terça-feira, maio 02, 2006
O cair do pano
quarta-feira, abril 26, 2006
Tempo
Vinte e quatro horas…
quinta-feira, abril 13, 2006
Praxividências...
Por isso é que uma verdadeira praxe não nos revolta e até nos ajuda a ver as coisas de outro modo. Até nos conseguimos divertir. Por isso é que não me quero desprender, declarar-me anti, e deixar os caloiros nas mãos de pessoas que estão a acumular as praxes deste ano e as tencionam despejar em cima do próximo caloiro. Prefiro pôr eu as mãos à obra, tentar mudar as coisas por dentro e não ficar-me pelo "lambe-botas" aos doutores, pela crítica e o mal-dizer, tornando-me completamente improdutiva. São estas as nossas pequenas missões que temos de agarrar. Há, de facto, muito para fazer no mundo. E são estes desafios que nos incomodam, desacomodam, nos abrem os olhos e nos picam o rabo dizendo "está nas tuas mãos".
quinta-feira, abril 06, 2006
Aos meus animadores... =)
quarta-feira, abril 05, 2006
são dias que passam... horas que vão
terça-feira, março 28, 2006
Dura praxis, sed praxis II
sexta-feira, março 17, 2006
"Poesia" de Sophia
Quem descobre Sophia torna-se mais sabedor. Quem descobre Sophia encontra a beleza das palavras, da vida, do amor e dos sentidos em linhas tão simples, tão leves mas tão complicadas! Este poema, esta "Poesia", é belo e é intenso e é lindo. E eu leio-o e penso que afinal todos somos poetas, mesmo aquele que não tem o mais pequeno pingo de poesia a correr-lhe nas veias. Existes e estás aqui? És poeta.
sexta-feira, março 10, 2006
Dura praxis sed praxis
Acordei hoje cedo, tensa, irritada, sem vontade nenhuma de ir às aulas. Invejei gulosamente todos aqueles que estão de bem com a consciência quando esquecem que estudam nos interstícios das frequências e desejei, como tantas vezes, não ter esta minha aguda consciência de tudo. Quis ficar a dormir, na verdade dormitei mais uma hora, mas lá decidi deixar o quentinho e enfrentar a chuva. Tudo pela minha consciência.
Cheguei à faculdade, caderninho de caloira na mão, preparada para entrar na História do Direito Português. Mas mal saio do autocarro, encontro duas amigas irritadíssimas porque os frustrados do segundo ano lá estavam, arrogantemente trajadinhos à espera de ver chegar os caloirinhos para despejar neles as suas frustrações indevidas.
Parei e fiquei com elas. Vamos? Aceitamos o risco de sermos mobilizadas, tentamos mostrar que queremos mesmo ir às aulas, ou damos meia volta com o rabo entre as pernas e deixamos passar? A Cabra apontava já para as 10h28m, implacavelmente. Não sei. Não me apetece encostar o corpo à parede e gritar “sou um pega-monstros!” nem cantar músicas brejeiras de mais para as 10h30m da manhã, que entretanto a Cabra já anunciara com a sua badalada animal.
Para meu desespero, demos meia volta e fomos desperdiçar tempo com um café da manhã mal amanhado. Não é só de quatro que há humilhação – a impotência psicológica é bem mais funda do que a subordinação física. E faltar às aulas por medo é uma terrível forma de humilhação.
Vim o caminho todo a pensar nas ironias da vida e nas tensões em latência que cada um guarda em si. Secretamente, desejei ter escolhido ir às aulas, desejei ter sido suficientemente segura de mim para escolher o meu caminho sem interferência de um bando de putos que, com mais um ano, tem todas as minhas cadeiras. Se quero faltar às aulas quero ser eu a escolher faltar às aulas. Mas não. E faltei na mesma.
Não resisti a ir ler umas coisinhas sobre a praxe e não pude deixar de rir com tanta ignorância. A começar pelo lema “Dura praxis sed praxis”. Como pôde uma palavra tão bonita como “praxis”, a prática, a acção do homem, tornar-se numa coisa tão rasteirinha como um conjunto de tradições que cumpre transmitir a todo o custo? Como se pôde adoptar como lema uma adaptação do tão desajustado mote “dura lex sed lex”, típico do positivismo legalista que não faz absolutamente nenhum sentido? Tal como o direito não se reduz à lei, também a vida universitária não se reduz à praxe.
Acredito que a praxe faz sentido nas primeiras semanas de vida universitária, como forma ritualizada de iniciar uma nova etapa, como choque inicial de uma nova fase da vida que é, independentemente das condições de cada um, mudança. E passa por aceitar a diversidade e enormidade de um mundo que sabemos não conhecer e perante o qual somos em muitas situações inúteis e impotentes. E a praxe mostra isso. Mas vida universitária é sobretudo um processo de crescimento, que passa por aceitar o papel interventivo da nossa pessoa, que lentamente vai deixando a impotência de lado e abre-se a novas formas de intervenção e de vivências. E é a partir desta consciencialização que a praxe como joguinhos de poder deixa de ter sentido.
“Ao contrario do que se possa pensar a praxe não é para fazer mal ao caloiro ou gozar com ele, mas sim a praxe serve para ajudar o caloiro ou recém-chegado a Universidade a integrar-se no ambiente universitário, a criar amizades e a desenvolver laços de sólida camaradagem. É através da Praxe que o estudante desenvolve um profundo amor e orgulho pela instituição que frequenta, a sua segunda casa. […] A Praxe revestiu-se historicamente de diversas formas, sofreu inúmeras transformações e chegou mesmo a estar proibida e suspensa. Após o 25 de Abril de 1974 a Universidade deixou se ver vista como um lugar sagrado, destinado a muito poucos, e assim com a democratização da Universidade, voltasse a implantar a grande tradição da Praxe Académica.” Não consigo deixar de traçar um esgar irónico ao ler isto que alguém escreveu numa página da net sobre a praxe, alguém que é membro da COPA da Universidade Lusófona. O texto vem com a seguinte observação: OBS: Este texto foi-nos gentilmente enviado por e-mail para publicação pela Ass. Escadote Cultural [escadote_cultural@hotmail.com]. Embora não seja especificamente sobre a Universidade de Coimbra, achamos deveras de interesse. Acho deveras interessante a qualidade de todo este português, desde o “voltasse a implantar” (tradução: volta-se a implantar) até ao encadeamento lógico de ideias. Mas ei, eu sou uma caloira recém-chegada, eu não sei nada! E preciso que me embebedem e que me obriguem a dançar o cabaré e a dizer que sou a Rita, a puta que mais grita aqui no cabaré, e preciso que me obriguem a pôr de quatro no chão para quem passa por trás ver os nosso rabinhos de caloirinhos ingénuos e preciso que venham os repórteres e nos filmem a fazer estas lindas figuras e preciso que os “doutores” me tratem por você e por caloira e que me berrem e que me perguntem quantos dentes tenho, se sou virgem, de que estrebaria sou… e a vontade que eu tenho é mandá-los todos a um certo sítio, a eles mais aos seus laços de camaradagem e sólidas amizades hierarquizadas. Filhos da puta. Filhos da puta não, que não há puta que os parisse. Apetece é citar Fernando Pessoa no seu mais rude tom, mostrar-lhes a minha erudição de rua, enquanto eles me obrigam a cantar a francesa aos transeuntes que me olham com nojo.
Exagero, talvez, mas fico revoltada com situações como esta. E fico revoltada quando os professores dizem que no segundo semestre quase não têm alunos. Por que será?
Não consigo compreender esta mediocridade arrasante que inunda este nosso país, as nossas instituições, os nossos cidadãos. Não consigo compreender esta contínua tensão entre a lei do mínimo esforço e a dura realidade de que nada se consegue sem esforço e sem trabalho. Não consigo desenredar-me desta teia em que já caí de cultivar uma imagem aparentemente despreocupada e de espírito desocupado de estudo, uma imagem de uma certa suplesse, de um à vontade desenrascado de todos, de todos nós.
O que mais assusta é que esta situação não se passa só na faculdade de direito, significando isto que o futuro de Portugal é um futuro de juristas medíocres, entalados na “dura lex” que não ousam sequer questionar, um futuro de maus advogados, de maus juízes, de maus notários, de uma cambada de gente ineficiente, ignorante e cega. E também de maus médicos, professores, físicos, historiadores, matemáticos, políticos, engenheiros, etc, que se auto intitulam “Doutores”. É o país que temos e o bom ensino que ele tem!
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Advérbio de modo
(Especialmente dedicado ao meu querido jurista... você sabe! :) )
Dêem-me advérbios!
(De modo, claro,
Os mais nobres e monótonos)
Que eu licenciar-me-ei (em) direito!
Pois está claro, senhores juristas,
Ineliminavelmente claro
E precipuamente convincente,
Que a ordem jurídica
É estruturalmente uma figura
Geometricamente triangular;
Além do mais, é inegavelmente óbvio
Que as suas funções, características
E efeitos na sociedade
Não devem ser escandalosamente
Ignorados por quem queira
Fazer-lhes a vontade
E concretamente debitar,
Segundo uma fundamentante
Dogmática intencionalmente pressuponente
(Projectada, obviamente,
Por mediação dos judicativamente
Decidendos problemas concretamente interpostos
Numa objectivada dogmática circunstancialmente
Adequada à especificidade daqueles)
Toda a normatividade inculcada
Nos cérebrozinhos ainda virgens
De todo o Direito circunstancialmente
Proclamado por vós, excelsos juristas.
E é perfeitamente natural, senhores juristas,
De uma perspectiva empírico-analiticamente considerada,
Em termos dialecticamente relevantes,
Que inculcais em nós tão precipuamente
(Antes da falácia e do sofisma)
Esse tão maravilhoso instrumento
Através do qual muito (pouco) subtilmente
Nos introduzis regaladamente
Nesse universo assustadoramente complexo
Que é o juridicamente constituendo;
Pois que seria do Direito
Sem o ineliminável toque
Intensamente sentido
Dos bordões de linguagem?
Ah, senhores juristas,
Sem mais considerações
(Tendencialmente tecidas por
Alguém que relativamente ao
Sentido do Direito naturalmente
Pouco e precipuamente sabe…)
Agradeço antecipadamente
O tão gloriosamente conseguido ensino
Por quem tão anarquicamente pode
Do grande advérbio de modo!!!
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
Barroquismo
A pura incapacidade de expressar o que quer que seja quando o cansaço de alma vai para além da explicação racional... Hoje apetece-me dizer tanta coisa e, no entanto, tudo fica preso naquele limiar de boa vontade que existe entre o querer contar e o não conseguir soltar a voz que parece prender-se na garganta. (Releio o que escrevi e parece-me realmente um jogo de palavras sobre uma ideia difusa. Quase me faz lembrar os barrocos do século XVII e o seu cultismo/gongorismo, aquela adoração das palavras exuberantes e magníficas que, por isto mesmo (e como certas pessoas...) são ocas. Claro, numa aproximação rasca do que poderia ser um verdadeiro jogo de palavras gongóricas! Como, por exemplo, este:
O Principezinho e cativar
Por mais que saiba este texto quase de cor, por mais vezes que o leia, que o associe a pedaços da minha vida, por mais que reconheça que a poesia que ele me sussurra ao ouvido é um ideal de sentimento puro que não existe na vida real, por mais que o meu eu racional saiba tudo isto, não consigo deixar de me emocionar com esta passagem, e o meu eu sensível não consegue deixar de querer acreditar que as relações humanas são assim tão belas, tão puras e tão lineares... Quem me dera que cativar fosse só isto. Mas eu simplesmente amo o meu Principezinho e não consigo deixar de me sentir a sua raposa...
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Agrafador de sapatos
Ó agrafador de sapatos,
Agrafa, agrafa toda a tua vida
E não te queixes da tua sorte!
(Ah, pudesse eu agrafar sapatos toda a minha vida
Sem que a minha consciência reprimisse a minha sensibilidade!)
Estou cansada pelo cansaço que antecipo
E aqui mortifico todo o desejo de sucesso.
Eu não quero estudar, eu não quero saber!
É este o meu custo de oportunidade?
(Ah, que até já transbordo economia política
por todos os meus poros ainda sãos!)
Que me interessa se é este o custo social da minha especialização?
Que me interessa se agora vivo à custa da sociedade
para mais tarde ser uma trabalhadora especializada
e com maior capacidade produtiva?
Ah, que se lixem Marx e Smith e Ricardo e os fisiocratas
E todos esses parvalhões que teorizaram infinitamente!
Que se queimem todos os papéis e livros e ferramentas
De que se usaram para ficar para a posteridade!
Que eu não quero saber o que explica a passagem do feudalismo para o
[capitalismo!
Que eu não quero saber o que pensavam os mercantilistas e todos os
[istas que por aqui passaram,
Que eu não quero saber quem tem razão!
Que eu não quero aturar ensinos tendenciosos
Nem pensamentos falaciosos
Nem mentes bloqueadas pelas suas próprias crenças!
E viva a liberdade de consciência
E viva a liberdade religiosa
E viva a liberdade de imprensa
De pensamento e de todas as coisas!
Viva a liberdade, viva!
(Ai que me lembro já da liberdade de propriedade,
E do conceito incompleto dos fisiocratas
Que pensaram conseguir explicar tudo
Pela divina fertilidade da terra -
E absolutizaram a propriedade privada
E declararam o homem livre para possuir a terra fértil
Mas esqueceram a liberdade verdadeira do homem
Essa liberdade filosófica
Essa grandeza do Homem
Que é ter consciência da sua liberdade
E estar para sempre condenado
A essa sua condição livre,
E esse gigantesco peso,
A essa enorme responsabilidade!)
Enfim, resigno-me a pagar o preço
Desta minha formação
E decido embarcar no esforço doloroso e difícil…
E secretamente, desejo regressar ao passado,
Desejo vestir-me de peles de animais,
Aquecer as minhas mãos frias no calor de uma fogueira tosca
Tremer de frio à noite e enroscar-me regaladamente no meu parceiro.
Recear os ursos e os veados e os animais grandes e fortes e ferozes,
Mas de resto não ter de estudar nem de intelectualizar
E passar o dia a recolher bagas sumarentas
E a tratar dos afazeres das casas frágeis
E viver numa comunidade matriarcal onde seria venerada por todos…
(Ah, a romantização que a distância do tempo permite…
Ah, felicidade que só se sente com a possibilidade e evasão pelo pensamento…
Eu quero ser um esquilo e saltar de árvore em árvore e recolher bolotas
[e ser feliz todo o Inverno com a minha provisão de sementes.)
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
Fragilidades
Adoro esta fotografia, com que me cruzei enquanto folheava o álbum digital das minhas fotografias mais recentes. Acho que é uma metáfora perfeita para a vida, para a(s) nossa(s) vida(s).
Cada mão segura uma linha colorida, que é bela por si só, mas ainda mais bela quando junto de outras linha coloridas. A nossa vida é um absoluto na medida em que faz sentido só por si, mas ganha sentidos completamente diferentes quando a partilhamos com outras vidas, quando os fios que seguramos nas mãos cruzam caminhos com os fios que outras mãos seguram inseguras, e quando damos por nós, seguramos nas mãos pequenas bem mais fios do que alguma vez pudemos imaginar e encontramos o nosso fio entrelaçado em mais dedos do que alguma vez seremos capazes de compreender...
Lembro-me sempre do meu Principezinho, das sábias palavras que aprendeu da Raposa e de como facilmente esquecemos as verdades mais simples. É pena que se vá tornando num lugar comum... mas eu continuo a gostar da frase: "Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos." quarta-feira, fevereiro 01, 2006
É tarde
É tarde, muito tarde na noite, e só agora me chegas a casa. Despes o casaco e lentamente vais despindo o teu dia, teus cansaços, teu corpo abatido. Sentas-te na cama e eu sinto-te pesado, como se todos os males do mundo descansassem em ti. Os teus cheiros são de trabalho e de pessoas e de mulheres que encantaste com essa tua virilidade tão especial… E eu sinto esses teus odores etéreos e não é sem ciúme que te imagino com elas… Estendes-te ao comprido na cama e largas um suspiro. E o meu beijo? Dás-me sempre um beijo quando chegas tarde e eu finjo já estar a dormir só para ter o prazer de sentir os teus gestos de amor, quando me aconchegas os lençóis no pescoço, onde plantas um beijo, e sussurras um sorriso terno como se eu pudesse senti-lo… E o meu beijo, então?
(Ultimamente temos perdido rituais. E com eles a sacralidade da nossa relação. E eu sei bem por que finjo dormir até que chegues e já não é a mesma coisa. Os teus cansaços são para mim banais porque os deixaste de partilhar comigo mas os meus medos são reais e eu tenho medo de nos perder. Terei já perdido?)
Esqueceste o beijo… outra vez. E eu talvez deixe de fingir que durmo e ou deixo-me ficar acordada ou durmo mesmo, num sono fundo e bem real e indiferente. Que me interessa se isto acontece a toda a gente?! A dor é a mesma… nem mais, nem menos… Mas agora abraçaste a almofada e eu até dela sinto uma ponta de ciúme. Saudade... Saudade vaga e profunda daquele abraço em silêncio… E eu agora hesito… E se eu enrolasse o meu braço no teu pescoço? Se eu encostasse os meus lábios à tua orelha sonolenta e aí deixasse escapar levemente um ‘amo-te’ meio forçado? Talvez aí te revoltasses mesmo (e eu contigo…) … talvez aí me afastasses de vez…
(Sei bem que ainda te amo profundamente, mas tenho dúvidas quanto ao teu amor. Não sei o que viste em mim quando nos conhecemos, nem o que nos juntou… mas, oh, eu amo-te sim, Amor… Amo-te e não é sem dor que reconheço este falhanço… Sinto indiferença no modo como me olhas, indiferença nas respostas às perguntas banais, nas evasivas constantes, no desinteresse…) Amor, Amor – para onde fugiste Tu e como te trago de volta?)
Talvez devêssemos conversar. Podia tocar-te na face cansada e dizer-te abertamente “É urgente conversar”… mas o que um lado deseja teme-o o outro e afinal é sempre esta a dialéctica que orienta o ser…
É isso, vou virar-me para ti. Vou virar-me lentamente, deitar-me perto do teu calor e sussurrar-te ao ouvido um
“Amor, chegaste?”
(Silêncio)
Indiferente adormeceste e o meu triste coração vai chorar até de madrugada.

