domingo, maio 14, 2006

Um olhar...

"E assim passou mais uma Queima das fitas pela cidade de Coimbra". Tenho pena que esta seja sinónimo de outras frases como "E assim passou mais um mar de cerveja que pôs os estudantes à deriva durante 8 dias pela cidade de Coimbra"; "E assim passou mais um período de pura loucura e abandono aos vícios pela cidade de Coimbra"; "E assim passou mais um período de enchimento embriagado do Hospital Universitário pela cidade de coimbra";

Cada vez mais a Queima queima Coimbra. Deteriora a imagem de tanto prestígio que, justa ou injustamente, perfuma a nossa Universidade. Deteriora a estudantada que cada vez mais vive para a Queima, se perde na Queima. Deteriora os organismos. Deixa Queimaduras a muita gente... que levou com um caco de vidro na perna e ficou com a cicratiz, que entrou em coma porque tinha de "ser da malta", que não se lembra como mas está grávida.

A Queima deixa-me a pensar. Pensar que cada vez menos se reconhece o limite nas coisas, que toda a gente ignora que a palavra liberdade é sinónimo de responsabilidade, que cada vez somos menos originais nos nossos divertimentos, que cada vez mais a malta jovem se enterra no que apetece, no que explode no momento, no que pede o "agora ou nunca" e esquece que há tanto mais para além disso. Tudo isto me entristece porque eu não sou mais velha. Não me ponho fora do quadro para o apreciar. Estou lá dentro. Entristece-me porque pouco posso fazer e não acredito em consciencializações, já que nesta idade a nossa consciência vai começando a estar formada, já começamos a saber o que queremos, ou, pelo menos, já a temos teimosamente dura para a querermos ou podermos moldar. E, assim, ir dançar para cima de um balcão de bebidas expondo o meu corpo e deixando que me toquem é consciente. Beber até cair é consciente. Atirar-me ao rio para fazer uma corrida com um amigo é consciente. Deixar-me ir no que ditam as hormonas e ficar com um filho nos braços é consciente.

Há quem diga que somos a "geração rasca". Eu cá acho que somos cada vez mais a "geração tasca".

terça-feira, maio 02, 2006

O cair do pano

Dediquei todo o meu tempo das duas últimas semanas (e, verdade seja dita, quase todo o meu tempo deste ano lectivo) ao teatro. Finalmente, após imensas dores de cabeça, o espectáculo ficou pronto e foi apresentado, ao longo desta semana, ao público. Das duas cenas que mais me marcaram (e não, eu não estou em nenhuma delas!:)), há uma que mexeu particularmente comigo. É uma cena em que cinco fuzilados lêem as suas cartas de despedida.
O cair do pano chegou, para a minha avó, há pouco mais de dois anos. Dela guardo poucas memórias. O que mais sinto é uma culpa vaga, um quase arrependimento, ou talvez uma saudade estranha por ter vivido sempre na distância. As saudades que sinto – esta espécie de saudade – não são dela, mas sim de não ter crescido perto dela e de só ter estado presente na velhice e na doença.
O momento mais feliz vivemo-lo à entrada daquela casa velha, a meio caminho entre a porta e a eira de secar o milho. Que idade teríamos, eu e a minha irmã? Só me lembro do sorriso rasgado da minha avó e de lhe ver nos olhos pretos umas rugas doces e felizes. Ela estava sentada com uma manta sobre as pernas, mas a mão segurava ainda com alguma firmeza a raquete de praia e ela jogava como podia aquele jogo pateta com as netinhas. A bola raras vezes estava no ar, mas nós riamos as três e a minha avó levava a mão direita à cabeça, sempre a rir, e desfazia-se no seu amor por nós, sentindo-se tão próxima das netas, jogando os seus jogos e rindo com elas… Tenho a certeza de que nessa tarde a minha avó correu connosco pela eira, pelo quintal, pela vila inteira! – Talvez até tenha voado.
Sei pouco sobre a sua vida, que pressinto muito sofrida, solitária e cheia de repressões. O meu avó, que com a velhice se tornou mais meigo e brincalhão, foi, decerto, um rígido pai de família. Do pouco que sei, a minha avó nunca trabalhou. Cuidava dos filhos e da casa. Imagino-a sempre entre quatro paredes, sem ar. E com grades na janela.
Curiosamente lembro-me da voz e do riso. Ouço-os, ainda, na minha cabeça, como peças de um puzzle que, pouco a pouco, vou reconstruindo.
Da sua doença lembro-me bem. Mas essa prefiro não recordar, não sei se porque me é doloroso, se por pudor, ou simplesmente porque prefiro lembrar-me sempre dela sentada com a manta sobre as pernas a rir com as netas. Claro que me lembro da degradação do corpo até aos limites do que é ser-se humano, mas já há demasiado sensacionalismo nas imagens que correm todos os dias e os destroços e desastres tornaram-se tão banais que já não nos tocam a maioria das vezes. Defende-se o corpo, e as lágrimas já não escorrem da alma tão facilmente.
Ouço a carta de fuzilada de uma menina de 17 anos e meio e penso em mim, mas penso também na minha avó, que toda a sua vida foi prisioneira. Penso nessa menina que morreu, algures, sem alcançar a maioridade sequer, e penso na minha avó, que chegou à terceira idade e sofreu no corpo e na cabeça o peso de uma doença devastadora. Penso em mim, também, nos meus amigos e no mundo de liberdades em que hoje vivemos. Penso nas nossas prisões, nos nossos conflitos, nas nossas barreiras e nas nossas ilusões de imortalidade. Penso no que será saber-se que se vai morrer passadas umas horas, penso no que é saber-se que se vai morrer a qualquer momento. Penso no que será já nem se aperceber de que se está vivo, não se aperceber de que se vai morrer.
Eu não me despedi da minha avó, mas ficarei para sempre agradecida por termos almoçado todos com ela no primeiro dia de uma ano que acabara de começar. Não me lembro de pormenores. Na verdade, só me lembro do olhar vazio da minha avó, do seu silêncio. Ela já não tinha consciência de nada.
A minha avó não nos escreveu nenhuma carta, mas já todos sabíamos que não faltava muito para o cair do pano. Fiquei triste, mas aliviada, quando os meus pais me contaram que a avó Ana tinha morrido, no dia 2 de Janeiro. E eu não pude deixar de pensar “Ainda bem que fomos lá ontem.”

quarta-feira, abril 26, 2006

Tempo

Vinte e quatro horas…

Quarenta e oito horas…
Setenta e duas horas…
O tempo passa e os dias são todos tão iguais…
Eu gostava de encontrar a elasticidade dos dias, desdobrá-los aos bocadinhos, em pequenos segmentos, talvez, ou então em longos metros de momentos, e tudo tão intenso, tão intenso que até as pausas e o descanso seriam intensamente sentidos…
Eu gostava de estar em todas as coisas com a mesma força e vontade com que se está naquilo que se ama… e gostava de não faltar a nada, de não perder nada, de poder estar em vários sítios e com várias pessoas ao mesmo tempo… e gostava de não perder ninguém, gostava que não houvesse mal-entendidos, nem desilusões, nem sentimentos confusos, nem ressentimentos, nem falta de comunicação, nem desentendimentos, nem afastamentos, nem dor, nem tristeza, nem mágoa, nem desilusão… e gostava de estar em harmonia com tudo.
Ou talvez gostasse simplesmente de ter tempo para desperdiçar. Realmente só temos consciência da importância das coisas quando de repente ficamos sem elas. Tenho sede de tempo, uma sede insaciável de um tempo a mais - e só para mim. (Desta vez, só para mim)

quinta-feira, abril 13, 2006

Praxividências...

Acordei hoje com vontade de deixar bem claro num post a minha "praxividência". Vidência porque não consigo ainda tomar uma posição face a este assunto que despoleta sempre uma diversidade de sentimentos e emoções de revolta, de alegria, de desilusão, de euforia, de náusea, de excitação, de dó. Tomar uma posição significaria assumi-la em pleno e não me identificar com a outra posição que abandonei. Até porque nesta questão da praxe só há três atitudes a ter: aderir, declarar-se anti-praxe e ser indiferente. A indiferença reserva-se apenas aos que já não são caloirinhos e se podem dar ao luxo de não serem constantemente praxados e, por isso, por mais que queira que a praxe ma passe ao lado (e nem o quero assim tanto) ela viria ter comigo (ela anda aí!... =). O declarar-me anti-praxe obrigar-me-ia a recusar toda a verdadeira praxe de Coimbra ( a tradição, o traje, a queima, tudo aquilo que eu acho mágico nesta cidade e que é o verdadeiro factor de atracção de estudantes à universidade) além de que limitar-me-ia a deixar nas mão de outros o problema, aquilo que eu tanto critico. A adesão é, sem dúvida, a posição mais fácil, como é tudo na vida. O "ir na onda", "ir com a carneirada", "fazer como os outros", "fazer porque sim",... o que não faz de todo o meu género e que acaba por não ser verdadeiramente uma tomada de posição. É simplesmente não pensar nisso e ir com os outros.

Claro que estas são as posições que se podem tomar vistas de uma maneira objectiva. Porque cada um tem a sua posição ou reacção à praxe. Por mim falo. Fui obrigada a aderir à praxe 2 ou 3 vezes. As primeiras duas, embora tivessem sido provavelmente as tardes mais secantes da minha vida, foram na primeira semana de aulas na faculdade. Ia preparada para isso, com algum espírito para tentar ver o lado positivo da coisa, mas a praxe resumiu-se a andarmos de um lado para o outro, a cantar músicas mesmo ordinárias, a fazer figuras tristes no meio da rua,... e comecei a sentir na pele que a praxe não é de modo algum um modo de integração mas é uma maneira de os pseudo-doutores (sim, porque alguns dos que me praxam são meus colegas em quase todas as cadeiras.) se divertirem connosco. E a partir daí comecei a revoltar-me a sério. Principalmente quando me apercebi que a "praxe-integração" também era praticada no 2º semestre de aulas!! Fui praxada uma terceira vez na 2ª semana de aulas do 2º semestre. Já conheço muita gente na faculdade e não preciso da ajuda de uns quaisquer desconhecidos que me vão amigavelmente integrar! No segundo semestre? Que ridículo! Admito que posso ficar a conhecer caras na praxe ("Olha! Aquele é o que fez o pudim danone com aquela no meio da praça!") mas amigos só os faço se quiser, se houver vontade de partilhar, se houver vontade de conhecer o outro. Para mim a integração é ficar em paz com uma qualquer situação nova com que me envolvi... é sentir-me bem com qualquer coisa. É encontrar pontos de apoio num sítio novo. A praxe (como eu a vivi) é o elemento destabilizador, "despacificante".

Há quem diga "Dizes isso mas para o ano vamos ver quem anda a praxar!". É verdade. Para o ano tenciono praxar os caloiros. Mas não vai ser uma praxe igual à minha. Uma praxe de desintegração. Os jogos que fiz na minha praxe puxaram somente para o individual. Para o cantar canções e andar em fila indiana. Como é que é suposto eu conhecer pessoas se só vejo o rabo de uma e ouço a voz de outra atrás? Há tantos jogos que podem verdadeiramente aproximar as pessoas. Jogos inteligentes e com piada. Que se costumam fazer em campos de férias, por exemplo, para que as pessoas quebrem as barreiras do desconhecimento. Não apoio a ideia de que podem sair dali os maiores amigos do mundo. Mas a praxe bem feita pode dar um empurrãozinho verdadeiramente amigo e não egoísta e para auto-satisfazer o meu egozinho. Sei que há, de facto, amizades que nasceram em praxes. Mas a praxe tem de proporcionar isso!

Por isso é que uma verdadeira praxe não nos revolta e até nos ajuda a ver as coisas de outro modo. Até nos conseguimos divertir. Por isso é que não me quero desprender, declarar-me anti, e deixar os caloiros nas mãos de pessoas que estão a acumular as praxes deste ano e as tencionam despejar em cima do próximo caloiro. Prefiro pôr eu as mãos à obra, tentar mudar as coisas por dentro e não ficar-me pelo "lambe-botas" aos doutores, pela crítica e o mal-dizer, tornando-me completamente improdutiva. São estas as nossas pequenas missões que temos de agarrar. Há, de facto, muito para fazer no mundo. E são estes desafios que nos incomodam, desacomodam, nos abrem os olhos e nos picam o rabo dizendo "está nas tuas mãos".

quinta-feira, abril 06, 2006

Aos meus animadores... =)

Naquela noite Ele soube que tinha de agir. Soube que era já o momento. Soube que aquilo por que muitos ansiavam tinha de começar a acontecer. Que as conversas foram abrindo caminho mas tão lentamente, de mansinho, pela calada. Assim, estendeu as mão, baixou-as lentamente e pegou nos fios coloridos deles e começou a uni-los, a criar laços... que agora vai apertando... devagarinho... esperando chegar ao nó. . Dantes, agora, depois. Dantes fio, agora laço, depois nó. . Deus dá nóses a quem tem dantes. . . . É tarde e pode nada do que está acima ter sentido. Para mim tem. Foi escrito para Ele. Por isso também Ele entenderá. E eu também sei e Ele também sabe e todos nós sabemos que há falta de nós e coloridos. De laços (e coloridos) que formem nós (... que tal coloridos?)... e de nós que formem um nós. E não nós que (de)formem um eu. O eu acaba sempre por dar nós no seu próprio fio... enrodilhar-se no seu inevitável desfiar... . O laço até pode criar eu... Mas que seria da beleza do nó se este tivesse só uma cor? . . . (às vezes não vos apetece escrever assim? sem filtrar nada do que está na alma? Ah!Doce anarquia =) Isto ta cada vez pior... boa noite e até amanha. desculpem qualquer coisinha).

quarta-feira, abril 05, 2006

são dias que passam... horas que vão

Sentei-me só e senti-me só.
Um vazio enorme percorria-me as veias
E enchia-me de oco... de fome... de pouco.
O vento que passava
Podia levar-me numa só lufada.
Eu deixar-me-ia ir
Em inércia consciente
Sem lutar contra nada, ninguém,
Levada de encontro a nada
Ao encontro de ninguém.
O que foi que me prendeu aqui?
onde não me sei... onde não me encontro...
Onde me perdi.

terça-feira, março 28, 2006

Dura praxis, sed praxis II

Acordei hoje bem-disposta, com vontade de agarrar o mundo todo com um abraço, com vontade de ser útil, de produzir, de criar, de inventar… Não invejei ninguém em especial, também não me adorei. Simplesmente sacudi as angústias quando me levantei e rumei à minha faculdade (até já a chamo minha… isto está grave!).

Passei a porta férrea descontraidamente, mas mal a deixo, ouço atrás de mim uma voz: “Caloirinha!” Sem qualquer símbolo académico a não ser a pasta, esta minha “doutora”, que várias vezes já me fez berrar os meus pulmões, não me é mais do que uma simples mortal. Não fosse a pasta, poderia até ser uma miúda do secundário. Simpatizo com o tom dela: “Vais às aulas? Vocês hoje vão sofrer muito… Vai haver uma mega praxe!” Oh, tá bem. Já fugi vezes de mais antes, hoje quero lá saber. Vou às aulas! E um sorriso confiante nasceu-me nos lábios.

Tive uma aula, que não acrescentou grande coisa à minha pessoa, sem grupos de praxe à vista. E lá ia eu toda contentinha para a segunda e última aula – “Que bom, depois disto tenho o dia todo por minha conta, maravilha!”. Pois sim. Saio da sala e lá estão as hienas juntinhas à minha espera. Finjo que não é nada comigo (que coisa mais estúpida! Mais valia ter sido natural…) e, obviamente: “É caloira? Então está mobilizada. Encoste-se à parede!”. Ó vida! Ó tempo! Quando é que isto irá acabar?!

Peripécias, muitas, e eu encostada a uma canto a ver “a banda passar”. Mas sem rancor. Diverti-me imenso a observar de perto estas supra-personalidades dos comuns mortais que trajam. É lindo ver esta estranha segurança que um traje dá a pessoas que se cheira à distância serem inseguras.

Picardia com os de medicina, as cantigas do costume, mas com um espírito saudável de respeito que ainda não tinha encontrado. Não houve cenas obscenas, actos humilhantes. Umas cançõezinhas, uns desfiles inocentes, pequenas coisas sem quintos significados.

Estranho como pode ter sido esta a minha reconciliação com as tradições praxísticas que tanto e tão rancorosamente condenei antes. Continuo a não perceber porquê nesta altura do ano, porquê impedir os caloiros de ir às aulas, porquê tanto estardalhaço. E continuo sem perceber as coisas vergonhosas que continuam a acontecer. Mas já não me revolto. Para quê? Hoje vi as pessoas para lá do traje. Hoje vi pessoas com ideias engraçadas e um espírito bonito que, houvesse espaços e vontade para isso, poderiam ser muito bem usadas. Para lá do traje, vi pessoas que nunca tinha visto antes. Talvez tenha sido sempre praxada por ignorantes e frustrados, mas hoje fui bem praxada e, tenho de engolir o meu orgulho artístico e admiti-lo, não desgostei. Ou pelo menos não odiei. É claro que há mil outras coisas com que gostaria de ocupar o meu tempo, mas desta vez não me senti esmagada por uma fatalidade revoltante, nem experimentei aquela sensação de opressão e impotência que tanto incomoda. Para lá do traje, imaginei pessoas interessantes e com dons diferentes: um dom de entreter, um dom de conversar, um dom de ouvir, um dom de cantar… Talvez veja rosas onde elas não nascem, mas hoje descobri um lado que nunca tinha visto. Pessoas com capacidades e aparentemente inteligentes (claro, apenas algumas no meio de muitas – de muitas banais, até medíocres, parvinhas e quase a tocar no ordinário) que poderiam fazer tanto bem à comunidade.

Talvez o problema seja da educação, ou então da sociedade. Educa-se para a mediocridade, para o nivelamento por baixo e corta-se pela raiz o desejo de se ser bom, útil, produtivo – de se ser prestável. Há muita gente que precisa de ajuda, muita gente que precisa de um bom abanão de boa disposição num quotidiano todo igual e sem esperança. E eu imaginei gente como a que vi hoje – em lares de terceira idade, em orfanatos, em associações, em salas de hospitais – a prestar trabalho útil para a comunidade e soube-me bem. E fez-me sentir incomodada comigo mesma porque afinal sou igual a tantas outras pessoas, acomodada à minha sorte e esquecida de que ainda há tanto para fazer no mundo…

sexta-feira, março 17, 2006

"Poesia" de Sophia

Quem descobre Sophia torna-se mais sabedor. Quem descobre Sophia encontra a beleza das palavras, da vida, do amor e dos sentidos em linhas tão simples, tão leves mas tão complicadas! Este poema, esta "Poesia", é belo e é intenso e é lindo. E eu leio-o e penso que afinal todos somos poetas, mesmo aquele que não tem o mais pequeno pingo de poesia a correr-lhe nas veias. Existes e estás aqui? És poeta.

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

sexta-feira, março 10, 2006

Dura praxis sed praxis

Acordei hoje cedo, tensa, irritada, sem vontade nenhuma de ir às aulas. Invejei gulosamente todos aqueles que estão de bem com a consciência quando esquecem que estudam nos interstícios das frequências e desejei, como tantas vezes, não ter esta minha aguda consciência de tudo. Quis ficar a dormir, na verdade dormitei mais uma hora, mas lá decidi deixar o quentinho e enfrentar a chuva. Tudo pela minha consciência.

Cheguei à faculdade, caderninho de caloira na mão, preparada para entrar na História do Direito Português. Mas mal saio do autocarro, encontro duas amigas irritadíssimas porque os frustrados do segundo ano lá estavam, arrogantemente trajadinhos à espera de ver chegar os caloirinhos para despejar neles as suas frustrações indevidas.

Parei e fiquei com elas. Vamos? Aceitamos o risco de sermos mobilizadas, tentamos mostrar que queremos mesmo ir às aulas, ou damos meia volta com o rabo entre as pernas e deixamos passar? A Cabra apontava já para as 10h28m, implacavelmente. Não sei. Não me apetece encostar o corpo à parede e gritar “sou um pega-monstros!” nem cantar músicas brejeiras de mais para as 10h30m da manhã, que entretanto a Cabra já anunciara com a sua badalada animal.

Para meu desespero, demos meia volta e fomos desperdiçar tempo com um café da manhã mal amanhado. Não é só de quatro que há humilhação – a impotência psicológica é bem mais funda do que a subordinação física. E faltar às aulas por medo é uma terrível forma de humilhação.

Vim o caminho todo a pensar nas ironias da vida e nas tensões em latência que cada um guarda em si. Secretamente, desejei ter escolhido ir às aulas, desejei ter sido suficientemente segura de mim para escolher o meu caminho sem interferência de um bando de putos que, com mais um ano, tem todas as minhas cadeiras. Se quero faltar às aulas quero ser eu a escolher faltar às aulas. Mas não. E faltei na mesma.

Não resisti a ir ler umas coisinhas sobre a praxe e não pude deixar de rir com tanta ignorância. A começar pelo lema “Dura praxis sed praxis”. Como pôde uma palavra tão bonita como “praxis”, a prática, a acção do homem, tornar-se numa coisa tão rasteirinha como um conjunto de tradições que cumpre transmitir a todo o custo? Como se pôde adoptar como lema uma adaptação do tão desajustado mote “dura lex sed lex”, típico do positivismo legalista que não faz absolutamente nenhum sentido? Tal como o direito não se reduz à lei, também a vida universitária não se reduz à praxe.

Acredito que a praxe faz sentido nas primeiras semanas de vida universitária, como forma ritualizada de iniciar uma nova etapa, como choque inicial de uma nova fase da vida que é, independentemente das condições de cada um, mudança. E passa por aceitar a diversidade e enormidade de um mundo que sabemos não conhecer e perante o qual somos em muitas situações inúteis e impotentes. E a praxe mostra isso. Mas vida universitária é sobretudo um processo de crescimento, que passa por aceitar o papel interventivo da nossa pessoa, que lentamente vai deixando a impotência de lado e abre-se a novas formas de intervenção e de vivências. E é a partir desta consciencialização que a praxe como joguinhos de poder deixa de ter sentido.

Ao contrario do que se possa pensar a praxe não é para fazer mal ao caloiro ou gozar com ele, mas sim a praxe serve para ajudar o caloiro ou recém-chegado a Universidade a integrar-se no ambiente universitário, a criar amizades e a desenvolver laços de sólida camaradagem. É através da Praxe que o estudante desenvolve um profundo amor e orgulho pela instituição que frequenta, a sua segunda casa. […] A Praxe revestiu-se historicamente de diversas formas, sofreu inúmeras transformações e chegou mesmo a estar proibida e suspensa. Após o 25 de Abril de 1974 a Universidade deixou se ver vista como um lugar sagrado, destinado a muito poucos, e assim com a democratização da Universidade, voltasse a implantar a grande tradição da Praxe Académica.” Não consigo deixar de traçar um esgar irónico ao ler isto que alguém escreveu numa página da net sobre a praxe, alguém que é membro da COPA da Universidade Lusófona. O texto vem com a seguinte observação: OBS: Este texto foi-nos gentilmente enviado por e-mail para publicação pela Ass. Escadote Cultural [escadote_cultural@hotmail.com]. Embora não seja especificamente sobre a Universidade de Coimbra, achamos deveras de interesse. Acho deveras interessante a qualidade de todo este português, desde o “voltasse a implantar” (tradução: volta-se a implantar) até ao encadeamento lógico de ideias. Mas ei, eu sou uma caloira recém-chegada, eu não sei nada! E preciso que me embebedem e que me obriguem a dançar o cabaré e a dizer que sou a Rita, a puta que mais grita aqui no cabaré, e preciso que me obriguem a pôr de quatro no chão para quem passa por trás ver os nosso rabinhos de caloirinhos ingénuos e preciso que venham os repórteres e nos filmem a fazer estas lindas figuras e preciso que os “doutores” me tratem por você e por caloira e que me berrem e que me perguntem quantos dentes tenho, se sou virgem, de que estrebaria sou… e a vontade que eu tenho é mandá-los todos a um certo sítio, a eles mais aos seus laços de camaradagem e sólidas amizades hierarquizadas. Filhos da puta. Filhos da puta não, que não há puta que os parisse. Apetece é citar Fernando Pessoa no seu mais rude tom, mostrar-lhes a minha erudição de rua, enquanto eles me obrigam a cantar a francesa aos transeuntes que me olham com nojo.

Exagero, talvez, mas fico revoltada com situações como esta. E fico revoltada quando os professores dizem que no segundo semestre quase não têm alunos. Por que será?

Não consigo compreender esta mediocridade arrasante que inunda este nosso país, as nossas instituições, os nossos cidadãos. Não consigo compreender esta contínua tensão entre a lei do mínimo esforço e a dura realidade de que nada se consegue sem esforço e sem trabalho. Não consigo desenredar-me desta teia em que já caí de cultivar uma imagem aparentemente despreocupada e de espírito desocupado de estudo, uma imagem de uma certa suplesse, de um à vontade desenrascado de todos, de todos nós.

O que mais assusta é que esta situação não se passa só na faculdade de direito, significando isto que o futuro de Portugal é um futuro de juristas medíocres, entalados na “dura lex” que não ousam sequer questionar, um futuro de maus advogados, de maus juízes, de maus notários, de uma cambada de gente ineficiente, ignorante e cega. E também de maus médicos, professores, físicos, historiadores, matemáticos, políticos, engenheiros, etc, que se auto intitulam “Doutores”. É o país que temos e o bom ensino que ele tem!

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Advérbio de modo

(Especialmente dedicado ao meu querido jurista... você sabe! :) )

Dêem-me advérbios!
(De modo, claro,
Os mais nobres e monótonos)
Que eu licenciar-me-ei (em) direito!

Pois está claro, senhores juristas,
Ineliminavelmente claro
E precipuamente convincente,
Que a ordem jurídica
É estruturalmente uma figura
Geometricamente triangular;
Além do mais, é inegavelmente óbvio
Que as suas funções, características
E efeitos na sociedade
Não devem ser escandalosamente
Ignorados por quem queira
Fazer-lhes a vontade
E concretamente debitar,
Segundo uma fundamentante
Dogmática intencionalmente pressuponente
(Projectada, obviamente,
Por mediação dos judicativamente
Decidendos problemas concretamente interpostos
Numa objectivada dogmática circunstancialmente
Adequada à especificidade daqueles)
Toda a normatividade inculcada
Nos cérebrozinhos ainda virgens
De todo o Direito circunstancialmente
Proclamado por vós, excelsos juristas.

E é perfeitamente natural, senhores juristas,
De uma perspectiva empírico-analiticamente considerada,
Em termos dialecticamente relevantes,
Que inculcais em nós tão precipuamente
(Antes da falácia e do sofisma)
Esse tão maravilhoso instrumento
Através do qual muito (pouco) subtilmente
Nos introduzis regaladamente
Nesse universo assustadoramente complexo
Que é o juridicamente constituendo;
Pois que seria do Direito
Sem o ineliminável toque
Intensamente sentido
Dos bordões de linguagem?

Ah, senhores juristas,
Sem mais considerações
(Tendencialmente tecidas por
Alguém que relativamente ao
Sentido do Direito naturalmente
Pouco e precipuamente sabe…)
Agradeço antecipadamente
O tão gloriosamente conseguido ensino
Por quem tão anarquicamente pode
Do grande advérbio de modo!!!

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Barroquismo

A pura incapacidade de expressar o que quer que seja quando o cansaço de alma vai para além da explicação racional... Hoje apetece-me dizer tanta coisa e, no entanto, tudo fica preso naquele limiar de boa vontade que existe entre o querer contar e o não conseguir soltar a voz que parece prender-se na garganta. (Releio o que escrevi e parece-me realmente um jogo de palavras sobre uma ideia difusa. Quase me faz lembrar os barrocos do século XVII e o seu cultismo/gongorismo, aquela adoração das palavras exuberantes e magníficas que, por isto mesmo (e como certas pessoas...) são ocas. Claro, numa aproximação rasca do que poderia ser um verdadeiro jogo de palavras gongóricas! Como, por exemplo, este:

"O todo sem a parte não é o todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo." Que foleiro!!!)

O Principezinho e cativar

Foi então que apareceu a raposa.
- Bom dia! - disse a raposa.
- Bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. – Estou tão triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou...
- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- O que significa "cativar"?
- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que significa "cativar"?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também criam galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
- Não - disse o principezinho. Ando à procura de amigos. O que significa "cativar"?
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. – Significa criar laços.
- Criar laços?
- Isso mesmo - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou se não uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me cativares, passaremos a precisar um do outro. Passarás a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passarei a ser única no mundo...
- Começo a compreender - disse o principezinho. - Sabes, existe flor...creio que ela me cativou…
- É bem possivel - disse a raposa. - Vê-se de tudo à superfície da Terra...
- Oh! não é na Terra! - disse o principezinho.
A raposa pareceu ficar muito intrigada.
- Então, é noutro planeta?
- É.
- E nesse tal planeta há caçadores?
- Não.
- Começo a achar-lhe alguma graça...E galinhas?
- Não.
- A perfeição não existe...- disse a raposa.
Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me cativares, será como se o sol iluminasse a minha vida. Distinguirei, de todos os passos, um novo ruído de passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é triste. Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Por isso, quando me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de amar o barulho do vento a roçar no trigo…
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Cativa-me, por favor - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e muitas coisas para conhecer...
- Só se conhecem as coisas que se cativam - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a vestir o meu coração...São precisos ritos.
- O que é um rito? - perguntou o principezinho.
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa. - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um rito. Dançam, às quintas-feiras, com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
Foi assim que o principezinho cativou a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ah! - exclamou a raposa – vou chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho.- Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te cativasse...
- É certo - disse a raposa.
- Mas agora vais chorar! - disse o principezinho.
- Pois vou - disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...
Depois acrescentou:
- Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
O principezinho foi ver outra vez as rosas.
- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada - disse-lhes ele. –
Ainda ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. Vocês são como a minha raposa era. Era uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e, agora, ela é única no mundo.
E as rosas ficaram bastante incomodadas.
- Vocês são bonitas, mas vazias - ainda lhes disse o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é perfeitamente igual a vocês. Mas, sozinha, vale mais do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi por causa dela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi ela e só ela que eu vi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.
E então voltou para o pé da raposa e disse:
- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. Vou-te contar o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa...
- Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer. (...)

Por mais que saiba este texto quase de cor, por mais vezes que o leia, que o associe a pedaços da minha vida, por mais que reconheça que a poesia que ele me sussurra ao ouvido é um ideal de sentimento puro que não existe na vida real, por mais que o meu eu racional saiba tudo isto, não consigo deixar de me emocionar com esta passagem, e o meu eu sensível não consegue deixar de querer acreditar que as relações humanas são assim tão belas, tão puras e tão lineares... Quem me dera que cativar fosse só isto. Mas eu simplesmente amo o meu Principezinho e não consigo deixar de me sentir a sua raposa...

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Agrafador de sapatos

Ó agrafador de sapatos,
Agrafa, agrafa toda a tua vida
E não te queixes da tua sorte!

(Ah, pudesse eu agrafar sapatos toda a minha vida
Sem que a minha consciência reprimisse a minha sensibilidade!)

Estou cansada pelo cansaço que antecipo
E aqui mortifico todo o desejo de sucesso.
Eu não quero estudar, eu não quero saber!
É este o meu custo de oportunidade?
(Ah, que até já transbordo economia política
por todos os meus poros ainda sãos!)

Que me interessa se é este o custo social da minha especialização?
Que me interessa se agora vivo à custa da sociedade
para mais tarde ser uma trabalhadora especializada
e com maior capacidade produtiva?
Ah, que se lixem Marx e Smith e Ricardo e os fisiocratas
E todos esses parvalhões que teorizaram infinitamente!
Que se queimem todos os papéis e livros e ferramentas
De que se usaram para ficar para a posteridade!
Que eu não quero saber o que explica a passagem do feudalismo para o
[capitalismo!
Que eu não quero saber o que pensavam os mercantilistas e todos os
[istas que por aqui passaram,
Que eu não quero saber quem tem razão!
Que eu não quero aturar ensinos tendenciosos
Nem pensamentos falaciosos
Nem mentes bloqueadas pelas suas próprias crenças!
E viva a liberdade de consciência
E viva a liberdade religiosa
E viva a liberdade de imprensa
De pensamento e de todas as coisas!
Viva a liberdade, viva!
(Ai que me lembro já da liberdade de propriedade,
E do conceito incompleto dos fisiocratas
Que pensaram conseguir explicar tudo
Pela divina fertilidade da terra -
E absolutizaram a propriedade privada
E declararam o homem livre para possuir a terra fértil
Mas esqueceram a liberdade verdadeira do homem
Essa liberdade filosófica
Essa grandeza do Homem
Que é ter consciência da sua liberdade
E estar para sempre condenado
A essa sua condição livre,
E esse gigantesco peso,
A essa enorme responsabilidade!)

Enfim, resigno-me a pagar o preço
Desta minha formação
E decido embarcar no esforço doloroso e difícil…

E secretamente, desejo regressar ao passado,
Desejo vestir-me de peles de animais,
Aquecer as minhas mãos frias no calor de uma fogueira tosca
Tremer de frio à noite e enroscar-me regaladamente no meu parceiro.
Recear os ursos e os veados e os animais grandes e fortes e ferozes,
Mas de resto não ter de estudar nem de intelectualizar
E passar o dia a recolher bagas sumarentas
E a tratar dos afazeres das casas frágeis
E viver numa comunidade matriarcal onde seria venerada por todos…

(Ah, a romantização que a distância do tempo permite…
Ah, felicidade que só se sente com a possibilidade e evasão pelo pensamento…
Eu quero ser um esquilo e saltar de árvore em árvore e recolher bolotas 
[e ser feliz todo o Inverno com a minha provisão de sementes.)

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Fragilidades

Adoro esta fotografia, com que me cruzei enquanto folheava o álbum digital das minhas fotografias mais recentes. Acho que é uma metáfora perfeita para a vida, para a(s) nossa(s) vida(s). Cada mão segura uma linha colorida, que é bela por si só, mas ainda mais bela quando junto de outras linha coloridas. A nossa vida é um absoluto na medida em que faz sentido só por si, mas ganha sentidos completamente diferentes quando a partilhamos com outras vidas, quando os fios que seguramos nas mãos cruzam caminhos com os fios que outras mãos seguram inseguras, e quando damos por nós, seguramos nas mãos pequenas bem mais fios do que alguma vez pudemos imaginar e encontramos o nosso fio entrelaçado em mais dedos do que alguma vez seremos capazes de compreender... Lembro-me sempre do meu Principezinho, das sábias palavras que aprendeu da Raposa e de como facilmente esquecemos as verdades mais simples. É pena que se vá tornando num lugar comum... mas eu continuo a gostar da frase: "Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos."

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

É tarde

É tarde, muito tarde na noite, e só agora me chegas a casa. Despes o casaco e lentamente vais despindo o teu dia, teus cansaços, teu corpo abatido. Sentas-te na cama e eu sinto-te pesado, como se todos os males do mundo descansassem em ti. Os teus cheiros são de trabalho e de pessoas e de mulheres que encantaste com essa tua virilidade tão especial… E eu sinto esses teus odores etéreos e não é sem ciúme que te imagino com elas… Estendes-te ao comprido na cama e largas um suspiro. E o meu beijo? Dás-me sempre um beijo quando chegas tarde e eu finjo já estar a dormir só para ter o prazer de sentir os teus gestos de amor, quando me aconchegas os lençóis no pescoço, onde plantas um beijo, e sussurras um sorriso terno como se eu pudesse senti-lo… E o meu beijo, então?

(Ultimamente temos perdido rituais. E com eles a sacralidade da nossa relação. E eu sei bem por que finjo dormir até que chegues e já não é a mesma coisa. Os teus cansaços são para mim banais porque os deixaste de partilhar comigo mas os meus medos são reais e eu tenho medo de nos perder. Terei já perdido?)

Esqueceste o beijo… outra vez. E eu talvez deixe de fingir que durmo e ou deixo-me ficar acordada ou durmo mesmo, num sono fundo e bem real e indiferente. Que me interessa se isto acontece a toda a gente?! A dor é a mesma… nem mais, nem menos… Mas agora abraçaste a almofada e eu até dela sinto uma ponta de ciúme. Saudade... Saudade vaga e profunda daquele abraço em silêncio… E eu agora hesito… E se eu enrolasse o meu braço no teu pescoço? Se eu encostasse os meus lábios à tua orelha sonolenta e aí deixasse escapar levemente um ‘amo-te’ meio forçado? Talvez aí te revoltasses mesmo (e eu contigo…) … talvez aí me afastasses de vez…

(Sei bem que ainda te amo profundamente, mas tenho dúvidas quanto ao teu amor. Não sei o que viste em mim quando nos conhecemos, nem o que nos juntou… mas, oh, eu amo-te sim, Amor… Amo-te e não é sem dor que reconheço este falhanço… Sinto indiferença no modo como me olhas, indiferença nas respostas às perguntas banais, nas evasivas constantes, no desinteresse…) Amor, Amor – para onde fugiste Tu e como te trago de volta?)

Talvez devêssemos conversar. Podia tocar-te na face cansada e dizer-te abertamente “É urgente conversar”… mas o que um lado deseja teme-o o outro e afinal é sempre esta a dialéctica que orienta o ser…

É isso, vou virar-me para ti. Vou virar-me lentamente, deitar-me perto do teu calor e sussurrar-te ao ouvido um

“Amor, chegaste?”

(Silêncio)

Indiferente adormeceste e o meu triste coração vai chorar até de madrugada.