder, do reconhecimento público de alguma coisa que seja, nem que seja apenas, como em certos casos muito raros hoje em dia, a beleza estonteante e a absoluta falta de talento. Aqui, não é o caso. Aqui há talento, aqui há poder, aqui há troca de favores.

Reconheço caras sisudas, caras sorridentes, outras não reconheço. O cortejo, grave, desce alegremente as escadas, em marcha lenta, lenta, lenta. Temos um auditório enorme e fantástico, modernaço e sóbrio, com uma fabulosa entrada do tamanho de um postigo.

Sinto no ar a excitação dos outros, o burburinho das conversas dos outros. Há também sotaques de além-mar, que prova bem o nível de reconhecimento que atingiu o homenageado, Jorge Figueiredo Dias, e a importância deste acontecimento que é a sua última lição.

Ouvir falar este nome sonante do Direito Penal deve ser uma coisa fascinante. Deve ser, porque eu nunca ouvi.

Figueiredo Dias fez setenta anos e a lei mandou-o jubilar-se (até o imagino a saltar em cima da cama, com leis avulsas nas mãos, como rebuçados, a rejubilar de contentamento pela jubilação). Ora manda a tradição, nesta ala geriátrica da Universidade de Coimbra, que o professor jubilado, por professa ignorância, não dê a sua última aula. Sim, é isso mesmo. Esta senhora manda que a última lição do professor jubilado não seja dada pelo próprio, o mestre, mas pelo seu discípulo mais velho. Manuel Costa Andrade, no caso concreto. A cereja é a justificação: por motivos de “humildade científica” e “noção de continuidade”.

Ó magnífica tradição, ó deusa imperativa a quem todos rezamos e devemos devoção! Corta-nos a raiz do pensamento, estupidifica-nos com a tua sabedoria, abrasa-nos, esmaga-nos, traga-nos com a tua imensidão!

Ao jubilado não é permitido sequer comparecer à sua própria homenagem. Esta espécie de funeral antecipado é como que um prolongamento da ideia distorcida de humildade que vigora neste país. Humildade, no léxico de Portugal, significa não se congratular pela ambição que se teve de ir mais longe, num país que nivela por baixo e esmaga com o jugo da tradição. “Não te gabarás!” “Não ficarás feliz pelas tuas próprias conquistas!” Significa embaraço perante o elogio, daí a necessidade de apenas o fazer indirectamente, perante outros que não o elogiado. O falso elogio tornou-se tão banal que o verdadeiro elogio, aquele que vem de dentro, da admiração sincera, não encontra quase lugar. Porque o verdadeiro elogio deixa um rasto de vulnerabilidade na sua passagem, ao implicar a humildade genuína que não se ensina neste país.

A cerimónia em si foi bonita. Encenações destas é o que de melhor se faz em Portugal. Falou-se bem a linguagem social, aplaudiu-se de pé o discurso de Costa Andrade e a partir das 13h já ninguém ouvia nada se não o estômago.

Acredito que haja vozes dissonantes, mas mesmo essas são engolidas pela força inelutável de alguma tradição. Costa Andrade fez um grande discurso, transbordante de uma sabedoria e cultura que não é para qualquer um. Foi é engolido pelo formalismo da tradição e pelo nervoso da responsabilidade. De qualquer modo, a ocasião não era para ele mas sim para o homenageado, e tudo em Costa Andrade foi de uma profunda humildade sincera.

À saída mesmo, a correr para apanhar o autocarro, ouvi um belo comentário de um assistente que me dá aulas práticas: “Fogo, o gajo… tu viste o discurso do gajo? Eu não conseguia... nem conheço metade dos nomes que ele citou!” Alguém lhe respondeu: “Oh, eu conseguia, ia aos livros arranjar umas citações…” “Oh, pois mas mesmo assim…”

O resto já não ouvi. Mas talvez vá aos livros buscar umas citações.

domingo, novembro 18, 2007

O fabuloso negócio dos preconceitos

Um dia, quando for grande, vou vender preconceitos. Vou montar uma banquinha no meio da rua, com um carrinho de mão enferrujado e uma sombrinha toda comida pelo sol. Visto o meu melhor fato de treino roxo e verde fluorescente, daqueles que fazem crs crs a cada passo que damos, e depois sento-me silenciosamente num banquinho de feirante. Abro o negócio a meio da tarde, ou talvez depois do almoço, que é quando há mais gente na rua. Deixo que os transeuntes me olhem bem de frente, e não só pelo canto do olho, como quem tem medo de ver realmente. Assim, ofereço, de borla total e completa, o primeiro preconceito aos transeuntes que se cruzarem comigo na rua. Promoção do dia, ao preço da chuva, que é nada.

Um preconceitozinho aqui e outro ali, para começar, e quando o negócio for de vento em poupa, lanço as primeiras edições de coleccionador, para ver se têm saída. Mas não vou aceitar moeda viva, que essa nem se sente na pele: o preço rondará o valor da culpa. Os pequenos preconceitos terão um valor baixo, porque a culpa que eles geram é menor. Os grandes preconceitos terão alto valor, porque a culpa por eles gerada é incomportavelmente maior. E assim não darei de mãos abertas o preconceito gerado pela diferente capacidade económica, e também esse terá de ser comprado. Serei realmente uma vendedora astuta e pensarei em tudo.

Então, se Deus quiser, terei um negócio maravilhoso e poderei deixar o meu curso a meio. Assim terei ainda outro preconceito na manga que poderei vender com considerável sucesso. Um dia, todo o mundo terá muito mais preconceitos e seremos todos mais felizes. Quanto mais preconceitos temos, mais nos defendemos dos preconceitos dos outros. Será um mundo cada vez mais fraterno, solidário e justo: todos terão direito a preconceitos, numa profunda visão democrática da coisa. Seremos realmente iguais em direitos porque teremos todos direito a preconceitos.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Uma questão de justiça

Quando uma sala está quase cheia na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra só pode ser uma de duas coisas: ou são alunos do primeiro ano em regime de avaliação contínua ou é uma aula do Costa Andrade.

Isto, que seria ainda mais verdade em anos anteriores, onde alunos que pusessem os pés naquele claustro eram aberrações da natureza, continua a ser verdade uns meses depois de Bolonha. É que há professores péssimos, professores maus, professores medianos, professores bons, professores excepcionais – e depois há o Costa Andrade.

Ir a uma aula do Costa Andrade é perceber em carne e osso que quem só sabe direito não sabe nada de nada. Que há muito mais para ensinar do que normas e princípios, casos práticos e teorias. Que há uma coisa excepcional, uma coisa imprescindível para que um professor seja realmente bom e que, parecendo que não, faz toda a diferença: a arte de comunicar.

Eu não sei se o Costa Andrade sabe mais do que outro professor qualquer (sei que ele sabe muito, muito, muito). O que sei é que é muitíssimo melhor comunicador do que qualquer um com que já me tenha cruzado. E depois tem o charme dos seus muitos anos, do sorriso largo, o encanto de quem se esquece às vezes de pequenos pormenores, como quem perde o fiozinho de lã à meada do pensamento, e brinca com isso, sorrindo, brincando e ensinando ao mesmo tempo. E fala de futebol (é ferrenho do Benfica, já deu para perceber) e tem piada e fala de coisas bem para lá do direito e depois, como tem já idade para isso, diz coisas que só vindas da sua boca têm o encanto e graça que têm. Como a que motivou este elogio rasgado ao melhor professor, com base em critérios científicos e total imparcialidade.

A propósito de teorias históricas do crime, da importância do elemento subjectivo para determinar se determinado comportamento se enquadra ou não num tipo legal de crime, Costa Andrade prova que quem é bom foge à regra com um estilo magnífico. E dá um exemplo “pouco académico”. Ri-se um pouco e diz, com o ar mais natural do mundo e uma classe tremenda “Por exemplo, um exemplo pouco académico… Um homem apalpa a mama a uma mulher”. Ficamos todos boquiabertos, como que diz ai ai ai o que é que vem lá. E depois lembramo-nos de que aquele homem irradia uma aura qualquer (quase tenho a impressão de que ele poderia estar a dizer a maior barbaridade que ainda assim teria classe - claro, é só impressão). Após breve pausa, acrescenta que tal acto, se não tivermos em conta o elemento subjectivo, pode ser muita coisa.

“Pode ser um acto médico.” E nós, ah! E ele gesticula com as mãos, como quem busca o exemplo seguinte.

“Pode ser um acto de coacção sexual”. E nós pensamos, claro, foi logo disso que nos lembrámos. E faz uma pequena pausa, como quem sabe a exacta reacção das palavras que vai dizer.

“Pode ser um acto gratificante para ambos”.

A sala enche-se de um riso geral, embalado pelo seu sorriso experiente. E eu fico uns minutos a viver o meu fascínio por aquele homem e a pensar que há tanto para explorar no ensino que talvez nunca tenha fim.

É por isto que a minha primeira afirmação estava completamente errada: quando há uma sala cheia na faculdade, só pode ser uma aula do Costa Andrade.

segunda-feira, novembro 12, 2007

hoje.

Não quis deixar de marcar o dia. ;)
Há lá imagem que transmita mais esperança do que a de Cristo a sorrir na cruz?! ;)

O que levas na mochila tu?

Sento-me, cansado. Muito cansado mas feliz, cansadamente. Cheguei ao fim. Que orgulho. Cheguei ao fim. Já nem consigo sentir a expressão da minha alegria talvez porque as rugas da minha cara já não a desenham. Perdi-a algures na minha viagem. No fim, penso eu. A cortina de traços que me vincam a pele do rosto, endureceram-me a fisionomia. E estes olhos também não ajudam. Sempre a lacrimejar, sem eu saber sequer porquê. Quer dizer, eu nem sei bem se assim é... já não me olho ao espelho há tanto tempo. O meu espelho foram sempre as pessoas com quem me cruzei na minha viagem. Que ou se aproximavam, ou se afastavam. Ou me sorriam ou tinham pena de mim. Ou me viam como uma fonte de energia ou como uma fonte seca, a estalar de velhice e a precisar que lhe dessem lugar no autocarro. Deixei que o olhar me fugisse para fora e repousasse na minha mochila. "O que levas na mochila tu?", perguntou-me uma criança uma vez, pendurada nas grades da escola da sua aldeia, desrespeitando por traquinice a regra das conversas com estranhos. Na altura respondi "roupas sujas e latas. Canivete. Umas botas sobresselentes. 8 mapas. Uma toalha e um fato de banho. Umas coisas de toilette. Uma panela. Um camping gaz. Uma lanterna, pilhas, fósforos. Um cantil. Uma guitarra... " "Xiii porque é que tens tanta coisa? Onde vais?". Silêncio. Silêncio. Silêncio. "Não sei". "pffff!" A boca dela rasgou-se num torto sorriso branco e a bata amarela virou-me as costas. Pela primeira vez, lembro-me, senti o peso da minha mochila tão pesada mas tão cheia de um denso vazio.
to be continued...

Curso de relações humanas

Um fim de semana. Um homem que tranpirava cultura, sabedoria, argúcia, inteligência e um refinadíssimo sentido de humor. Uma sala cheia de gente. Umas dezenas de pares de olhos, emoldurados com ou sem rugas, cheios de curiosidade. Uma constatação incrédula de que nas nossas relações fazemos tantas coisas erradas. Uma constatação incrédula de que nas nossas relações podemos fazer coisas tão diferentes e tão mais sadias. Uma leve sensação de alívio por percebermos gradualmente qual é a melhor maneira de nos relacionarmos uns com os outros. Tanta, tanta coisa... ainda não digeri tudo. Como diz o padre Alberto, "não queiram que este fim de semana dê frutos... era pedir de mais e seria absurdo dizê-lo. Verdadeiro é dizer que daqui levam flores... se cuidarem delas, darão bons frutos a longo prazo." Acho que saí com um ramo... de flores silvestres... que sei que darão bons frutos. Este fim de semana, mostrou-me como todos nós temos tanto para melhorar. Eu também e vou começar. Já.
Partilho mais e também mais concretamente nos próximos posts.