terça-feira, junho 13, 2006

Para ti. Tu sabes :)

Há olhares...

... que fazem cócegas

... que nos inibem

... que inspiram confiança

... que ralham

... que se encontram e nada dizem

... vazios

... que cantam

... que dizem muito

... que dizem mais do que é suposto :)

... explosivos

... que transbordam

... que perturbam

... que exigem

... que se encontram e se demoram (que tal para sempre?...)

(Podia dizer muito mais mas é o suficiente. Escrevi isto porque os olhares são o meu meio de comunicação preferido. Dizem mesmo muito - até demasiado! E, claro, porque o teu olhar tem um je ne sais quoi de mágico. Que me perturba... ou melhor... que se demora e me faz cócegas. É pra ti. Tu sabes. :)

sábado, junho 10, 2006

Para onde?

Andava em passo rápido (demasiado rápido, tendo em conta o calor) para ir ter com ela ao sítio combinado. Já estava atrasada. Como sempre. Uma gota de suor ameaçava deslizar sobre a testa até aterrar na sobrancelha. Os óculos de sol magoavam-me atrás das orelhas e os "fones" do Mp3 também não estavam a ajudar, escorregando constantemente. Já nem me lembro do que estava a ouvir. Tinha medo que o telemóvel tocasse de novo, irritado por ainda não ter chegado. Só pensava em chegar, desculpar-me pelo atraso e aguentá-la mesmo que estivesse num mau dia. Nem reparava na primavera dos jardim onde pass(e)ava em correria, nem que a poeira se ia agarrando subtilmente aos meus dedos e sandálias, nem que a relva estava mesmo bem tratada, nem que os bancos reluziam, vermelhos, entre a sombra e a luminosidade gritante do sol que brilhava com todo o esplendor. Foi então que vi. Tão raro! Tão bonito! Estavam serenamente sentados. As costas descansavam encostadas ao banco, as ancas dilatavam-se comodamente e tocavam-se de lado, uma das mãos de cada um ganhava mais 5 dedos do outro num entrelaçar de carinho. Os olhares não se cruzavam, as bocas fechavam-se em lábios finos e já vincados, as rugas desenhavam as formas do tempo nos rostos, os cabelos dançavam com a brisa que passava, brincando, grisalhos, em desalinho. Estavam felizes. Numa paz que poderia ser irritante no meio da minha correria. Mas não foi. Aquela imagem fez-me respirar. Acalmar. Tão velhinhos, tão pacíficos, tão enamorados, tão felizes. Olhavam em frente, cada um pensando no que queria, sem trocar impressões, guardando apenas a mão do outro dentro da sua. Apeteceu-me ficar ali. Falar com eles. Saber-lhes a história. Ou ficar só a olhar. A admirar a persistência com que se amam. Como mantêm um relação (é tão difícil construir e manter uma boa relação!). O telemóvel lá tocou. Já está fula. "Estou a ir" murmuro. (desligo e continuo o meu caminho).Estou a ir. Para onde?

sexta-feira, junho 09, 2006

Politiquices...

(este foi um daqueles textos que me enviam constantemente para o e-mail e a que eu não costumo ligar. Mas vindo da pessoa que mo enviou não podia ser igual aos outros textos inúteis e ridículos (alguns deles põem a nossa vida em risco!... =) que recebo. Li, ri-me e resolvi "postar". Porque este é um dos textos que, por ser tão original, eu nunca escrevi mas gostava de ter escrito.)

Discurso de um partido político...

... ANTES DE TOMAR POSSE

Nosso partido cumpre o que promete.

Só os tolos podem crer que

não lutaremos contra a corrupção.

Porque, se há algo certo para nós, é que

a honestidade e a transparência são fundamentais.

para alcançar nossos ideais

Mostraremos que é grande estupidez crer que

as máfias continuarão no governo, como sempre.

Asseguramos sem dúvida que

a justiça social será o alvo da nossa acção.

Apesar disso, há idiotas que imaginam que

se possa governar com as manchas da velha política.

Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que

se termine com os marajás e as negociatas.

Não permitiremos de nenhum modo que

nossas crianças morram de fome.

Cumpriremos nossos propósitos mesmo que

os recursos económicos do país se esgotem.

Exerceremos o poder até que

Compreendam que

Somos a nova política.

...DEPOIS DE TOMAR POSSE

Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA

quinta-feira, junho 08, 2006

E até eu me senti desaparecer

Estávamos sentadas na mesma mesa, uma mesa enorme, na sala de estudo para mestrandos e doutorandos das zoologias. Eu olhava para o meu calhamaço de constitucional, mas os meus pensamentos estavam longe. Chegou com algum alarido e começou a espalhar o material de estudo pela mesa. Mecanicamente, puxei as minhas coisas mais para perto de mim, não num súbito ataque de possessividade, mas por estar a ocupar quase metade daquela mesa enorme. "Deixa estar, não é preciso". E eu sorri.
Voltei a olhar para o calhamaço e apercebi-me do frio que estava naquela sala. Um calor insuportável lá fora e eu ali a sentir frio! Vira-se para mim de repente e pergunta-me: "Estás a guardar lugar para alguém?" Eu sorrio simpaticamente um sorriso meio forçado e digo que não.
Percebi que ela estava ansiosa. Decerto à espera de alguém. De um rapaz.
Viro a página do meu calhamaço, a saborear aquela ansiedade que ela sentia. É boa. É um nó no estômago que nos obriga a olhar para a porta ao mínimo ruído. E aquela pontinha de desilusão de cada vez que ela se fecha e não é ele...
Ela estava à espera Dele. Olhava para o relógio de cinco em cinco segundos e trocava mensagens pelo telemóvel. Depois olhava para os cadernos, escrevia umas frases e voltava a olhar para o relógio. Ela estava ansiosa. E até eu começava a sentir aquela ansiedade! Não havia maneira de me concentrar naquele calhamaço...
Ela estava à espera Dele.
Ele chegou. Era louro, lindo, com uns olhos azuis. Apenas olhei de relance, tal como apenas sentira a ansiedade de relance. Ele não me dizia respeito. Nem ela. Eles são dois e estavam visivelmente apaixonados. Mal ele entrou na sala, a ansiedade dela deu lugar a uma euforia magnífica! Eles eram dois, juntos, amados... tão lindos!
E até eu me senti desaparecer.

terça-feira, junho 06, 2006

Um prato de ervilhas

Há já muito tempo que quero pôr aqui esta pequena história. Primeiro, porque sempre que a leio acabo a rir e rir é bom e faz bem aos músculos da cara. Depois, porque me lembro sempre da minha co-bloguista Leonor, cuja relação com as ervilhas (sim, é isso mesmo: ervilhas!) é muito semelhante à descrita no conto. Além disso, ando sem inspiração (para lhe chamar uma coisa poética) para escrever o que quer que seja. Portanto, três boas razões para a pôr aqui. Faz parte de uma antologia organizada pelo escritor norte-americano Paul Auster que se chama Pensei que o meu pai era Deus. O escritor fez um programa de rádio em que lia histórias escritas pelo americano comum, histórias pessoais de amor, de guerra, de desconhecidos, de situações insólitas. Daí nasceu o livro. E aqui fica Um prato de ervilhas. Espero que se divirtam tanto quanto eu!

Um prato de ervilhas

O meu avô morreu quando eu era pequeno e a minha avó começou a ficar connosco cerca de seis meses por ano. Os meus pais reservaram-lhe um quarto a que chamávamos “o quarto dos fundos” e que não era só dela, visto que o meu pai também o usava como escritório. Para onde quer que fosse, a minha avó transportava uma nuvem de uma poderosa fragrância. Era aquele tipo de perfume que pode ser comparado a uma bebida que, de tão alcoólica, nos deixa rapidamente inconscientes, ou a uma espingarda de dois canos capaz de matar um alce de uma vez só. A arma do crime era um pulverizador enorme e a minha avó usava-a de uma forma tão liberal quanto assídua. Quem entrasse no quarto dela arriscava-se a sufocar. Quando ia passar os outros seis meses do ano com a tia Lillian, a minha mãe e as minhas irmãs abriam de par em par todas as janelas, retiravam a roupa da cama e punham os cortinados e os tapetes a apanhar ar. Depois, passavam vários dias a lavar e a arejar tudo, num frenético combate para erradicar o penetrante odor.
Assim era a minha avó na época em que se deu o ignominioso caso das ervilhas. A coisa passou-se no Biltomore Hotel, o qual, para a minha cabecinha de oito anos, era sem dúvida o mais chique dos locais para se comer fora em toda a cidade de Providence. A minha avó, a minha mãe e eu fomos almoçar ao Biltmore Hotel depois de uma manhã a fazer compras. Todo inchado, pedi um bife Salisbury, sabendo muito bem que, sob esse nome pomposo, se escondia um hambúrguer bem à maneira com montes de molho. Porém, quando me trouxeram o bife Salisbury, verifiquei, não sem surpresa, que vinha acompanhado de uma bandeja de ervilhas.
Eu não gosto de ervilhas. Não gostava de ervilhas quando tinha oito anos. Sempre odiei ervilhas. O facto de alguém comer ervilhas por sua livre e espontânea vontade é, para mim, um mistério verdadeiramente insondável. Eu não comia ervilhas em casa. Não comia ervilhas no restaurante. E é claro que não ia comê-las no Biltmore Hotel.
“Come as ervilhas”, disse a minha avó.
“Mãe”, disse a minha mãe com a sua voz de aviso. “Ele não gosta de ervilhas. Deixe-o em paz”.
A minha avó não respondeu, mas havia um brilho nos seus olhos e um arrepanho no seu queixo e boca que indicavam, de uma forma muito clara, que ela não permitiria que a contrariassem. Inclinou-se para mim, olhou-me bem nos olhos e proferiu a fatídicas palavras que numa questão de segundos, mudaram por completo a minha vida:
“Pago-te cinco dólares se comeres as ervilhas”.
Eu não fazia a menor ideia da triste sina que, nesse momento, avançava na minha direcção como uma daquelas esferas gigantescas usadas na demolição de edifícios. A única coisa que eu sabia era que cinco dólares era uma soma colossal, quase inimaginável, e que, por muito horríveis que as ervilhas pudessem ser, bastar-me-ia comer aquela pequena bandeja para ficar com os cinco dólares. E foi assim que, com grande esforço, comecei a engolir as nojentas bolinhas.
A minha mãe estava lívida. Quanto à minha avó, exibia aquele ar glorioso de quem acaba de jogar um trunfo invencível. “Eu posso fazer o que muito bem entender, Ellen, e não és tu que me vais impedir”. A minha mãe lançou-lhe um olhar assassino. Depois a ferocidade do seu olhar fixou-se em mim. No que toca a olhares assassinos, não há ninguém que bata a minha mãe. Se houvesse uma prova de olhares assassinos nas Olimpíadas, não tenho a menor dúvida de que ela ganharia a medalha de ouro.
Eu, obviamente, continuava a enfiar ervilhas pela garganta abaixo. Os olhares assassinos estavam a deixar-me nervoso e, de cada vez que engolia uma ervilha, só me apetecia vomitar, mas a mágica imagem dos cinco dólares flutuava diante dos meus olhos e, por muito enjoado que estivesse, a verdade é que a bandeja lá acabou por ficar vazia. Com algum aparato, a minha avó tirou a nota de cinco dólares e deu-ma. A minha mãe manteve-se calada, mas os seus olhos continuavam a fuzilar. E o episódio chegou ao fim. Ou pelo menos era o que eu pensava.
A minha avó foi para casa da tia Lillian umas semanas depois. Nessa noite, ao jantar, a minha mãe serviu duas das coisas de que eu mais gostava e continuo a gostar: rolo de carne e puré de batata. Mas o rolo e o puré não vinham sozinhos: tinham a companhia de uma grande e fumegante tigela de ervilhas. Ofereceu-me algumas ervilhas e eu, nos derradeiros momentos da minha inocência infantil, recusei. A minha mãe fixou-me com um olhar cortante enquanto punha um monte enorme de ervilhas no meu prato. E foi então que, pela primeira vez, ouvi as palavras que haviam de perseguir-me durante anos.
“Comeste-as por dinheiro”, disse ela, “Também podes comê-las por amor.”
Oh desespero! Oh devastação! Só agora – demasiado tarde! – me apercebia de que, involuntariamente, condenara a minha pobre pessoa a um inferno de que não havia escapatória possível.
“Comeste-as por dinheiro. Também podes comê-las por amor.”
Haveria alguma coisa que eu pudesse contrapor a isto? Não, não havia nada. Se comi as ervilhas? Oh, pois claro que comi! Comi-as nesse dia e em todos os dias em que a minha mãe as serviu. Os cinco dólares gastei-os num instante. A minha avó faleceu passados alguns ano. Mas o legado das ervilhas sobreviveu-lhe – sobrevive ainda hoje. Sempre que me serve ervilhas e vê um esgar de enjoo, por muito leve que seja, na minha cara (porque a verdade é que continuo a odiar as horrorosas bolinhas verdes), a minha mãe repete, pela enésima vez, as temíveis palavras:
“Comeste-as por dinheiro. Também podes comê-las por amor.”

Rick Beyer

sábado, junho 03, 2006

Advérbio de modo II

Queria só, interrompendo o meu estudo por instantes, mostrar um cherinho da imponente fonte de inspiração do poema "advérbio da modo" da minha querida co-bloguista. A fonte tem nem mais nem menos do que 911 páginas espalhafatosa, indiscreta e verborreicamente salpicadas com pequenas maravilhas como esta :

"... o mencionado problema - o problema jurídico concretamente decidendo - não é empirico-atomisticamente considerado e referencial-fundamentantemente indiferente, mas histórico-situacionalmente relevado e normativo-juridicamente intencionado."

Um verdadeiro desafio de exegese textual!

(e isto não é nada!... =)

domingo, maio 28, 2006

Humildade

"Para Cristo... sobe-se, descendo."

Uma das frases que sempre me intrigou mas que, compreendida, tem mesmo sentido. Na homilía de hoje o padre Carlos falou exactamente disto. De como podemos sempre subir mais e mais e mais para poder abrir os braços e partilharmos um abraço com Cristo. E como o conseguimos? Com a Humildade. A Humildade é muitas vezes entendida (mal, a meu ver) como o valor de quem se esconde, de quem se auto-diminui sempre, de quem se faz de "humildezinho" para alguém o valorizar. A Humildade é muito mais. Não é sinónimo de "coitadinho", nem antónimo de "todo inchado", "convencido", "empipado", "emproado". A Humildade é sermos nós. Com os defeitos e virtudes da pele que vestimos, do corpo e mente que somos. É sabermos qual é o nosso lugar no mundo consoante aquilos que vamos descobrindo em nós e explorarmo-nos ao máximo servindo os outros e fazendo outros felizes. Não é subindo atabalhoadamente, à custa do próximo, com pressa de "viver o momento", com medo de perder a oportunidade. É descendo ao nosso lugar, descobrindo-nos, aceitando-nos, libertando-nos dos medos que se colam à nossa pele, servindo e amando, que vamos escalando o caminho até Cristo.

Assim como Cristo subiu aos céus depois de ter descido à terra.

sábado, maio 20, 2006

Cinco minutos

Tenho cinco minutos para me lamentar.
Cinco minutos para lamentar as más escolhas que fiz: cinco minutos para lamentar a má gestão do meu tempo, cinco minutos para lamentar a má gestão das minhas capacidades, cinco minutos para lamentar as minhas incapacidades e o meu cansaço. Tenho estes cinco minutos para lamentar tudo o que me põe hoje tão nervosa, cinco minutos de eternidade para lamentar tudo o que me apetece. Posso ainda lamentar tudo aquilo que não fiz porque fui demasiado preguiçosa, porque me preocupei demasiado com o que os outros pensavam de mim, porque me foi mais fácil renunciar à minha vontade e ver simplesmente os outros fazê-lo, como mera observadora. Tenho cinco minutos para me lamentar de todos os bloqueios mentais e paranóias que por vezes, e como a todos nós, me deixam imobilizada numa lamentação idiota. Tenho cinco minutos, cinco inteirinhos minutos para me embrulhar numa profunda lamentação.
Depois desses cinco minutos, lavo a cara e enfrento o mundo com um sorriso e um outro olhar, bem mais positivo e gratificante. Arregaço as mangas e deito mãos à obra cheia de energia. Sem mais lamentações.

domingo, maio 14, 2006

outro olhar...

A Queima acabou. embora para muitos comece por ser um óptimo período de festas e não acabe assim tão bem, para mim foi mesmo boa.

Não ultrapassei limites e aproveitei para estar com pessoas que muito estimo. Estive com a minha querida irmã, dancei com quase todos os amigos (os que vejo todos os dias e os que quase nunca vejo), tracei a capa, vesti o traje quase todos os dias, andei com bolhas nos pés e fiquei com calos, ri-me imenso (talvez demasiado), consegui estudar qualquer coisita, descobri novas pessoas, vi professoras queridas de quem já sentia saudades, visitei a antiga escola... em suma, foi bom.

Agora volto aos estudos e à rotina. Ter uma semana de paragem soube bem e foi suficiente para estoirar mas também recarregar baterias.

A Queima bem vivida pode ser bem aproveitada. Para quem sabe dosear o fogo e o combustível ela pode ser, sem dúvida, uma grande festa. Sem Queimar ninguém.

Um olhar...

"E assim passou mais uma Queima das fitas pela cidade de Coimbra". Tenho pena que esta seja sinónimo de outras frases como "E assim passou mais um mar de cerveja que pôs os estudantes à deriva durante 8 dias pela cidade de Coimbra"; "E assim passou mais um período de pura loucura e abandono aos vícios pela cidade de Coimbra"; "E assim passou mais um período de enchimento embriagado do Hospital Universitário pela cidade de coimbra";

Cada vez mais a Queima queima Coimbra. Deteriora a imagem de tanto prestígio que, justa ou injustamente, perfuma a nossa Universidade. Deteriora a estudantada que cada vez mais vive para a Queima, se perde na Queima. Deteriora os organismos. Deixa Queimaduras a muita gente... que levou com um caco de vidro na perna e ficou com a cicratiz, que entrou em coma porque tinha de "ser da malta", que não se lembra como mas está grávida.

A Queima deixa-me a pensar. Pensar que cada vez menos se reconhece o limite nas coisas, que toda a gente ignora que a palavra liberdade é sinónimo de responsabilidade, que cada vez somos menos originais nos nossos divertimentos, que cada vez mais a malta jovem se enterra no que apetece, no que explode no momento, no que pede o "agora ou nunca" e esquece que há tanto mais para além disso. Tudo isto me entristece porque eu não sou mais velha. Não me ponho fora do quadro para o apreciar. Estou lá dentro. Entristece-me porque pouco posso fazer e não acredito em consciencializações, já que nesta idade a nossa consciência vai começando a estar formada, já começamos a saber o que queremos, ou, pelo menos, já a temos teimosamente dura para a querermos ou podermos moldar. E, assim, ir dançar para cima de um balcão de bebidas expondo o meu corpo e deixando que me toquem é consciente. Beber até cair é consciente. Atirar-me ao rio para fazer uma corrida com um amigo é consciente. Deixar-me ir no que ditam as hormonas e ficar com um filho nos braços é consciente.

Há quem diga que somos a "geração rasca". Eu cá acho que somos cada vez mais a "geração tasca".

terça-feira, maio 02, 2006

O cair do pano

Dediquei todo o meu tempo das duas últimas semanas (e, verdade seja dita, quase todo o meu tempo deste ano lectivo) ao teatro. Finalmente, após imensas dores de cabeça, o espectáculo ficou pronto e foi apresentado, ao longo desta semana, ao público. Das duas cenas que mais me marcaram (e não, eu não estou em nenhuma delas!:)), há uma que mexeu particularmente comigo. É uma cena em que cinco fuzilados lêem as suas cartas de despedida.
O cair do pano chegou, para a minha avó, há pouco mais de dois anos. Dela guardo poucas memórias. O que mais sinto é uma culpa vaga, um quase arrependimento, ou talvez uma saudade estranha por ter vivido sempre na distância. As saudades que sinto – esta espécie de saudade – não são dela, mas sim de não ter crescido perto dela e de só ter estado presente na velhice e na doença.
O momento mais feliz vivemo-lo à entrada daquela casa velha, a meio caminho entre a porta e a eira de secar o milho. Que idade teríamos, eu e a minha irmã? Só me lembro do sorriso rasgado da minha avó e de lhe ver nos olhos pretos umas rugas doces e felizes. Ela estava sentada com uma manta sobre as pernas, mas a mão segurava ainda com alguma firmeza a raquete de praia e ela jogava como podia aquele jogo pateta com as netinhas. A bola raras vezes estava no ar, mas nós riamos as três e a minha avó levava a mão direita à cabeça, sempre a rir, e desfazia-se no seu amor por nós, sentindo-se tão próxima das netas, jogando os seus jogos e rindo com elas… Tenho a certeza de que nessa tarde a minha avó correu connosco pela eira, pelo quintal, pela vila inteira! – Talvez até tenha voado.
Sei pouco sobre a sua vida, que pressinto muito sofrida, solitária e cheia de repressões. O meu avó, que com a velhice se tornou mais meigo e brincalhão, foi, decerto, um rígido pai de família. Do pouco que sei, a minha avó nunca trabalhou. Cuidava dos filhos e da casa. Imagino-a sempre entre quatro paredes, sem ar. E com grades na janela.
Curiosamente lembro-me da voz e do riso. Ouço-os, ainda, na minha cabeça, como peças de um puzzle que, pouco a pouco, vou reconstruindo.
Da sua doença lembro-me bem. Mas essa prefiro não recordar, não sei se porque me é doloroso, se por pudor, ou simplesmente porque prefiro lembrar-me sempre dela sentada com a manta sobre as pernas a rir com as netas. Claro que me lembro da degradação do corpo até aos limites do que é ser-se humano, mas já há demasiado sensacionalismo nas imagens que correm todos os dias e os destroços e desastres tornaram-se tão banais que já não nos tocam a maioria das vezes. Defende-se o corpo, e as lágrimas já não escorrem da alma tão facilmente.
Ouço a carta de fuzilada de uma menina de 17 anos e meio e penso em mim, mas penso também na minha avó, que toda a sua vida foi prisioneira. Penso nessa menina que morreu, algures, sem alcançar a maioridade sequer, e penso na minha avó, que chegou à terceira idade e sofreu no corpo e na cabeça o peso de uma doença devastadora. Penso em mim, também, nos meus amigos e no mundo de liberdades em que hoje vivemos. Penso nas nossas prisões, nos nossos conflitos, nas nossas barreiras e nas nossas ilusões de imortalidade. Penso no que será saber-se que se vai morrer passadas umas horas, penso no que é saber-se que se vai morrer a qualquer momento. Penso no que será já nem se aperceber de que se está vivo, não se aperceber de que se vai morrer.
Eu não me despedi da minha avó, mas ficarei para sempre agradecida por termos almoçado todos com ela no primeiro dia de uma ano que acabara de começar. Não me lembro de pormenores. Na verdade, só me lembro do olhar vazio da minha avó, do seu silêncio. Ela já não tinha consciência de nada.
A minha avó não nos escreveu nenhuma carta, mas já todos sabíamos que não faltava muito para o cair do pano. Fiquei triste, mas aliviada, quando os meus pais me contaram que a avó Ana tinha morrido, no dia 2 de Janeiro. E eu não pude deixar de pensar “Ainda bem que fomos lá ontem.”

quarta-feira, abril 26, 2006

Tempo

Vinte e quatro horas…

Quarenta e oito horas…
Setenta e duas horas…
O tempo passa e os dias são todos tão iguais…
Eu gostava de encontrar a elasticidade dos dias, desdobrá-los aos bocadinhos, em pequenos segmentos, talvez, ou então em longos metros de momentos, e tudo tão intenso, tão intenso que até as pausas e o descanso seriam intensamente sentidos…
Eu gostava de estar em todas as coisas com a mesma força e vontade com que se está naquilo que se ama… e gostava de não faltar a nada, de não perder nada, de poder estar em vários sítios e com várias pessoas ao mesmo tempo… e gostava de não perder ninguém, gostava que não houvesse mal-entendidos, nem desilusões, nem sentimentos confusos, nem ressentimentos, nem falta de comunicação, nem desentendimentos, nem afastamentos, nem dor, nem tristeza, nem mágoa, nem desilusão… e gostava de estar em harmonia com tudo.
Ou talvez gostasse simplesmente de ter tempo para desperdiçar. Realmente só temos consciência da importância das coisas quando de repente ficamos sem elas. Tenho sede de tempo, uma sede insaciável de um tempo a mais - e só para mim. (Desta vez, só para mim)

quinta-feira, abril 13, 2006

Praxividências...

Acordei hoje com vontade de deixar bem claro num post a minha "praxividência". Vidência porque não consigo ainda tomar uma posição face a este assunto que despoleta sempre uma diversidade de sentimentos e emoções de revolta, de alegria, de desilusão, de euforia, de náusea, de excitação, de dó. Tomar uma posição significaria assumi-la em pleno e não me identificar com a outra posição que abandonei. Até porque nesta questão da praxe só há três atitudes a ter: aderir, declarar-se anti-praxe e ser indiferente. A indiferença reserva-se apenas aos que já não são caloirinhos e se podem dar ao luxo de não serem constantemente praxados e, por isso, por mais que queira que a praxe ma passe ao lado (e nem o quero assim tanto) ela viria ter comigo (ela anda aí!... =). O declarar-me anti-praxe obrigar-me-ia a recusar toda a verdadeira praxe de Coimbra ( a tradição, o traje, a queima, tudo aquilo que eu acho mágico nesta cidade e que é o verdadeiro factor de atracção de estudantes à universidade) além de que limitar-me-ia a deixar nas mão de outros o problema, aquilo que eu tanto critico. A adesão é, sem dúvida, a posição mais fácil, como é tudo na vida. O "ir na onda", "ir com a carneirada", "fazer como os outros", "fazer porque sim",... o que não faz de todo o meu género e que acaba por não ser verdadeiramente uma tomada de posição. É simplesmente não pensar nisso e ir com os outros.

Claro que estas são as posições que se podem tomar vistas de uma maneira objectiva. Porque cada um tem a sua posição ou reacção à praxe. Por mim falo. Fui obrigada a aderir à praxe 2 ou 3 vezes. As primeiras duas, embora tivessem sido provavelmente as tardes mais secantes da minha vida, foram na primeira semana de aulas na faculdade. Ia preparada para isso, com algum espírito para tentar ver o lado positivo da coisa, mas a praxe resumiu-se a andarmos de um lado para o outro, a cantar músicas mesmo ordinárias, a fazer figuras tristes no meio da rua,... e comecei a sentir na pele que a praxe não é de modo algum um modo de integração mas é uma maneira de os pseudo-doutores (sim, porque alguns dos que me praxam são meus colegas em quase todas as cadeiras.) se divertirem connosco. E a partir daí comecei a revoltar-me a sério. Principalmente quando me apercebi que a "praxe-integração" também era praticada no 2º semestre de aulas!! Fui praxada uma terceira vez na 2ª semana de aulas do 2º semestre. Já conheço muita gente na faculdade e não preciso da ajuda de uns quaisquer desconhecidos que me vão amigavelmente integrar! No segundo semestre? Que ridículo! Admito que posso ficar a conhecer caras na praxe ("Olha! Aquele é o que fez o pudim danone com aquela no meio da praça!") mas amigos só os faço se quiser, se houver vontade de partilhar, se houver vontade de conhecer o outro. Para mim a integração é ficar em paz com uma qualquer situação nova com que me envolvi... é sentir-me bem com qualquer coisa. É encontrar pontos de apoio num sítio novo. A praxe (como eu a vivi) é o elemento destabilizador, "despacificante".

Há quem diga "Dizes isso mas para o ano vamos ver quem anda a praxar!". É verdade. Para o ano tenciono praxar os caloiros. Mas não vai ser uma praxe igual à minha. Uma praxe de desintegração. Os jogos que fiz na minha praxe puxaram somente para o individual. Para o cantar canções e andar em fila indiana. Como é que é suposto eu conhecer pessoas se só vejo o rabo de uma e ouço a voz de outra atrás? Há tantos jogos que podem verdadeiramente aproximar as pessoas. Jogos inteligentes e com piada. Que se costumam fazer em campos de férias, por exemplo, para que as pessoas quebrem as barreiras do desconhecimento. Não apoio a ideia de que podem sair dali os maiores amigos do mundo. Mas a praxe bem feita pode dar um empurrãozinho verdadeiramente amigo e não egoísta e para auto-satisfazer o meu egozinho. Sei que há, de facto, amizades que nasceram em praxes. Mas a praxe tem de proporcionar isso!

Por isso é que uma verdadeira praxe não nos revolta e até nos ajuda a ver as coisas de outro modo. Até nos conseguimos divertir. Por isso é que não me quero desprender, declarar-me anti, e deixar os caloiros nas mãos de pessoas que estão a acumular as praxes deste ano e as tencionam despejar em cima do próximo caloiro. Prefiro pôr eu as mãos à obra, tentar mudar as coisas por dentro e não ficar-me pelo "lambe-botas" aos doutores, pela crítica e o mal-dizer, tornando-me completamente improdutiva. São estas as nossas pequenas missões que temos de agarrar. Há, de facto, muito para fazer no mundo. E são estes desafios que nos incomodam, desacomodam, nos abrem os olhos e nos picam o rabo dizendo "está nas tuas mãos".

quinta-feira, abril 06, 2006

Aos meus animadores... =)

Naquela noite Ele soube que tinha de agir. Soube que era já o momento. Soube que aquilo por que muitos ansiavam tinha de começar a acontecer. Que as conversas foram abrindo caminho mas tão lentamente, de mansinho, pela calada. Assim, estendeu as mão, baixou-as lentamente e pegou nos fios coloridos deles e começou a uni-los, a criar laços... que agora vai apertando... devagarinho... esperando chegar ao nó. . Dantes, agora, depois. Dantes fio, agora laço, depois nó. . Deus dá nóses a quem tem dantes. . . . É tarde e pode nada do que está acima ter sentido. Para mim tem. Foi escrito para Ele. Por isso também Ele entenderá. E eu também sei e Ele também sabe e todos nós sabemos que há falta de nós e coloridos. De laços (e coloridos) que formem nós (... que tal coloridos?)... e de nós que formem um nós. E não nós que (de)formem um eu. O eu acaba sempre por dar nós no seu próprio fio... enrodilhar-se no seu inevitável desfiar... . O laço até pode criar eu... Mas que seria da beleza do nó se este tivesse só uma cor? . . . (às vezes não vos apetece escrever assim? sem filtrar nada do que está na alma? Ah!Doce anarquia =) Isto ta cada vez pior... boa noite e até amanha. desculpem qualquer coisinha).

quarta-feira, abril 05, 2006

são dias que passam... horas que vão

Sentei-me só e senti-me só.
Um vazio enorme percorria-me as veias
E enchia-me de oco... de fome... de pouco.
O vento que passava
Podia levar-me numa só lufada.
Eu deixar-me-ia ir
Em inércia consciente
Sem lutar contra nada, ninguém,
Levada de encontro a nada
Ao encontro de ninguém.
O que foi que me prendeu aqui?
onde não me sei... onde não me encontro...
Onde me perdi.