Por mais que saiba este texto quase de cor, por mais vezes que o leia, que o associe a pedaços da minha vida, por mais que reconheça que a poesia que ele me sussurra ao ouvido é um ideal de sentimento puro que não existe na vida real, por mais que o meu eu racional saiba tudo isto, não consigo deixar de me emocionar com esta passagem, e o meu eu sensível não consegue deixar de querer acreditar que as relações humanas são assim tão belas, tão puras e tão lineares... Quem me dera que cativar fosse só isto. Mas eu simplesmente amo o meu Principezinho e não consigo deixar de me sentir a sua raposa...
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
O Principezinho e cativar
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Agrafador de sapatos
Ó agrafador de sapatos,
Agrafa, agrafa toda a tua vida
E não te queixes da tua sorte!
(Ah, pudesse eu agrafar sapatos toda a minha vida
Sem que a minha consciência reprimisse a minha sensibilidade!)
Estou cansada pelo cansaço que antecipo
E aqui mortifico todo o desejo de sucesso.
Eu não quero estudar, eu não quero saber!
É este o meu custo de oportunidade?
(Ah, que até já transbordo economia política
por todos os meus poros ainda sãos!)
Que me interessa se é este o custo social da minha especialização?
Que me interessa se agora vivo à custa da sociedade
para mais tarde ser uma trabalhadora especializada
e com maior capacidade produtiva?
Ah, que se lixem Marx e Smith e Ricardo e os fisiocratas
E todos esses parvalhões que teorizaram infinitamente!
Que se queimem todos os papéis e livros e ferramentas
De que se usaram para ficar para a posteridade!
Que eu não quero saber o que explica a passagem do feudalismo para o
[capitalismo!
Que eu não quero saber o que pensavam os mercantilistas e todos os
[istas que por aqui passaram,
Que eu não quero saber quem tem razão!
Que eu não quero aturar ensinos tendenciosos
Nem pensamentos falaciosos
Nem mentes bloqueadas pelas suas próprias crenças!
E viva a liberdade de consciência
E viva a liberdade religiosa
E viva a liberdade de imprensa
De pensamento e de todas as coisas!
Viva a liberdade, viva!
(Ai que me lembro já da liberdade de propriedade,
E do conceito incompleto dos fisiocratas
Que pensaram conseguir explicar tudo
Pela divina fertilidade da terra -
E absolutizaram a propriedade privada
E declararam o homem livre para possuir a terra fértil
Mas esqueceram a liberdade verdadeira do homem
Essa liberdade filosófica
Essa grandeza do Homem
Que é ter consciência da sua liberdade
E estar para sempre condenado
A essa sua condição livre,
E esse gigantesco peso,
A essa enorme responsabilidade!)
Enfim, resigno-me a pagar o preço
Desta minha formação
E decido embarcar no esforço doloroso e difícil…
E secretamente, desejo regressar ao passado,
Desejo vestir-me de peles de animais,
Aquecer as minhas mãos frias no calor de uma fogueira tosca
Tremer de frio à noite e enroscar-me regaladamente no meu parceiro.
Recear os ursos e os veados e os animais grandes e fortes e ferozes,
Mas de resto não ter de estudar nem de intelectualizar
E passar o dia a recolher bagas sumarentas
E a tratar dos afazeres das casas frágeis
E viver numa comunidade matriarcal onde seria venerada por todos…
(Ah, a romantização que a distância do tempo permite…
Ah, felicidade que só se sente com a possibilidade e evasão pelo pensamento…
Eu quero ser um esquilo e saltar de árvore em árvore e recolher bolotas
[e ser feliz todo o Inverno com a minha provisão de sementes.)
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
Fragilidades
Adoro esta fotografia, com que me cruzei enquanto folheava o álbum digital das minhas fotografias mais recentes. Acho que é uma metáfora perfeita para a vida, para a(s) nossa(s) vida(s).
Cada mão segura uma linha colorida, que é bela por si só, mas ainda mais bela quando junto de outras linha coloridas. A nossa vida é um absoluto na medida em que faz sentido só por si, mas ganha sentidos completamente diferentes quando a partilhamos com outras vidas, quando os fios que seguramos nas mãos cruzam caminhos com os fios que outras mãos seguram inseguras, e quando damos por nós, seguramos nas mãos pequenas bem mais fios do que alguma vez pudemos imaginar e encontramos o nosso fio entrelaçado em mais dedos do que alguma vez seremos capazes de compreender...
Lembro-me sempre do meu Principezinho, das sábias palavras que aprendeu da Raposa e de como facilmente esquecemos as verdades mais simples. É pena que se vá tornando num lugar comum... mas eu continuo a gostar da frase: "Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos." quarta-feira, fevereiro 01, 2006
É tarde
É tarde, muito tarde na noite, e só agora me chegas a casa. Despes o casaco e lentamente vais despindo o teu dia, teus cansaços, teu corpo abatido. Sentas-te na cama e eu sinto-te pesado, como se todos os males do mundo descansassem em ti. Os teus cheiros são de trabalho e de pessoas e de mulheres que encantaste com essa tua virilidade tão especial… E eu sinto esses teus odores etéreos e não é sem ciúme que te imagino com elas… Estendes-te ao comprido na cama e largas um suspiro. E o meu beijo? Dás-me sempre um beijo quando chegas tarde e eu finjo já estar a dormir só para ter o prazer de sentir os teus gestos de amor, quando me aconchegas os lençóis no pescoço, onde plantas um beijo, e sussurras um sorriso terno como se eu pudesse senti-lo… E o meu beijo, então?
(Ultimamente temos perdido rituais. E com eles a sacralidade da nossa relação. E eu sei bem por que finjo dormir até que chegues e já não é a mesma coisa. Os teus cansaços são para mim banais porque os deixaste de partilhar comigo mas os meus medos são reais e eu tenho medo de nos perder. Terei já perdido?)
Esqueceste o beijo… outra vez. E eu talvez deixe de fingir que durmo e ou deixo-me ficar acordada ou durmo mesmo, num sono fundo e bem real e indiferente. Que me interessa se isto acontece a toda a gente?! A dor é a mesma… nem mais, nem menos… Mas agora abraçaste a almofada e eu até dela sinto uma ponta de ciúme. Saudade... Saudade vaga e profunda daquele abraço em silêncio… E eu agora hesito… E se eu enrolasse o meu braço no teu pescoço? Se eu encostasse os meus lábios à tua orelha sonolenta e aí deixasse escapar levemente um ‘amo-te’ meio forçado? Talvez aí te revoltasses mesmo (e eu contigo…) … talvez aí me afastasses de vez…
(Sei bem que ainda te amo profundamente, mas tenho dúvidas quanto ao teu amor. Não sei o que viste em mim quando nos conhecemos, nem o que nos juntou… mas, oh, eu amo-te sim, Amor… Amo-te e não é sem dor que reconheço este falhanço… Sinto indiferença no modo como me olhas, indiferença nas respostas às perguntas banais, nas evasivas constantes, no desinteresse…) Amor, Amor – para onde fugiste Tu e como te trago de volta?)
Talvez devêssemos conversar. Podia tocar-te na face cansada e dizer-te abertamente “É urgente conversar”… mas o que um lado deseja teme-o o outro e afinal é sempre esta a dialéctica que orienta o ser…
É isso, vou virar-me para ti. Vou virar-me lentamente, deitar-me perto do teu calor e sussurrar-te ao ouvido um
“Amor, chegaste?”
(Silêncio)
Indiferente adormeceste e o meu triste coração vai chorar até de madrugada.
domingo, janeiro 29, 2006
mãos...amigas.
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Amor, Amor
Amor, espero por ti numa noite escura, Aguardo atenciosamente a tua chegada, Abrupta, intensa, genial e arrebatadora. Anseio pelo teu colo, pelo teu abraço, Pelo teu toque, pelo teu corpo. Desejo os teus olhos, os teus lábios e a tua mão sobre a minha. Amo terrivelmente esta vontade de te amar E sofro miseravelmente por saber que é impossível Um amor entre nós. Amo exacerbadamente a vida que poderíamos levar juntos, Amo as conversas que poderíamos ter pela noite dentro, Amo as risadas que poderíamos dar com as brincadeiras recíprocas, Amo os abraços e beijos e toques em face das fragilidades mútuas, Amo o calor que poderíamos sentir dentro do peito De saber cá dentro um amor pleno e sem jeito. Amor, espero por ti numa noite fria, Aguardo loucamente a tua chegada, Grande, imensa, brutal e maravilhosa. Anseio pela tua metade que com a minha metade Seria a goiaba mais doce do mundo E desejo secretamente que me ames pela calada Até que a virilidade da tua alma doce Se entrelace a fundo com a minha vontade. Quando o momento chegar, meu Amor, seremos Um só, indivisível e livre, como só se pode ser No Amor pleno e imenso que contigo sonho viver.
domingo, janeiro 22, 2006
Aurora
sábado, janeiro 21, 2006
Poema a duas... :)
segunda-feira, janeiro 09, 2006
Aqui
sábado, janeiro 07, 2006
Nova Mensagem - escolhas
terça-feira, janeiro 03, 2006
Nova Mensagem... Sêrá?
E se três palavras escrevessem uma vida?...
domingo, janeiro 01, 2006
Bom ano!
terça-feira, dezembro 13, 2005
Gosto de ti
Gosto daqueles dias de Inverno em que o Sol, contra o frio, contra o vento e contra a vontade dos deuses, se insinua docemente sobre a harmonia das coisas. E, quase num finca-pé divino, alastra sobre o mundo os seus raios gelados, porque, por mais vontade que tenha de desafiar o frio, este existe, e está aqui e não desiste de ganhar ao sol esta disputa. Gosto da beleza exótica que esta luta proporciona: a combinação entre a brisa fresca, que trava e liberta os pulmões, e o sol docinho que amorna a pele… Hum… divino…
Fico imóvel, deixando o pensamento discorrer livremente, como esta aragem fininha que me beija os cabelos. Ouço o silêncio da concentração total, mas, mal tenho consciência dela, perco-a. Começo então a ouvir os ruídos do mundo: vozes… masculinas, femininas juntas, sozinhas… gravilha… passos – alguém caminha. Talvez uma caminhada apaixonada? Beijos, abraços, palavras lindas e carícias à alma…
Irrompe então o tic toc dos saltos altos… passo apressado em compasso alterado. Tic toc, tic toc, tic toc, tic toc, tic toc, tic toc – tic – toc – tic – toc – tic toc, tic toc, tic toc; alguém pigarreia. Qual será o motivo? Quer clarear a garganta ou quer ser ouvido? Calou-se, talvez ouvindo os meus pensamentos interrogativos. Desculpe, amigo, não quis interromper o seu pigarrear. Estou desculpada? Engraçado, o silêncio desapareceu completamente, mas a concentração cá está. Virei-me do avesso. Agora ouço é os sons deste espaço e não as minhas vozes interiores. Oh, eu até estava a gostar de me ouvir! Chiu! Chiu! Quero ouvir-me outra vez! Quero ouvir as minhas vozes! Mas?... Espera, agora ouço ao longe o burburinho de uma multidão. É um ruído de fundo, desagradável; agora que penso nisso, é quase infernal! Ai! Até ensurdece a minha mudez! E aumenta e aumenta e aumenta e já não ouço mais nada se não a multidão! Ah, calem-se por favor! Poupem-me às vossas conversas de circunstância que nem ouço mas que adivinho desse som contínuo e indiferenciado produzido pelas vossas cordas vocais, como se vos ouvisse individualmente! Pa ta ti pa ta tã! Como a comunicação é às vezes tão absurda e às vezes tão essencial! E como são tão débeis os canais de comunicação!... Ah, poder desligar o botão que me faz ouvir a multidão… não ouvir mais esta estranha mistura de sons e poder concentrar-me apenas no que realmente interessa…
Parece que o sol se foi embora. E a minha vontade de escrever foi com ele. Ainda hoje me pergunto por que somos tão voláteis e incompreensíveis. Quem me dera ser a brisa fresca que me beijou hoje os cabelos. Assim não tinha de pensar em nada, nem de construir relações, nem de alimentar afectos. Bastar-me-ia chegar de mansinho perto das pessoas e, sem magoar ninguém, beijá-las carinhosamente, como quem pisca o olho maroto e diz “Gosto de ti”.


