quarta-feira, abril 25, 2007
arrependimento
terça-feira, abril 24, 2007
O teu voto conta!
Hoje é dia de eleições na faculdade de direito.
O teu voto conta!
As eleições são um acontecimento grandioso e espectacular que consegue levar multidões ao claustro sempre deserto de uma faculdade historicamente orgulhosa. Há eleições praticamente durante todo o ano: para a Direcção Geral da Associação Académica de Coimbra, para as Comissões de Curso, para o Núcleo de Estudantes de Direito, para isto, para aquilo…
O teu voto conta!
Desta vez são para o Núcleo de Estudantes de Direito e, durante uma impossível e interminável semana, não se vê mais nada. Em qualquer ponto que o nosso olhar alcance, lá estão os flyers, os cartazes, organigramas, caras e mais caras (algumas total e completamente desconhecidas), autocolantes, porta-chaves, isqueiros, promessas, mais promessas, projectos megalómanos e ideias luminosas. Em nenhuma outra altura do ano há tantas conversas, tantos beijinhos e abraços, tanto contacto entre os caros colegas, futuros juristas. Em nenhuma outra altura do ano há tantos amigalhaços naquele claustro, em nenhuma outra altura do ano se vive uma atmosfera tão intensa.
O teu voto conta!
As eleições são um fenómeno interessantíssimo:
- revelam a fibra dos estudantes que andam adormecidos o ano inteiro;
- estreitam laços entre perfeitos desconhecidos;
- incentivam a comunicação e dão vida a uma geriátrica instituição;
- desenvolvem competências de socialização, de relação interpessoal e, especialmente, técnicas de manipulação e aldrabice;
- promovem o caciquismo e a demagogia e despertam a veia política de um elevado número de estudantes;
As eleições têm ainda o mérito de, ao menos durante uma semana de vez em quando, fazer as pessoas sentirem-se importantes. Quem não gosta de ver aproximar-se um perfeito desconhecido que nunca lhe dirigiu a palavra na vida (e assim que acabarem as eleições deixa imediatamente de o fazer) dar-lhe dois beijinhos entusiasmados e dizer:
“Tu és importante, não te esqueças de ir votar no dia 24!”.
O teu voto conta!
Hoje é dia de eleições na faculdade de direito. Dia de espectacular luxo democrático, ele é o culminar de uma interminável semana de campanha e o advento do sossego. De hoje sairá um novo Núcleo de Estudantes de Direito, cheio de promessas, projectos megalómanos, ideias originalmente luminosas. Sentar-se-á no trono como o fizeram inúmeros grupos de promessas antes dele e acabará por deixá-lo sem que o mundo tenha saído dos eixos. E no fim, as costas do trono estarão quentes, nunca arrefecem porque há sempre promessas a entrar e a sair.
O teu voto conta!
segunda-feira, abril 23, 2007
O espelho do mundo
Olho-me ao espelho como uma desconhecida e vejo a evidência que tanto me irrita: a palidez da minha pele não liga com a minha carapinha. Está escrito na minha imagem que sou o fruto de um atentado às convenções, filha de dois mundos diferentes. Sou feita de duas raças e a arbitrariedade com que a natureza as juntou em mim é dolorosamente cruel. Do meu pai de ébano herdei a cabeleira rebelde, indomável e insubmissa, da minha mãe a pele láctea e olhos cor do mar. Faço parte daquele terreno pantanoso que não é uma coisa nem outra, e eu não sou branca, nem preta, nem mulata. Cometi o pecado de nascer diferente e a diferença é, para o Homem, um pecado sem perdão.
O espelho olha-me do outro lado e eu vejo-me desconhecida. O espelho olha-me como um desconhecido com a força do preconceito. Sinto nele os sorrisos de piedade, os olhares de espanto e sinto-me como uma besta no circo, estou num palco e vejo os rostos surpreendidos por entre as barras de ferro. Apetece-me gritar, partir o espelho, quebrar o espelho do mundo. Apetece-me odiar as pessoas que me olham com os olhos no umbigo e não vêem nada – nem mesmo elas próprias.
Eu cometi o erro de ser uma contingência estranha da natureza. Cometi o erro maior, o que encosta o Homem à parede e lhe põe o rabo entre as pernas e as orelhas baixas e a miar e a gemer e morrer de medo. Eu cometi o erro de não ser classificável.
Eu sou branca, tenho os olhos azuis e o cabelo muito preto, muito enrolado na cabeça. As minhas raízes estão espalhadas por duas culturas, duas formas de vida tão opostas quanto ricas em beleza. Amo as minhas duas culturas e as minhas origens dispersas, amo-as e não sou nem só uma nem só outra. Eu tenho o privilégio pesado de ser duas e não ser nenhuma e, embora eu ame os dois mundos que me deram vida, eles não me amam a mim porque só amam a pureza. As duas matilhas olham-me como a um cão rafeiro, brandindo aos quatro ventos a qualidade da sua raça pura.
Não sou rotulável. Eu sou a prova viva da imprevisibilidade do Universo e sou suficientemente arrogante para afirmar que personifico a confusão, a dúvida, o medo. As pessoas olham para mim e não compreendem a Natureza, eu grito-lhes a estranha contingência da vida aos ouvidos tapados e abro-lhes os olhos cegos para a coisa mais assustadoramente bela da existência: a imprevisibilidade. Mas as pessoas precisam de clareza, de certeza, de segurança. Eu também. E olho para o espelho e vejo tudo isto e sei que vou ser sempre inadaptada. Porque eu sou o oposto da clareza, da certeza, da segurança. Eu sou uma brincadeira cósmica à escala humana. E por isso, sou olhada com desconfiança, até por mim própria. O preconceito dos outros é o mesmo que o meu e não é por isso que deixa de me irritar menos. A incoerência da minha pele e da minha cabeleira dói-me como as minhas contradições, porque sei que, se fosse de uma só raça e olhasse alguém que não é uma coisa nem outra, o meu olhar seria de preconceituosa indiferença, talvez até de desdém, e a consciência disto é extremamente dolorosa. É tão fácil julgar os outros com os olhos cegos postos no nosso próprio umbigo, tão fácil usar os nossos padrões, a nossa bitola liliputiana, a nossa curta perspectiva para tecer juízos de valor sobre os outros… e esta é a minha vergonha, o meu arrependimento – sou inadaptadamente preconceituosa por despeito.
quinta-feira, abril 19, 2007
A história do ego que era grande de mais
sábado, abril 14, 2007
A ilha do teu corpo
O teu corpo é uma ilha comprida Na exacta medida do meu desejo. Sábios astrolábios para um beijo, Secretas coordenadas da loucura, Teus lábios prendem um trevo Erguido e toda a tua figura É a postura de um deus grego. Na ponta da ilha do teu corpo Rebentam ondas de cabelo escuro, Agreste, rebelde, viril e maduro. Vagas de fogo eternamente posto, Densa floresta em dança louca, Prolonga-se pelo teu rosto Emoldurando a tua boca. No porto da ilha do teu corpo Teus olhos refulgem cintilantes, Tesouros misteriosos, diamantes. Teu queixo é o cais, moreno discreto, Teus ombros fortificações maduras; A penugem áspera do pescoço erecto Donde se soltam, loucas, as doçuras. Toda a ilha do teu corpo é um mundo Onde é extensa a planície de quimeras. Vastos são os braços com que enlaças Em ti as minhas doces primaveras. E aí mais no fundo não disfarças O teu ceptro maduro, androceu: O teu corpo é uma ilha E tudo o que és é meu.
segunda-feira, abril 09, 2007
Um metro e meio de violino
Um metro e meio, ou pouco mais de um metro e meio, de braço dado com o seu pequeno violino, o menino subiu ao palco, muito sério, muito contido. Tinha uns olhinhos pequeninos, quase em bico, quase fechadinhos, de um castanho muito escuro, muito escuro, como o cabelo escorrido a cair no pescoço. Depois de uma vénia tímida, apertou o violino com o pescoço e contra o peito (imagino o coraçãozinho a bater lá dentro, descompassadamente) e de repente o violino já fazia parte dele, já não era só um instrumento era, isso sim, o prolongamento da sua pessoa. Afinou-o, trocando olhares com a professora sentada ao piano, e estavam os dois prontos para começar.
E de repente, com uma violência incrível, com gestos quase dramáticos, tão intensos, tão rápidos, tão impressionantes, ele e o seu pequeno violino dançavam, ou talvez fosse a sua alma a passar dos dedinhos para as cordas, um som tão intenso, tão brutal… como sai tanta intensidade de um menino? Ah, que pena eu não perceber de música se não o prazer de a ouvir! Soubesse eu as notas, soubesse eu tudo e perceberia o prodígio de onze anos e o som do seu violino! Fosse para mim o Chaconne de Vitali o Chaconne de Vitali e não um longo e arrepiante choradinho!
(Primeiro entra o piano, baixinho, suave, como um sussurro que convida a falar. O violino responde ao chamamento, de repente, revoltado ou talvez apenas triste, chorando, chorando, num diálogo íntimo e por vezes violento, exaltando-se aqui e ali, mas sempre intenso, sempre intenso. Parece contar-lhe a história da sua vida, com altos e baixos, exaltações e lamentações, com uma profundidade absolutamente impressionante e esmagadora. O violino domina o piano, subjuga-o, ou talvez seja o piano que constantemente incita o violino a contar dramaticamente a sua história. Não funcionam um sem o outro e sabem-no e por isso incitam-se mutuamente, numa relação quase física, numa convivência quase material.)
De vez em quando, nas partes menos violentas da peça, o menino ficava de repente muito contido, muito tranquilo, e a sua boquinha fazia uma espécie de biquinho de concentração. E a música lavou-me até às lágrimas e eu não percebo como pôde um principezinho emocionar-me tanto. Uma grande plateia de gente grande e toda a gente comovida com a imensidão de um menino tão pequenino.
terça-feira, abril 03, 2007
Dogville
Há rasgos de génio que nos enchem de espanto.
Há retratos cruelmente lúcidos do que é ser-se pessoa, do que é ser-se humano (e por mais voltas que lhe demos, por mais optimismo que tenhamos, por mais felicidade que toquemos, não há como fugir à lucidez desses retratos…).
Há obras-primas que nos corroem de inveja porque queríamos ter sido nós a criá-las! (e eu que nunca tive aspirações de realizadora de cinema…)
Este filme é em tudo um dos melhores que já vi. Por mais voltas que dê à cabeça, qualquer que seja o prisma, é sempre irrepreensivelmente genial. Vendo-o da perspectiva do argumento (genial), da perspectiva da cenografia (genial), da perspectiva da luminotecnia (genial), da perspectiva do trabalho de actor (genial), da perspectiva de toda a sua concepção (como é que Lars Von Trier se lembrou DISTO?!!!), não encontro nada fora do lugar, nada que esteja em desequilíbrio. É um tratado de filosofia, um tratado de poesia, um tratado de teatro do melhor que há, um tratado da existência (numa visão absolutamente trágica e sem redenção possível) e não há uma única sombra no que toca à perfeição deste filme. E até aí é cruel porque é um filme essencialmente sobre a imperfeição do humano, sobre a sua eterna arrogância e sobre a maneira como as circunstâncias influenciam (determinam?) tudo o que fazemos, não fazemos e deixamos de fazer.
Não tenho palavras. Este é um daqueles filmes que só mesmo vendo. Está lá tudo. Tudo.
(Ah, o carinho por esta caixa preta de experiências, os traços de giz no chão e as transparências de todos nós! Todas as paredes são de vidro e todos os nossos muros são de esponja… Dogville somos todos nós – está-nos no sangue de humanos. Antes fossemos cães e a nossa natureza fosse a nossa natureza e não houvesse maneira de contornar isso…)
domingo, abril 01, 2007
Apontamento desbotado
Suave, Eternamente suave, A lembrança Da inocência De criança. Breve, Incrivelmente breve, A ideia De uma vida Sempre cheia. Leve, Extremamente leve, O peso da saudade, Da lembrança, E da eterna nostalgia Da infância.
sexta-feira, março 30, 2007
Dommage à deux
Eu era muito nova e ele tinha o charme de ser mais velho. Eu era muito nova e não sabia nada da vida e no olhar dele lia uma espécie de sabedoria tranquila. Eram duas avelãs, os olhos dele, bem escuros, bem lindos, bem profundos. Fitavam-me como dois faróis, invadiam-me a intimidade e deixavam-me nua, desprotegida, sem jeito. Ele tinha o charme de ser mais velho, tinha o charme no sorriso, em toda a boca, no sinal no queixo, no nariz torto, na barba por fazer… e tinha ainda o charme de me ouvir no meu embaraço e de me fazer sorrir, sorrir por dentro, rir por fora, tolinha. Ele tinha tudo, tudo… Eu era muito nova e ele tinha esse charme de ser homem.
Como nos conhecemos? Não importa. Na sua contingência, as histórias de amor são todas iguais. Há o momento do encontro, da atracção, do enamoramento, da paixão, do desejo… a ordem é mais ou menos indiferente, não há ordem no caos do amor. Às vezes é tudo ao mesmo tempo, outras vezes são parcelas de todos esses momentos, misturadas como peças de um puzzle em construção.
Conhecemo-nos num concerto, através de um amigo comum. Talvez importe, afinal – quem sabe? Há em todas as coisas a possibilidade infinita de ser uma infinidade de coisas. Talvez tivesse sido diferente se nos tivéssemos conhecido num bar. Ou no cinema. Ou na faculdade. Ou num outro lugar qualquer. “Olá, a tua cara não me é estranha. Conheço-te de algum lado?” Mas não foi assim.
Aconteceu tudo tão depressa… Eu flutuava, flutuava, vivia à beira de um precipício encantado onde o desejo e o risco se entrelaçavam. Era uma sinfonia, uma sinfonia! Uma sinfonia de sensações dispersas, de sentimentos de diferentes tonalidades e no fim, oh no fim, tudo se conjugava na mais bela música que já sentira dentro de mim. Êxtase, êxtase, e o ciúme, e o ciúme… A admiração babada daquele ser caído dos céus, as mãos, as suas mãos hábeis, os dedos lindos que imaginava em carícias, as mãos perfeitas e mágicas que faziam ilusionismo diante dos meus olhos… a vertigem da proximidade… o abismo da distância… a adoração…
O fim. Apaixonou-se – disse com a maior das latas – por outra rapariga. Estava completamente apaixonado por ela e eu a olhar para ele e já não havia mais ninguém. Eu olhava para ele e ela desaparecia quando ele olhava para mim, eclipsava-se quando conversávamos, morria quando ele me tocava ao de leve no braço. Mas ele agora tinha namorada. E eu odiei-os. E pensei que morria.
Não fui a única. Havia mais alguém que chorava o que eu chorava, que sentia o que eu sentia. Alguém que, como eu, recolhia os cacos do desgosto para debaixo do tapete do amor e aguardava em sofrimento que passasse o tempo, que passasse o luto. Mas ele tinha acrescido o peso do preconceito, o grilhão da sociedade e as suas lágrimas eram reprimidas. E o meu amigo chorava comigo a perda do mesmo homem. E eu era muito nova e ele não era assim tão novo e ambos chorávamos a perda de um homem mais velho. Estranhamente, encontrámos algum conforto no sofrimento mútuo, no carinho mútuo e fraternal. E ele disse-me: “Sabes Sofia, se eu fosse heterossexual, ficava contigo”. E eu disse-lhe “e eu, se fosse homem e homossexual, ficava contigo”. E rimos os dois feitos parvos, entre lágrimas salgadas e lágrimas perdidas. C’est dommage. Mas a vida continua.
quarta-feira, março 28, 2007
O lirismo é uma espécie de doença crónica
O lirismo é uma espécie de doença crónica, instalada no ventrículo esquerdo, incrustada numa qualquer membrana de que não sei o nome porque não estudo medicina. O lirismo é uma praga, uma chaga que arde constantemente e cujo principal sintoma é a compaixão. O estado lírico é um estado gelatinoso, uma ligeira impressão no peito, que se manifesta sob o som interno “baque” e deixa o paciente numa disposição melancólica e nostálgica. Episódios deste tipo são frequentes em doentes líricos em situações de alguma carga emocional. É muito frequente, por exemplo, entrar neste estado emocional quando se encontra um velhinho ou uma velhinha na paragem de autocarro e se ouve a narração breve (ou não tão breve assim) da história de uma vida inteira. Ou quando o mesmo velhinho ou velhinha não conseguem subir para o autocarro e precisam de uma mãozinha. Muitíssimo comuns são também manifestações líricas sob a forma de sorriso rasgado ou mesmo uns sons do estilo “ohhhhh” na presença de crianças e bebés, afectando esta forma de lirismo mais o género feminino do que o masculino. O contacto com a natureza e o ar puro tem o mesmo efeito em doentes líricos, causando invariavelmente um momentâneo estado depressivo quando os sintomas físicos alteram os químicos no cérebro e os pensamentos dos indivíduos.
Não se conhece nenhuma cura para esta espécie de doença crónica. Há quem diga que não há mesmo possibilidade de cura e que a única maneira de sublimar esta condição é através da arte, qualquer que seja a sua forma. Claro que a arte de viver não conta, porque é a principal causa desta eterna condição lírica.
terça-feira, março 27, 2007
Querer e poder.
terça-feira, março 20, 2007
Music. The art of the heart.
Respirar fundo mais uma vez. Outra. Mais profundamente ainda. Tentar fazer com que o nervoso que prende a minha voz largue o meu corpo através deste suspiro. Fico calma por cinco segundos para voltar de novo ao mesmo. Não faz mal. Penso eu. Eu safo-me. No fundo, safo-me sempre. Como é que uma arte me dá tanto trabalho e ainda é exigente quando a manejo. Traz com ela um largo e espesso manual de instruções que eu vou demorar ainda muito mais tempo do que o que já gastei para o ler. Horas. Horas a fio. Sozinha. Com ela. Com esta arte que exige trabalho e tempo. Seja pelas cordas do violino seja pelas cordas da voz. Duvido sempre dela nestes momentos. Vale a pena esta ansiedade que me oprime os sentidos? Este nervoso que me tira até a força para aguentar os meus joelhos sem tremer? Este zumbido nos ouvidos que ause nem me deixa ouvir mais nada? Vale a pena as horas gastas no meu quarto, submersa em estudo? Valem a pena as 13 horas no Conservatório? Valem a pena os momentos de família e amigos que acabo pr perder por causa deste dever? "E agora vamos ouvir uma música chamada O anjo que foi composta por Wagner". Levanto-me. Sou eu. Quase que me encosto à curva delgada do piano de meia cauda e firmo a mão no tampo. Assim sinto-me segura. Troco um rápido olhar com o pianista... Estou pronta. Soam os primeiros acordes e eu entro. Meio torta no início, a voz falhou-me (maldito frio), mas endireito-me. Penso no que canto. No anjo com que eu sonhava quando era mais miuda. Momentos mais leves, momentos mais pesados, mais ansiosos, mais pacíficos... tento passar o que sinto ao público através desta arte matreira. Acabo. Pelas palmas, vejo que consegui. Boa. "Cada palma que se ouve do público são 375 lágrimas choradas por nós em casa", já dizia o meu mestre. É verdade. É mesmo verdade. Voltei ao meu lugar. Vale a pena. Definitivamente, vale a pena. Como pude chegar a duvidar?sexta-feira, março 16, 2007
A felicidade é a minha vizinha de cima
Comprador: Boa tarde.
Vendedor: Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?
C: Queria 2kg de felicidade, por favor.
V: Desculpe?
C: Queria 2kg de felicidade.
V: Felicidade? O senhor não estará equivocado?
C: Não, não – apenas desejo comprar 2kg de felicidade.
V: Sim, mas nós não vendemos felicidade.
C: Não?
V: Não.
C: Ah.
V: …
C: Então como explica a placa lá fora?
V: Qual placa?
C: Aquela placa ali ao pé das maçãs: “Há felicidade”
V: O senhor só pode estar a brincar comigo…
C: Por amor de Deus, não!
V: Ó homem, deixe lá Deus que Ele não é para aqui chamado. O senhor não vê que isto é uma mercearia?
C: Vejo, mas a placa não engana ninguém: aqui vende-se felicidade. Quanto custa?
V: Já lhe disse que isto é uma mercearia! Se quiser maçãs, laranjas, bananas, couves, ovos, bolachas… tudo isso eu tenho para dar e vender. Sobretudo para vender. Agora felicidade…. Ó homem, se se vendesse felicidade não haveria nem um grama em stock e toda a gente andava para aqui com sorrisos parvos na cara!
C: Isso quer dizer que não vende mesmo felicidade?... Mas e a placa?
V: E ele a dar-lhe com a placa… Lamento desiludi-lo, mas aqui – nem que eu saiba em lado nenhum – não se vende felicidade. Agora a placa… a placa! Às tantas pensou que viu a placa e agora está convencido que a viu mesmo! Se quiser vamos lá fora confirmar que não há placa nenhuma.
C: Pronto, deixe lá a placa… eu só queria mesmo era um bocadinho de felicidade… sabe, ando tão abatido, tão em baixo… os meus amigos dizem-me todos que eu tenho que me animar, que tenho é de pensar positivo… eles têm razão mas eles não sabem…
V: Pois é, pois é, toca a todos. E olhe que há quem esteja pior, há quem esteja pior….
C: Duvido. Não imagina como me sinto… a minha vida é um pesadelo. Nem imagina o difícil que é ser eu… eu só queria um cheirinho de felicidade… nem precisavam de ser 2kg, bastava-me um bocadinho…
V: Pronto, homem, não fique assim! Olhe, fazemos o seguinte: eu tenho aqui uma garrafinha de vinho que é uma maravilha. É a mais cara que tenho aqui, mas como o senhor está tão abatido, até lhe faço um desconto. O senhor leva uma garrafinha e se quiser leva até um queijinho – o senhor gosta de queijo? Ah, óptimo, óptimo, estou a ver que é boa boca! – e fica metade por conta da casa. Está a ver, afinal é o seu dia de sorte! Vai para casa, come e bebe este petisco e olhe que até fica com a barriga cheia de felicidade!
C: É muito generoso da sua parte… tem a certeza?
V: Veja lá, não me faça mudar de ideias! Olhe que eu nem me conheço, já se lá viu eu alguma vez oferecer meia garrafa de vinho… aproveite, aproveite homem que não sei o que me deu hoje.
C: Já que insiste… não é que tenha muita fome, mas um queijinho sabe sempre bem. Vai ser uma boa surpresa para a minha namorada.
V: Está a ver, até já fala em mulheres! Assim é que eu gosto!
C: É, a minha Paula é muito importante para mim… Coitada, ela sofre muito com a minha infelicidade…
V: Pois é, homem, é para o bem e para o mal. Andamos cá todos uns para os outros, não é? Mas olhe que era o que eu lhe dizia há bocado, ainda bem que assim é, acredite. Já viu o que era se andássemos sempre a saltitar de alegria? Caramba, nem quero imaginar! Se a minha Dulce não tivesse crises de irritação eu não tinha um momentinho de descanso… Mas olhe que eu também não sou fácil, está a perceber?... Também sou de mau génio e às vezes também me arrasto para aí muito infeliz. É a vida, homem. A infelicidade de uns é a felicidade dos outros.
C: Não percebo como pode dizer isso… Eu não fico feliz por os outros andarem infelizes, eu fico infeliz é por andar infeliz… e também tenho pena que os outros andem infelizes e isso faz-me sentir ainda mais infeliz. Por isso é que eu acho que deveria haver felicidade para dar e vender. Sobretudo para dar, porque a felicidade deveria ser gratuita…
V: Ó homem, como se houvesse alguma coisa grátis neste mundo!
C: Ah, o senhor é um daqueles pessimistas iluminados. Olhe, antes eu conseguisse ser assim também… mas eu sou um pessimista que anda sempre na escuridão.
V: Deixe lá, homem, há sempre um queijinho para iluminar o caminho. E quando não há queijo, há presunto! Prefere de cabra ou de vaca?
C: Hum… não sei… talvez de cabra…
V: Ah, é cá dos meus! Eu também prefiro de cabra, é mais intenso, mais saboroso. Então vá que já lhe arranjo o embrulhinho. Está a ver, não comprou felicidade mas leva aqui um belo pedaço de queijo!
C: É verdade, é verdade…
V: Vê, até já leva um sorriso na cara!
C: Sabe, ainda bem que passei aqui. Espero não tê-lo incomodado.
V: Ora essa, homem, não incomodou nada!
C: Depois digo-lhe o que achei do queijo.
V: Fico à espera. Para a próxima leva outro!
C: Combinado. E já agora, quanto custam dois dedos de conversa?

