segunda-feira, janeiro 23, 2006

Amor, Amor

Amor, espero por ti numa noite escura,
Aguardo atenciosamente a tua chegada,
Abrupta, intensa, genial e arrebatadora.
Anseio pelo teu colo, pelo teu abraço,
Pelo teu toque, pelo teu corpo.
Desejo os teus olhos, os teus lábios e a tua mão sobre a minha.
Amo terrivelmente esta vontade de te amar
E sofro miseravelmente por saber que é impossível
Um amor entre nós.
Amo exacerbadamente a vida que poderíamos levar juntos,
Amo as conversas que poderíamos ter pela noite dentro,
Amo as risadas que poderíamos dar com as brincadeiras recíprocas,
Amo os abraços e beijos e toques em face das fragilidades mútuas,
Amo o calor que poderíamos sentir dentro do peito
De saber cá dentro um amor pleno e sem jeito.

Amor, espero por ti numa noite fria,
Aguardo loucamente a tua chegada,
Grande, imensa, brutal e maravilhosa.
Anseio pela tua metade que com a minha metade
Seria a goiaba mais doce do mundo
E desejo secretamente que me ames pela calada
Até que a virilidade da tua alma doce
Se entrelace a fundo com a minha vontade.
Quando o momento chegar, meu Amor, seremos
Um só, indivisível e livre, como só se pode ser
No Amor pleno e imenso que contigo sonho viver.

domingo, janeiro 22, 2006

Aurora

Truffaut classificou-o "o mais belo filme do mundo". Eu não acreditei. Quer dizer, um filme de 1927 o mais belo do mundo? Pois claro, e eu sou a pessoa mais inteligente do planeta! Gozei, é claro. Pelo menos para dentro, porque não ousei fazê-lo em voz alta com os amigos apreciadores de filmes marginais (à margem, que fogem da corrente comercial que nos invade por todos os lados). Mas eles também não o fizeram, talvez pela mesma razão. E assim entrámos na sala de cinema. Por que de repente decidiram voltar a passar um filme mudo e a preto e branco, apesar de contemporâneo do "Jazz Singer", que aparentemente não nos tem nada a dizer, não faço ideia. Só posso dizer: ainda bem que o fizeram! Este filme fala mais de mim, de nós do que muitos dos filmes que sairam este anos e que sairão nos próximos e próximos... O subtítulo de "Aurora" (Sunrise) é "A song of two humans" e é simplesmente genial. Até porque no filme a força da música é incrível e importantíssima na criação de ambientes. Esta é, afinal, uma história de amor lindíssima e de como quando descuramos as relações que mais importam para o nosso coração podemos viver situações terríveis. Eis como, no original, a história é descrita, em letras brancas sob fundo preto numa estranha revivência de uma Charlot sério: This song of the Man and his Wife is of no place and every place; you might hear it anywhere at any time. For wherever the sun rises and sets in the city's turmoil or under the open sky on the farm, life is much the same; sometimes bitter, sometimes sweet.

sábado, janeiro 21, 2006

Poema a duas... :)

Este poema foi escrito pelas duas excelentes colaboradoras deste blog (modéstia à parte, claramente ;) entre golinhos quentes da "água preta" que servem no tagv. Sim, porque café é a última coisa que podemos chamar àquela mixórdia. Cada verso, cada escritora, intercaladamente. Dou um prémio a quem adivinhar de quem são quais versos... :)! A Rita acha que "ta ridiculo", eu nem por isso porque escrever a duas é bem difícil, acreditem! BEIJOS PARA TODOS QU'EU HOJE TOU FELIZ! .
Fitou-a, calada, transpirando ódio
Numa espécie de neurose absurda e inexplicável
Deixou que o silêncio gritasse estridente
E assim chorou eternamente
As palavras que acabara de escutar.
.
De repente, levantou-se num ápice
E virou costas, anunciando a despedida,
Como se a ausência de hoje
Se prolongasse... para sempre... p'ra toda a vida.
.
Po isto fugiu dali, fugindo, fingindo,
correndo, suando,chorando,cansando.
sofrendo, amando, calando - parando.
Sorriu. Largou tudo naquela corrida louca
e deixou-se ficar na lassidão perfeita do cansaço lúcido.
Rita e NoNo VENHAM DAÍ OS COMMENTS! :D

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Aqui

Aqui, onde ninguém pode ver de perto a minha Humanidade,
Aqui, onde ninguém pode sentir de perto a minha tristeza,
Aqui, onde ninguém pode ouvir de perto o meu desespero cansado,
Aqui, onde ninguém pode sequer pensar de perto a minha mágoa de ser assim,
Aqui, onde ninguém chega sem primeiro derrubar os seus muros,
Aqui, onde ninguém toca sem antes arrombar os meus limites,
Aqui, onde o longe é tão longe quanto o mais longe de todos os longes,
Aqui, onde afirmo temerariamente a minha personalidade,
Aqui, onde se aceita sem receios a inquietude do olhar mais fundo,
Aqui, onde se vive desconhecendo o que é o Futuro
Onde se desconhece o que é o Homem, o que é Existir, o que é fazer parte desta magnífica imensidão,
Aqui podes vir descansar no meu seio,
Aqui podes vir Amar sem ser em vão.

sábado, janeiro 07, 2006

Nova Mensagem - escolhas

Escolhas
.
Fitas com embaraço
o céu que nunca alcançaste
E que limita com o horizonte
A meta do que tu sonhaste.
.
Tu é que escolheste
um caminho de areias
por onde desapareceste
enredando-te em teias
tecidas p'lo dourado que tanto te seduz...
Esqueceste que nem tudo o que brilha traz Luz... ?
.
Na campa que tu cavaste
marca a pedra o dizer:
"Aqui jaz a Humanidade
que não soube o que escolher".
Leonor Ressoa

terça-feira, janeiro 03, 2006

Nova Mensagem... Sêrá?

Há tempos, ainda no 12º ano, veio-me à ideia, a propósito de uma ideia lançada pela nossa fantástica professora de português, tentar escrever uma nova Mensagem, inspirada no Grande poeta! Claro que saiu meio torta, cheia de imperfeições... mas voltei a pegar nela. É uma Nova Mensagem para a Humanidade, seguindo vagamente a estrutura da original, cujo subtítulo é Quovadis? (Para onde vais - para os mais desentendidos :) . Não sei se este ficará, mas resolvi "postá-lo". Só pa partilhar... vou ver se partilho mais poesia.
Aviso
.
A Terra ruge de dor, em ebulição
de lava e mar... o céu grita em trovão.
As vagas raspam terras habitadas
Por almas tão jovens... já encarquilhadas.
.
A Terra sente o chicote do humano
Rosna com a dor, geme enraivecida
coma falta de valor que dão à vida
que envelhece, com o tempo, cada ano.
.
E ela grita e em vulcões esperneia
O céu põe-se em fúria a chorar
O sol tenta aquecê-la (até queimar...!)
O mar destrói as rochas em areia.
.
E ela, tão velha, tão só no estrelado,
(só protegida por um pai anelado)
Chora lágrimas de luz e cansaço
Esperando que o Homem dê um novo passo.
Leonor Ressoa

E se três palavras escrevessem uma vida?...

Encontrei uma velhinha de 92 anos que me perguntou que autocarro eu esperava. “O vinte e quatro”, disse eu, ligeiramente irritada pelos vinte minutos que já tinham passado sem que o autocarro viesse. “Também eu!” Não consegui deixar de simpatizar com este entusiasmo quase infantil. “É estudante?” “Sou”, respondi com um sorriso de orelha a orelha que nasceu nem sei bem por que motivo. “Boa sorte para os estudos”, retribuindo o sorriso espontâneo. “Obrigada”. Não podia ser mais apropriado, agora que estamos a um mês das amigas frequências. “É de cá de Coimbra?” “Sim” “Eu sou de Trás-os-Montes. Conhece?”. A voz soltou-se-me da alma sem eu perceber como, abrindo-se em mim imagens fortíssimas de paisagens transmontanas, muito verdes, muitas cabras, e velhinhas de preto agarradas aos teares, sorrindo e arreganhando sabiamente os quatro dentes das bocas vividas. “Conheço sim. Gosto muito de Trás-os-Montes, é uma região lindíssima.” Um sorriso indescritível iluminou o rosto da senhora. “E há quanto tempo está aqui em Coimbra?”
“Há trinta e três anos… ….há trinta e três anos. Sou viúva. … … Vim de Angola. “ Não consigo explicar o efeito que estas palavras tiveram em mim, nem a sucessão desordenada de imagens que passou pela minha cabeça à velocidade da luz. Soldados, muitos, e cravos nos canos das espingardas e fumo e tiros e lágrimas sofridas em silêncio pelos véus negros que ficaram para cá do Império e sorrisos salgados dos véus brancos que deixaram a África sua em navios de fumo negro, com etiquetas garrafais tatuadas na alma fria: Retornado.
Novos olhos encaram a velhinha que tanto me ensina. O sorriso abandonou os seus lábios, mas não a voz jovial que me pergunta com vigor se sei que idade tem ela. Nem me dá tempo para responder: noventa e dois! E com que orgulho! Eu sorrio e digo com sinceridade que nunca lhos daria.
Chega o vinte e quatro, já sem tensões absurdas. Quando me levanto cruzo de frente o olhar com a minha amiga que me diz espantada “Ah, só agora reparo como é bonita!” E eu enrubesço e agradeço e olho-a para lá das rugas e do cabelinho branco e imagino em retrato antigo esta mulher na flor da idade, esbelta, linda, fogosa, olhando complacentemente o fotógrafo que a imortalizou no meu retrato imaginário.
Adeus, amiga. Será que três palavras escrevem uma vida?

domingo, janeiro 01, 2006

Bom ano!

Bom ano!... Engraçado como o ser humano é mesmo um ser de metas. De chegadas e de partidas. Como um fim de ano serve para quase catalogarmos o que passou, deitar fora o mau, guardar na memória o bom ou o menos mau, marcar o ano como o ano em que aconteceu aquela coisa especial (muito esperada ou nem por isso). Como um início de ano serve para renovarmos ou acentuarmos os nossos objectivos, entrarmos com mais força e mais a fundo em tudo aquilo em que estamos envolvidos, olhar com coragem e afinco os objectivos que nos propomos cumprir enquanto mastigamos, lentamente, o bago de uva enrugado (claro que guardamos um pr'á taça, numéberdade?). Engraçado como temos uma enorme necessidade de estar sempre a renovar para reganharmos força para tudo. Precisamos das tais metas para nos sentirmos cumpridos nalguma coisa, para sentirmos que "- AH! consegui!". E precisamos das tais partidas, de ouvir o estalido da pistola, para ligarmos com mais potência os motores e nos pormos a trabalhar. Para mim o fim de um ano é sempre uma paRsagem. Uma paRagem e um paSsagem. Seguir em frente cada vez com mais força e vontade! Parar e Reparar... e depois Passar! Com os motores a trabalhar com toda a força!
SEJAS BEM-VINDO 2006!!

terça-feira, dezembro 13, 2005

Gosto de ti

Gosto daqueles dias de Inverno em que o Sol, contra o frio, contra o vento e contra a vontade dos deuses, se insinua docemente sobre a harmonia das coisas. E, quase num finca-pé divino, alastra sobre o mundo os seus raios gelados, porque, por mais vontade que tenha de desafiar o frio, este existe, e está aqui e não desiste de ganhar ao sol esta disputa. Gosto da beleza exótica que esta luta proporciona: a combinação entre a brisa fresca, que trava e liberta os pulmões, e o sol docinho que amorna a pele… Hum… divino…

Fico imóvel, deixando o pensamento discorrer livremente, como esta aragem fininha que me beija os cabelos. Ouço o silêncio da concentração total, mas, mal tenho consciência dela, perco-a. Começo então a ouvir os ruídos do mundo: vozes… masculinas, femininas juntas, sozinhas… gravilha… passos – alguém caminha. Talvez uma caminhada apaixonada? Beijos, abraços, palavras lindas e carícias à alma…

Irrompe então o tic toc dos saltos altos… passo apressado em compasso alterado. Tic toc, tic toc, tic toc, tic toc, tic toc, tic toc – tic – toc – tic – toc – tic toc, tic toc, tic toc; alguém pigarreia. Qual será o motivo? Quer clarear a garganta ou quer ser ouvido? Calou-se, talvez ouvindo os meus pensamentos interrogativos. Desculpe, amigo, não quis interromper o seu pigarrear. Estou desculpada? Engraçado, o silêncio desapareceu completamente, mas a concentração cá está. Virei-me do avesso. Agora ouço é os sons deste espaço e não as minhas vozes interiores. Oh, eu até estava a gostar de me ouvir! Chiu! Chiu! Quero ouvir-me outra vez! Quero ouvir as minhas vozes! Mas?... Espera, agora ouço ao longe o burburinho de uma multidão. É um ruído de fundo, desagradável; agora que penso nisso, é quase infernal! Ai! Até ensurdece a minha mudez! E aumenta e aumenta e aumenta e já não ouço mais nada se não a multidão! Ah, calem-se por favor! Poupem-me às vossas conversas de circunstância que nem ouço mas que adivinho desse som contínuo e indiferenciado produzido pelas vossas cordas vocais, como se vos ouvisse individualmente! Pa ta ti pa ta tã! Como a comunicação é às vezes tão absurda e às vezes tão essencial! E como são tão débeis os canais de comunicação!... Ah, poder desligar o botão que me faz ouvir a multidão… não ouvir mais esta estranha mistura de sons e poder concentrar-me apenas no que realmente interessa…

Parece que o sol se foi embora. E a minha vontade de escrever foi com ele. Ainda hoje me pergunto por que somos tão voláteis e incompreensíveis. Quem me dera ser a brisa fresca que me beijou hoje os cabelos. Assim não tinha de pensar em nada, nem de construir relações, nem de alimentar afectos. Bastar-me-ia chegar de mansinho perto das pessoas e, sem magoar ninguém, beijá-las carinhosamente, como quem pisca o olho maroto e diz “Gosto de ti”.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Pego no violino...

Pego no violino e respiro fundo. A penumbra ajuda-me a esquecer um pouco os nervos. Enquanto as violas dedilham uns primeiros acordes eu experimento discretamente algumas notas soltas num pizzicato surdo para relembrar a tonalidade. Lá menor. ok. Ajeito-o debaixo do queixo e inclino a cabeça, enquanto repouso o arco perto do cavalete. Lanço-Te uma rápida mirada. Sorris. Sublime nessa cruz. Sorrio também. O arco toma a iniciativa e lança-se na música. As pessoas lançam-me olhares furtivos, surpreendidos pelo violino, admirados com a brusca iniciativa do arco e com os dedos que vão acertando com as notas. Não ligo. Vou respirando a resina que as cerdas do arco vão libertando na sua corrida. Aos poucos, todo o espaço se habitua à tua melodia e Tu entusiasmas-Te. A certo ponto já nem sei quem toca... eu ou Tu? A melodia pareceu encaixar com o momento de cada um. Eu desligo-me de tudo o resto, do violino, e rezo também, enquanto Tu continuas, sorrindo, a fazer o violino cantar. Também a mim me embalas, Senhor, nessa cantiga. E tocas tão bem! Atravessaste o espaço erguido pelas mãos de alguém e repousaste no altar. Indiscritível esse momento. Anuncias um ritardando subtil, desenhado pelo abrandar da corrida do arco, e, com duas longas notas, terminas a melodia. Levo o violino até debaixo do meu braço (movimento que o arco acompanha) e ajoelho-me perante Ti. Parece que ainda sorris mais, de sobrancelhas ainda mais arqueadas, maçãs do rosto mais definidas, lábio mais distendido, pregado nessa cruz. Acompanho-Te nessa alegria e digo ao meu violino que nessa noite temos de conversar. Ele sorri, feliz e arrogante. Eu sorrio, feliz e interrogante. Tu sorris, feliz e fascinante.

sexta-feira, novembro 18, 2005

áfrica minha...

Sonhei com a terra do pôr-do-sol
Onde as cores se confundem no calor
Que arde quente e faz brilhar
Na pele escura gotas de suor.
.
Imaginei um canto escondido
Onde ecoavam vozes meio gritadas
rezando a Deus, de olhar já rendido,
de bocas secas, barrigas inchadas.
.
Mas nessa terra há ainda esperança
(há ainda vontade de a ajudar!)
E as crianças, cobertas de pó,
Sabem sorrir e sabem sonhar.
.
Sabem amar, sabendo sofrer
E vão vivendo ao sbor do vento
Que embala o cheiro da sua cultura
Que as pinta por fora e as enche por dentro.
.
Para o ano... :)! mal posso esperar!

terça-feira, novembro 08, 2005

Aula de introdução ao direito... :)

"Perdão, senhor juíz!"
diz de algemas ou infeliz.
"Perdão, senhor, perdão!"
Grita, protrado, de olhar no chão!
.
"Eu já nem sei o que fiz!"
"Pobre coitado! Não sabe o que diz!
Pois tu espancaste o teu irmão!
Quase o matavas! Que queres, então?"
.
"Peço clemência... pra ser feliz..."
"Partiste-lhe a cana do nariz!..."
"Por favor! Prá cadeia não!"
E com um pé partiste-lhe a mão!"
.
"Ouça, você fez aquilo que quis."
"Estou inocente... não fiz o que diz!"
"Ficou provado!" "...é um aldrabão...»( "
"Que foi que disse? VÁ PRÁ PRISÃO!!"
.
Grande aula, não? :D

Reminiscência

Um poema pouco conhecido, mas lindíssimo. Claro que não fui eu que escrevi. eheh : )

Reminiscência

"...Lisboa, Santarém, Porto, Leiria..."
(eu sabia de cor toda a geografia)
O Senhor Inspector
deu-me a nota mais alta em geografia
e disse gravemente:
- "Continua. Hás-de ser gente..." -

"Ângulo recto, agudo,
cateto, hipotenusa...
(já manchara de giz a minha blusa
mas respondia a tudo
e a professora sorria
enquanto eu papagueava a geometria)
"...D.Sancho, o Povoador...
D.Dinis, o Lavrador...
(Tinha então boa memória,
sabia as datas da história...)
1580
1640
1143
em Arcos de Valdevez...
(Muito bem, sim senhor!
A pequena é simpática)
E depois, em voz alta, o senhor Inspector:
- Vamos à gramática." -

"...E, nem, não só, mas também...
conjunções copulativas"
(Eu pensava na alegria
que ia dar a minha mãe,
nas frases admirativas
da velha D.Maria,
a minha primeira mestra:
- Tão novinha e ficou "bem"!" -
e esta suavíssima orquestra
acompanhava em surdina
o meu primeiro exame de menina
aplicada, orgulhosa e inteligente...)

- "Vá ao quadro, menina! Docilmente
fiz os problemas, dividi fracções,
disse as regras das quatro operações
e finalmente
O Senhor Inspector felicitou-me,
quis saber o meu nome
e declarou-me
que ficara "distinta" sem favor.

Ah! que esplendor!
Que alegria total e sem mistura,
que orgulho, que vaidade!
Olhei de frente o sol e a claridade
não me cegou, julguei-a quase escura...
As estrelas, fitei-as como iguais.
Melhor: como rivais...
E a Humanidade
pareceu-me um rebanho sem vontade,
uma vasta colónia de formigas...
(As minhas pobres, tímidas amigas!)
Pouco depois, em casa, a testa em fogo, o olhar em brasa,
gritei num desafio
à terra, ao céu, ao mar, ao rio:
- "O mãe, eu já sei tudo!"
No seu olhar tranquilo de veludo,
no seu olhar profundo,
que era todo o meu mundo,
passou uma ironia tão velada,
uma ironia
tão funda, tão calada,
que ainda hoje murmuro cada dia:
"-O mãe, eu não sei nada!..."

Fernanda de Castro
Trinta e nove poemas (1941)

sexta-feira, novembro 04, 2005

Sísifo

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII

Nota (não sei se importante): Sísifo é uma personagem mitólogica condenada pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra montanha acima. Sempre que alcançava o topo, a pedra rolava outra vez para o sopé da montanha. Inutilmente. (Tal como nós?... Como quase tudo, é discutível. Mas quem não sente de vez em quando que carrega com esforço uma pedra pesadíssima só para no fim a ver rolar outra vez cá para baixo?)

terça-feira, novembro 01, 2005

Alice

Sinopse: Passaram 193 dias desde que Alice foi vista pela última vez. Todos os dias Mário, o seu pai, sai de casa e repete o mesmo percurso que fez no dia em que Alice desapareceu. A obsessão de a encontrar leva-o a instalar uma série de câmaras de vídeo que registam o movimento das ruas. No meio de todos aqueles rostos, daquela multidão anónima, Mário procura uma pista, uma ajuda, um sinal... A dor brutal causada pela ausência de Alice transformou Mário numa pessoa diferente mas essa procura obstinada e trágica, é talvez a única forma que ele tem para continuar a acreditar que um dia Alice vai aparecer.

Nota de intenções: Interessava-me na história de “Alice” explorar sobretudo a obsessão. Alguém que perde uma filha e que, sentido-se impotente para agir, cria um sistema paralelo de funcionamento, exterior à sociedade em que vive. Quando, à noite de regresso a casa, vemos os vídeos de Mário e toda aquela multidão anónima, em movimento continuo, já não sabemos se aquelas imagens são reais se apenas existem na cabeça de Mário.Um rosto igual a outro rosto, uma rua igual a outra rua, um dia igual a outro dia. A cidade como local de abstracção onde, alguém como Mário, pode estar profundamente isolado. Na procura de Alice, Mário conhece outras personagens, também elas, de alguma forma, sozinhas também elas isoladas na cidade onde vivem.“Alice” é sobretudo um filme sobre a ausência. Uma história de amor de um pai por uma filha.
Marco Martins

Alice. É, para mim, um filme estranho. E não é por ser português, não é por não ter um enredo com acção intensa e tiros e grandes reviravoltas. Não. É simplesmente um filme estranho, um filme deprimente, parado e angustiante. Não lhe achei enredo convincente (para além do óbvio - o desaparecimento de Alice e a busca obsessiva do seu pai), nem força interpretativa do actor principal, cuja personagem parecia de papel, embora todos os silêncios prolongados, todos os diálogos curtos e intensos tivessem uma força expressiva arrepiante. O ritmo lento (lentíssimo), embora cansativo, pareceu-me o ritmo adequado ao tema, bem como a repetição de espaços, personagens e ambientes sórdidos. Pelo menos exalta o valor da esperança e revela a dificuldade de a manter com a passagem do tempo... Do que gostei mesmo mais foi a música, que achei brilhante, sobretudo pela simplicidade do tema principal, recorrentemente ouvido, e que ficou a ressoar nas nossas cabeças bem para lá dos créditos finais.

Não aconselho nem desaconselho (quem sou eu para o fazer?). Apenas deixo aqui o meu testemunho, juntamente com a esperança que deposito no cinema português de que um dia, se é que não o começa a fazer já, traga a qualidade de representação e a universalidade de temas que sei existir em Portugal para as salas de cinema. E que, nessa altura, espectadores orgulhosos e apaixonados encham as salas nacionais gritando: "Viva o cinema português!"